Um produto eficaz no combate a bactérias resistentes a antibióticos; um software capaz de transformar nano-imagens em imagens 3D; um alimento que consegue controlar doenças de peixes de aquacultura ou um software para ajudar atletas de patinagem a treinar melhor. Estes foram os quatro projetos vencedores da edição 2018 do concurso de ideias Born from Knowledge (BfK Ideas), uma iniciativa da Agência Nacional de Inovação (ANI), que distingue as melhores ideias de negócio provenientes de Instituições de  Ensino Superior portuguesas.

Por vezes, a ideia surge da própria experiência pessoal, da observação de uma lacuna ou, simplesmente, de um espírito empreendedor. As fontes são diversas, mas a noção de como concretizar nem sempre é imediata. Valorizar o conhecimento científico e tecnológico é a missão do programa Born from Knowledge, promovido pela ANI no âmbito do SIAC – Iniciativa de Transferência de Conhecimento, cofinanciada pelo COMPETE 2020 através do Portugal 2020 e do FEDER, e que vai já na quarta-edição.

Com 30 projetos a concurso em quatro categorias – “Saúde e Bem-Estar”; “Turismo, Indústrias Culturais e Criativas”; “Recursos Naturais., Ambiente e Alterações Climáticas”; e “Materiais e Tecnologias Avançadas de Produção” –, a final deste ano terá lugar na próxima quinta-feira, 10 de outubro, no Instituto Politécnico da Maia.

Depois de participarem num programa de imersão, realizado em setembro, onde os concorrentes aperfeiçoaram as ideias de negócio e prepararam um pitch, os 30 projetos a concurso este ano vão agora defender a sua ideia perante um júri de especialistas em cada categoria. Os quatro vencedores terão acesso direto a um programa de aceleração de Ciência e Tecnologia (BfK Rise), também promovido pela ANI, que visa transformar o potencial de negócio da ideia em produtos e/ou serviços.

TopoSEM prestes a tornar-se spin-off  da Universidade do Minho e a comercializar software

Os vencedores de edições anteriores continuam a dar passos importantes para a concretização dos negócios que idealizaram, estando alguns deles em fase de entrada no mercado. É o caso do projeto TopoSEM, um software para a reconstrução sem calibração de superfícies 3D em imagens de microscopia eletrónica por varrimento, uma técnica laboratorial que pode ser usada no fabrico de chips, em biologia, em medicina, no desenvolvimento de novos materiais, entre outros. Com um mercado global à espreita, Diego Martínez Martínez, líder do projeto, afirma que o software está perto de chegar à sua versão final, devendo começar a ser comercializado ainda este ano. Paralelamente, a equipa envolvida no TopoSEM tem vindo a trabalhar para consolidar a electron SoftView, empresa que será detentora da marca e cujo registo está em curso, com vista a aumentar o seu portefólio de software científico. Está ainda em vias de alcançar o estatuto de spin-off  da Universidade do Minho.

O potencial de negócio é enorme, atesta o investigador, especializado em ciência dos materiais e, em particular, no desenvolvimento e caracterização de revestimentos. “O nosso mercado é global. Os equipamentos que vamos comercializar são bastante caros, superando muito facilmente o milhão de euros”, explica Diego Martínez Martínez.

Como pode um SNACk para peixes contribuir para a sustentabilidade ambiental?

“A nossa ambição é contribuir para um desenvolvimento sustentável do setor da aquacultura, ajudando a satisfazer as necessidades globais de pescado e cumprindo os objetivos da Agenda 2030 das Nações Unidas”. Está estabelecida a meta. O projeto SNACk for Fish, outro dos vencedores do ano passado, resultou da sinergia entre as investigadoras Cláudia Serra e Paula Enes, quando perceberem que possuíam especialidades complementares que poderiam solucionar um dos maiores problemas da aquacultura atual: a promoção da saúde dos peixes criados, diminuindo a carga de surtos bacterianos e o uso de antibióticos. Ambas integram o grupo de Nutrição e Imunologia de Peixes do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), liderado por Aires Oliva Teles.

Em concreto, o projeto SNACk for Fish descobriu novas bactérias com potencial probiótico, isoladas do intestino de diferentes espécies de peixes e capazes de combater alguns dos mais importantes agentes patogénicos que afetam a aquacultura. O próximo passo será realizar testes in vivo em três espécies de peixes diferentes e em condições de cultivo também diferentes, nomeadamente no que diz respeito à salinidade e à temperatura da água da aquacultura. Só depois será possível elaborar um dossier para submeter à aprovação da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA – European Food Safety Authority), permitindo a sua incorporação em dietas comerciais”, avança Cláudia Serra, acrescentando: “Estamos também a elaborar um pedido provisório de patente”. A investigadora acredita que, uma vez no mercado, “a solução SNACk for Fish terá um forte impacto económico e ambiental na indústria da aquacultura nacional e internacional. No universo Europeu existe apenas um produto aprovado”.

Ideia pode resultar em negócio de milhões para spin-off da Universidade do Porto

É oficialmente uma spin-off da Universidade do Porto, já com designação de start-up, e o seu produto tem vindo a receber prémios como o Innovation prize da AUXDefence. rheINforce Optimal Performance é uma das tecnologias vencedoras da edição de 2017, e que otimiza as propriedades mecânicas de qualquer material sólido, reduzindo impactos, vibrações e volume. Com aplicabilidade em setores como Transportes, Desporto ou Construção, entre outros, a solução permite melhorar as propriedades mecânicas da cortiça, por exemplo, potenciando o seu uso em contextos que, por si só, estariam fora do seu alcance.

Atualmente, os investigadores estão a desenvolver o protótipo de um capacete de bicicleta em aglomerado de cortiça onde se aplica a tecnologia rheINforce. Um laboratório independente atestou que “o nosso capacete ultrapassa todos os testes definidos por norma, como qualquer outro capacete de bicicleta do mercado. A única diferença é que o nosso capacete tem 33% menos volume, foi produzido com materiais com pegada verde, contribuindo para eliminar plásticos de um só uso como a esferovite, e não precisa de chapa exterior”, adianta Francisco Galindo, investigador sénior da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e Chief Technology Officer da rheINforce Optimal Performance.

Neste momento à procura de investidores, a start-up afirma “ter um potencial de negócio altíssimo, na ordem dos milhões de euros”.

 Patinagem artística inspira produto inovador

Catarina Silva é atleta de patinagem artística há 15 anos. Com apenas 21, venceu no ano passado uma das categorias do concurso de ideias BfK, onde apresentou o projeto Figure Follow, para o qual se inspirou na sua própria experiência. “Sendo a patinagem artística a modalidade do meu coração, queria fazer algo mais por ela. Pensei assim no conceito do Figure Follow, não só para me ajudar enquanto atleta com muitas dificuldades na execução de figuras obrigatórias, mas também às crianças que iniciam o seu percurso nesta disciplina, especialmente porque as figuras obrigatórias permitem ensinar equilíbrio, postura e concentração, coisas importantes para qualquer outra disciplina. Pensei num objeto que se pudesse criar de modo a fazer com que as figuras obrigatórias se tornassem mais divertidas. Recorrendo aos meus conhecimentos na área de multimédia e tendo aprendido a trabalhar com programação, consegui criar uma interface interessante para qualquer atleta utilizar”, conta a diplomada em Audiovisual e Multimédia pela Escola Superior de Comunicação Social, selecionada pelo Instituto Politécnico de Lisboa para representar a instituição.

O Figure Follow é, portanto, um produto inovador no mundo da patinagem artística que tem como objetivo ajudar os atletas a alcançar um dos seus principais objetivos: permanecer em cima da linha marcada no ringue. Para o desenvolver, Catarina Silva viu este ano ser-lhe aprovada uma bolsa de investigação no Instituto Politécnico de Lisboa, atribuída pelo IDI&CA (Investigação, Desenvolvimento, Inovação e Criação Artística). Ainda não sabe quando o seu negócio será uma realidade, mas tem já a certeza de um enorme potencial: o mercado em perspetiva é global, “uma vez que não há grandes entidades a desenvolver ideias para apoiar esta modalidade, que luta para se tornar uma disciplina olímpica. Como tal, acredito que com a estratégia de comunicação correta e com grandes oportunidades, será possível alcançar todo este mercado”.