Antão Manuel Fortes, Diretor Executivo da Cabeólica

A Cabeólica é uma empresa cabo-verdiana de referência na área da energia eólica assente na inovação tecnológica, que tenta diferenciar-se pela sua preocupação com o bem-estar das comunidades. Esta tem demonstrado ser uma missão bem-sucedida?

A Cabeólica é uma empresa privada, de direito cabo-verdiano, que resulta de uma PPP que visa o reforço da capacidade de produção de energia elétrica no país através de um projeto inovador que materializa as aspirações do país em aumentar a penetração de energias renováveis, mormente a energia eólica, nas redes elétricas concessionadas. É com orgulho que asseguramos que tem vindo a ser bem-sucedida na sua missão principal, apesar dos diversos desafios resultantes de ser o primeiro projeto desse género no país. Ao longo dos quase oito anos de operação, a empresa tem desempenhado um papel importante no reforço das políticas energéticas sustentáveis implementadas no país e tem tido um impacto relevante na redução da importação de combustíveis fósseis para a produção de eletricidade. É o maior projeto de energias renováveis jamais implementado em Cabo Verde, e, também, o primeiro projeto eólico de grande escala executado na região da CEDEAO. A consistência dos resultados apresentados pela empresa e o excelente desempenho conseguido têm sido fatores determinantes na colocação de Cabo Verde entre os países com as maiores taxas de penetração de energia eólica no mundo e o país com a maior percentagem de energia eólica na matriz elétrica em todo o continente africano.

É considerada a principal produtora de energias renováveis na matriz energética de Cabo Verde, produzindo quantidades substanciais de energia limpa para as redes nacionais. É neste sentido que a instituição tem vindo a desenvolver uma maior responsabilidade ambiental e social com os cabo-verdianos?

A entrada da Cabeólica no mercado elétrico implicou a integração nas redes de uma grande quantidade de energia limpa, 100% produzida localmente, reduzindo a dependência do país da importação de derivados do petróleo e da enorme volatilidade dos preços internacionais do barril. A empresa já entregou ao Comprador, a Electra S.A., mais de 590.000 MWh de energia eólica, o que representa, +/- 20% das necessidades de eletricidade do país. Para além dos benefícios financeiros, essa produção faz da Cabeólica a entidade que mais evita as emissões de CO2, contribuindo, assim, para o cumprimento das obrigações do país no combate contra a emissão de gases com efeito de estufa e para a promoção da saúde pública.

A empresa dedica-se ainda a integrar práticas de responsabilidade ambiental e social desde o início da operação comercial, participando na implementação de medidas de conservação da biodiversidade, particularmente no que se refere às espécies endêmicas e ameaçadas. Essa contribuição tem sido gratificante, e inclui uma quantidade significativa de dados relevantes para as comunidades científicas.

Obteve o reconhecimento internacional como uma das melhores parcerias público-privadas na África Subsariana, pelo International Finance Corporation e Infrastructure Journal, juntamente com a atribuição de vários prémios como Prémio Ashden, o Prémio de AfriCAN Climate Good Practice e o Prémio melhor projeto de energia limpa, na 1ª Gala Green Project Award. Que presença assumem estas distinções nacionais e internacionais para a Cabeólica?

A Cabeólica tem sido destacada, ao longo dos anos, pela contribuição para a sustentabilidade, por promover as boas práticas ambientais e por ser um exemplo, tendo em conta que foi o primeiro projeto eólico de larga escala na sub-região; a primeira PPP para as energias renováveis não-hídricas na África Subsariana; o primeiro projeto em um mercado emergente que promoveu um alto nível de penetração de energias renováveis na matrix energética e o primeiro pro­jeto de Clean Development Mechanism registado em Cabo Verde. As distinções atribuídas são bem-vindas e consideráveis incentivos para a empresa e seus investidores, dado que representam os excelentes resultados conseguidos e o impacto na notoriedade e reconhecimento da empresa.

O projeto Cabeólica é o único em Cabo Verde que integra no CDM – Clean Development Mechanism – junto da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Que importância tem a integração do vosso projeto no CDM?

É um orgulho para a Cabeólica ver o projeto reconhecido pelas NU como um projeto CDM. No fundo, simboliza que o projeto está alinhado com o desenvolvimento limpo e com os objetivos mundiais para a mitigação do crescente perigo que as mudanças climáticas representam. Tratando-se de um projeto que foi concebido com o objetivo de ser sustentável a nível ambiental, social e económico, o reconhecimento dessa entidade é um indicador de que os objetivos estão a ser cumpridos.

A integração no mecanismo tem sido igualmente importante porque permitiu a assinatura de um acordo para a venda de Reduções Certificadas de Emissões, que tem gerado rendimentos adicionais canalizados para apoiar as diversas atividades da empresa.

O domínio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), passa sobretudo pela cooperação económica e empresarial. De que forma é que a Cabeólica tem contribuído, no âmbito das suas relações e parcerias, para o crescimento destas relações? No seu entender, o que seria necessário mudar ou por onde se deveria começar?

Por natureza a Cabeólica não está diretamente envolvida em ações de promoção do espaço CPLP. Todavia, tem participado em fóruns internacionais de diálogo e promoção do espaço, nomeadamente na vertente energética. Recentemente, no Africa Energy Forum, que decorreu em Lisboa, foi anunciado o Compacto lusófono, uma iniciativa complementar de Portugal ao New Deal do BAD para “Light up and Power Africa”, direcionado para o espaço lusófono. O objetivo será acelerar financiamentos de projetos bancáveis para o setor energético da CPLP. Cabo Verde já aderiu ao Compacto.

Também de relevar o facto da empresa ser membro da ALER (Associação Lusófona de Energia Renováveis) uma organização internacional facilitadora de diálogo e de partilha de informação relevante desses setores nos vários países que compõem o espaço.

Como tem sido realizado o crescimento e a conquista de mercado por parte da Cabeólica em Cabo Verde?

A iniciativa de desenvolver o projeto da Cabeólica foi lançada pelo Governo de Cabo Verde, num momento em que o país se viu confrontado com elevados custos de produção de eletricidade e um déficit severo na capacidade de produção, resultando em cortes frequentes e duradouros de eletricidade e na procura reprimida. Sendo o maior projeto eólico conectado à rede, o projeto teve todo o apoio para integração rápida no mercado. Embora o comprador tenha, inicialmente, adotado uma abordagem conservadora, foi possível aumentar a taxa de penetração da energia eólica por via da formação e de diálogo contínuo entre as partes. A empresa tem apresentado um desempenho operacional muito positivo, em que 2014 foi o melhor ano de sempre em termos de taxa de penetração a nível nacional (24%) e 2018 o de melhor produção de energia elétrica (85.154 MWh).

Para terminar, quais são os grandes desafios de futuro da Cabeólica e de que forma pretendem continuar a promover uma atuação que assente no vosso lema: “Somos uma empresa de excelência e de referência mundial no setor das energias renováveis, criando valor para os nossos stakeholders e fortemente comprometida com a sustentabilidade”?

A intenção da empresa é evoluir, crescer e implementar mais projetos de energia eólica, muito em linha com as medidas recentemente tomadas pelo Governo, visando o aumento da capacidade instalada em energias renováveis, e com o objeto principal da Anergi, acionista maioritário na Cabeólica e empresa pan-africana vocacionada para o investimento privado em infraestruturas energéticas. Acreditamos, pois, que a empresa está bem posicionada para acompanhar o desenvolvimento do setor, mantendo sempre a competitividade em relação às alterações de preço dos derivados do petróleo para a produção de eletricidade e em relação a outros players que vão entrando no mercado.