Quais diria que são os maiores desafios ao investimento no país?

Moçambique é sem dúvida um país de enormes potencialidades e oportunidades. A sua localização estratégica privilegiada, com uma enorme linha de costa de mais de 2500km, extensas terras aráveis, abundância de recursos naturais, minerais, hídricos e energéticos colocam o País como um apetecível destino para investimentos tanto nacional quer estrangeiro. Não obstante estes factores, o investimento privado, apesar de manter uma tendência crescente ao longo dos anos, ainda se situa longe dos níveis desejados, prevalecendo desafios estruturais e conjunturais ligados ao ambiente de negócios, com destaque para escassez ou fraca qualidade de infra-estruturas, fraca especialização, acesso ao financiamento, obstáculos burocráticos, administrativos, normativos, jurídicos e legislativos.

É preciso referir contudo que o país tem vindo a adotar e implementar com algum sucesso um conjunto de medidas arrojadas para reverter este cenário, com forte envolvimento do setor privado local, como é o caso do PANAM – Plano de Ação para a Melhoria do Ambiente de Negócios – que é um projeto liderado pelo Ministério da Indústria e Comércio visando implementar reformas nas unidades de fiscalidade, comércio & serviços, legalidade & regulamentação, produção & produtividade e formação & capacitação ao nível de todos os sectores económicos. Acredito que estas iniciativas, uma forte interligação entre os sectores público e privado, irão contribuir para criar um ambiente de negócios que promova o investimento e competitividade empresarial que todos almejamos.

Por outro lado, e um pouco no seguimento do recente anúncio da decisão final do investimento (DFI) para o projeto de exploração do gás no norte do país as perspetivas económicas para os próximos anos são animadoras, uma vez que se prevê um aumento da produção no setor mineiro, a melhoria das condições logísticas e a entrada de novos operadores no setor de gás. Neste quadro, é vital que apostemos definitivamente num modelo de desenvolvimento económico verdadeiramente diversificado e que a dinâmica que resulte da atividade do sector mineiro funcione como verdadeira alavanca dos demais. Nesta conjuntura, sublinhe-se ainda que, o país deverá apresentar no plano macroeconómico um grande “foco” muito especial no que concerne à revitalização de algumas empresas públicas estratégicas, mas em simultâneo adotar um sentido de maior desgovernamentalização da economia e por conseguinte uma política reformulada assente numa estratégia mais orientada para eventuais privatizações de algumas dessas empresas. Neste virar der pagina, é ainda indispensável e critico uma forte orientação para um forte rigor orçamental e a condução de uma política monetária que pugne pela estabilidade do metical e da inflação.

Este ano foi alvo de reconhecimento pela revista “The Banker”, que atribuiu ao Moza o prémio de “A melhor Operação de Restruturação Financeira do Ano 2019”, a nível do continente africano. Que tipo de programa de reorganização e restruturação financeira foi implementado pelo Banco?

No quadro da nossa história recente e da ambição que almejamos alcançar no futuro próximo, sempre tivemos em mente que era muito importante a formação de uma parceira com uma Entidade Internacional de elevada reputação e conhecimentos no setor financeiro. Não se trata de uma mera preocupação a nível reputacional, que também é importante, mas acima de tudo uma forma eficaz, através de transferência de tecnologia, Know-how e Skills, de beneficiarmos de uma melhor capacidade competitiva e estarmos em linha com as melhores práticas do mercado internacional.

Foi neste enquadramento, que no início de 2018, identificou-se a Arise B.V., uma sociedade de direito holandês, cujos acionistas são o Rabobank (um Banco holandês de referência naquele país), Norfund (O Maior fundo de investimento Norueguês) e o FMO (Fundo de investimento Holandês), Instituição essa com quem viríamos a negociar a sua entrada no Capital do Banco, através de uma operação complexa e estruturada que abarcaria não só a recomposição da estrutura acionista, como a reformulação do valor nominal das acções e recomposição dos capitais próprios, bem como ainda a aquisição de 100% do capital de uma terceira Instituição, o Banco Terra, a qual viria posteriormente a ser objeto de uma fusão por incorporação em agosto do ano corrente no próprio Moza Banco.

Uma operação desta natureza no actual contexto moçambicano claramente trouxe desafios significativos para a sua conceção, uma vez que a legislação vigente no país e a respectiva regulamentação apresentavam limitações para o nível de complexidade e exigência da mesma.

Para o sucesso e alcance dos objetivos preconizados, foi determinante (i) a persistência e foco no alcance do objetivo final traçado, (ii) a clareza e sistematização dos objetivos desta operação em cada estágio e fases e (iii) o compromisso de todas as partes envolvidas na operação.

Por tudo isto, muito nos orgulha esta distinção, que importa salientar transcende as fronteiras nacionais, atingindo a dimensão do continente africano.

Atualmente posiciona-se entre os cinco maiores bancos do país. Este posicionamento a muito se deve a esta restruturação?

Após o saneamento financeiro operado no exercício de 2017, imprimimos uma nova dinâmica comercial por forma a colocarmos o banco de uma forma sustentada num patamar em harmonia com os objetivos traçados pela gestão. A operação de reestruturação, permitiu a recuperação acentuada e sustentada dos principais indicadores de negócio. Em 2018, a carteira de crédito cresceu em 20% colocando o Banco a atingir uma quota de mercado de 8,66% (2017: 7,42%). O mesmo ocorreu com os recursos de clientes que cresceram em 39% permitido ao Moza atingir uma quota de mercado de 5,92% (2017: 4,74%). Neste caso, a operação da fusão entre o Moza e o BTM integra-se na estratégia de crescimento em conjunto com outras iniciativas cuja ambição é tornar o Moza num Banco universal, com uma dimensão abrangente na prestação de serviços financeiros de qualidade e cobrindo todos os nichos de mercado, disputando desta forma, um lugar de relevo no panorama do sistema financeiro nacional. A reestruturação e fusão com o Banco Terra, certamente contribuiu para recolocar o Moza entre os principais Bancos do país.

Em agosto deste ano, concretizou-se formalmente a fusão entre o Moza Banco e o Banco Terra S.A. Porque decidiram o Moza e o BTM fundir as suas atividades?

Após concluir, e com sucesso, as operações de aumento de capital e inserção da Arise no capital do Moza BANCO, e por sua vez a aquisição da totalidade do capital do Banco Terra, os acionistas do Moza Banco e do Banco Terra, reconhecendo o potencial existente em cada uma das nossas duas instituições, e a complementaridade dos princípios, valores e visão de futuro, decidiram em Assembleias Gerais dos dois Bancos, concretizar uma fusão entre estas duas Instituições na modalidade de incorporação do BTM no Moza Banco.

Esta fusão, como é natural, foi norteada por diversos fatores, uns de natureza estratégica, outros económicos e alguns até de ordem conjuntural. Mas no fundo o importante era potenciar a experiência acumulada de 11 anos que as instituições tinham no mercado nacional, explorar competências diferenciadas que elas detinham, e traduzir em valor acrescentado para o cliente o resultado final desta nossa operação. E foi isto que fizemos e temos vindo a fazer, aproveitando o que de melhor as duas Instituições podiam oferecer ao mercado, somando mais competências mais produtos e mais serviços numa oferta alargada a um maior número de clientes.

A fusão entre o Moza e o BTM, em nosso entender, representa ainda, um passo na consolidação do Sistema Financeiro Nacional que atendendo as características da conjuntura atual, tudo indica, ser um caminho incontornável num futuro próximo.

De que forma é que esta fusão pode ser um passo determinante no sentido da construção e consolidação não só da nossa Instituição como do próprio Sistema Financeiro?

A fusão por incorporação do BTM pelo Moza, marca o início de uma nova fase em que nasce uma instituição combinada, mais forte e equilibrada, alavancando as sinergias e forças existentes em cada um dos bancos. Garante uma uniformização dos procedimentos e uma operacionalidade integrada, com observância dos mesmos princípios estratégicos, assegurando, desta forma uma racionalização de meios e esforços que possibilitam uma gestão sã, eficiente e prudente, em como um exercício mais salutar e competitivo das atividades quer do Moza, quer do extinto BTM. É nossa expectativa e convicção que no período pós fusão o Moza registe um crescimento sustentável, lucrativo e com uma solidez cada vez maior de modo a que a instituição venha a assumir uma posição de relevo no sistema financeiro nacional e contribuir para o desenvolvimento de economia nacional. Com a robustez institucional solidificada proveniente da operação fusão por incorporação do BTM, os consequentes reforços a nível de infra-estrutura, recursos humanos e tecnológicos, estão criadas as condições para que a nossa instituição rapidamente venha a ocupar um papel de maior relevo no panorama do Sistema Financeiro Nacional. Instituições fortes e sólidas são sem dúvida a base para a robustez do sistema no seu todo. Com a fusão, o posicionamento do Moza no setor bancário irá melhorar significativamente, reforçando a competitividade no sector financeiro moçambicano em geral.

A Visa também reconheceu o crescimento do Moza com a atribuição dos prémios: Visa Cross border champion award, E-Com warrior award e Visa Premium Award 2019. Este reconhecimento vem reforçar o investimento continuo do Banco na inovação na banca e nos serviços financeiros em geral?

O Moza Banco ao longo destes anos tem recebido várias distinções pelo seu desempenho e qualidade de serviço, e 2019, não tem sido exceção. A mais recente veio da rede VISA internacional, que nos distinguiu com: “A Visa Cross border champion award” que nos distingue como o banco que mais cresceu em transações por cartão no estrangeiro; O “E-Com warrior award” que destaca o Banco como o que apresentou o maior crescimento no volume de transações online e, o “Visa Premium Award 2019” – distinguindo-nos como o Banco que registou o maior crescimento na emissão e nas transações na gama de cartões Platinum.

Estas distinções representam um sinal inequívoco da confiança dos nossos Clientes no Banco, e neste caso em particular, na diversidade de meios de pagamento que o Moza disponibiliza, que se apresentam bastante seguros, fiáveis, práticos e abrangentes e com inúmeros benéficos, para efectuar transações quer sejam online ou presenciais, nacionais ou no estrangeiro. São é sem dúvida o reflexo do nosso contínuo e crescente investimento na inovação na banca e nos serviços financeiros em geral.

Para além do investimento financeiro, o Moza investiu recentemente na sustentabilidade de hospitais em Nampula e Tete. Estas ações enquadram-se na vossa política de Responsabilidade Social como uma aposta no estabelecimento e fortalecimento das relações. Como é que este mecanismo pode trazer uma maior e melhor sustentabilidade da sociedade e do Banco?

De facto, o nosso investimento não se cinge apenas a vertente de negócio. É nosso entendimento que o crescimento do Banco só será efetivo se gerar um impacto positivo nos nossos stakeholders, no meio ambiente e na sociedade em que estamos inseridos. Por essa razão, a Politica de Responsabilidade Social do Moza Banco, destaca o nosso compromisso de desempenhar a nossa atividade de modo a contribuir para o progresso económico e social das comunidades, sobretudo onde temos presença comercial.

Dentro desta visão, temos dedicado grande atenção na implementação e apoio a várias iniciativas ao nível da sustentabilidade, social, ambiental e financeira, com particular enfoque para as áreas da saúde, educação, preservação ambiental e proteção de espécies em extinção, literacia financeira, artes e cultura, entre outras. É neste contexto que se enquadram as ações recentes de apetrechamento dos hospitais em Tsangano, Memba, Murrupula e Malema, Distritos onde o Moza é atualmente a única instituição financeira com presença física, garantindo as populações locais, o acesso a serviços financeiros com toda a segurança, conveniência e comodidade.

Acreditamos que no contexto atual, a sustentabilidade empresarial, está intrinsecamente ligada a capacidade das instituições, incorporarem fatores sociais e ambientais nos seus planos de desenvolvimento, bem como em suas práticas do dia-a-dia. Por isso, iremos certamente incrementar a nossa contribuição neste domínio, consolidando as iniciativas em curso, assim como expandir e desenvolver novos projetos para o nosso público interno como externo.

Prevê-se que Moçambique tenha um crescimento económico acelerado para os próximos anos. Sendo Moçambique um dos países com mais destaque naquela que é a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Do ponto de vista da cooperação, como avalia o país perante os outros países lusófonos relativamente a este setor?

Os Países da CPLP materializam a cooperação entre os mesmos (bilateral ou multilateral) no âmbito do setor financeiro através dos encontros periódicos realizados entre os representantes dos respectivos bancos centrais, com o objetivo de trocar experiencias sobre os vários subtemas do setor, que passam pela inclusão e formação bancária, supervisão bancária, sistemas de pagamentos, digitalização e outros. É assim que o Banco de Moçambique também integra o grupo acima referido para a partilha de conhecimentos. Neste momento, Moçambique posiciona-se como o 3º maior parceiro de Portugal em ações bilaterais no grupo de países da CPLP que visam contribuir para a estabilidade monetária e financeira.

O Moza Banco é atualmente a terceira maior rede de distribuição composta por cerca de 60 Unidades de Negócio espalhadas por todo o país. De forma a disponibilizar serviços financeiros a um mercado de clientes cada vez mais alargado, como é que o Moza Banco pretende continuar a crescer?

Somos de fato o Banco com a 3ª maior rede de Agências do País, composta atualmente por cerca de 62 Unidades de Negócio espalhadas por todas as capitais provinciais e alguns Distritos e Vilas. Ao longo do corrente mês de outubro, inauguramos 5 novas Agências em Distritos que, até então, não tinham cobertura em termos de rede de Agências bancárias, ampliando deste modo a nossa condição de um banco verdadeiramente universal em termos de cobertura do espectro do negócio bancário, e com forte implantação nacional. É nossa pretensão colocar os nossos produtos e serviços mais perto das populações, afirmando-nos como um dos principais players na aceleração do processo de bancarização e inclusão financeira do país. Mas temos sabido privilegiar outros canais alternativos, assentando a nossa atividade na inovação e em meios tecnológicos que nos permitam aliar a ambição e a funcionalidade, a níveis de eficiência em linha com as melhores práticas do mercado.

Num país como o nosso, é difícil no curto-médio prazo, dotarmos o país de uma rede de agências bancárias de proximidade que consigam servir eficientemente a população, vai assim demorar algum tempo até que o consigamos. As novas tecnologias e o digital têm por isso um papel fundamental na inclusão financeira, e por essa razão a tecnologia e inovação constituem um pilar fundamental do nosso posicionamento estratégico. Orgulhamo-nos por sermos um dos bancos na linha da frente do processo de expansão do acesso aos serviços financeiros, quer pelo lançamento de produtos e serviços inovadores para os não bancarizados, quer pela criação de novos modelos de banca direcionados na sua maioria para a inclusão financeira. Por sermos o único banco com a maioria do capital Nacional, a nossa responsabilidade é ainda maior neste domínio.