“A CPLP NAS NAÇÕES UNIDAS”

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) tem o estatuto de membro observador da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) e é nessa qualidade que o Secretário Executivo da CPLP participa anualmente na semana de alto nível deste órgão, em Nova Iorque, este ano realizada entre 22 e 27 de setembro.

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Secretário Executivo CPLP FRANCISCO RIBEIRO TELLES

O tema central foi, como sabemos, a ação climática, uma emergência que a todos convoca e que exige mudança de mentalidades e de atitudes da parte dos governos e de cada cidadão. A par deste assunto, nos vários encontros de trabalho que mantive naquela cidade, dei também destaque à defesa do multilinguismo e, nesse contexto, à promoção da Língua Portuguesa no sistema internacional.

Os resultados da Cimeira do Clima apontam para um compromisso reforçado com a economia verde. Foi dado um enfoque importante aos Pequenos Estados Insulares e aos Países Menos Desenvolvidos – grupo que inclui grande parte dos países da CPLP -, os quais, contribuindo menos para o problema, acabam por constar entre os principais afetados pelos impactes das alterações climáticas.

Num ano em que o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) comemora 30 anos e em que a UNESCO declara o dia 5 de maio como Dia Internacional da Língua Portuguesa, foi com grande satisfação que ouvi todos os Chefes de Estado e de Governo da CPLP usarem o nosso idioma comum para proferirem as suas intervenções. A ouvi-los tiveram, entre outros responsáveis da ONU, um cidadão da CPLP, o Eng.º António Guterres, bem como representantes dos 193 países daquela organização internacional, demais observadores e milhares de jornalistas.

Intervir em português no debate geral da AGNU é já uma prática tradicional, que resulta da coordenação no seio da CPLP. Mas, nem por isso devemos desvalorizar o seu simbolismo e o seu alcance, até porque, para que aconteça, os Estados-Membros da CPLP têm que despender recursos financeiros próprios.

Os custos associados à interpretação e à produção de todos os documentos da ONU nas seis línguas oficiais da organização, lista de que o português não faz parte, ascendem a 250 milhões de dólares/ano. O custo da introdução de uma nova língua oficial rondaria hoje, segundo as estimativas que me foram apresentadas em Nova Iorque, 80 milhões de dólares/ano. Falamos, assim, de um enorme investimento financeiro e, igualmente, de um colossal esforço diplomático, que os nossos Estados-Membros deverão avaliar adequadamente, sem prejuízo de devermos manter como meta a consagração da Língua Portuguesa como uma das línguas oficiais da ONU.

Prosseguiremos, entretanto, os nossos esforços para a promoção do português no sistema internacional. Relembrando que o nosso idioma é já língua oficial e de trabalho em mais de 30 organismos, continuaremos a apoiar e a colaborar com os serviços de informação pública das Nações Unidas, em particular com a Rádio ONU em português, na produção de conteúdos e na difusão de notícias sobre os nossos países. A este propósito, é importante salientar que o português é uma das oito línguas que a ONU utiliza, a par das suas línguas oficiais e do suaíli, para efeitos de disseminação global de informação. Refiro, também, com agrado, a existência no espaço da CPLP de um Centro de Informação da das Nações Unidas no Rio de Janeiro e a previsão de abertura de um outro, em Luanda.

Sobre esta relação global entre a CPLP e a ONU, que remonta ao ano de 1999, relembro ainda que em setembro último foi mais uma vez aprovada, por consenso, uma Resolução da Assembleia Geral sobre a cooperação com a CPLP, subscrita por mais de 90 países das Nações Unidas. A Resolução reconhece a ação complementar que a nossa Organização traz ao trabalho da ONU no âmbito da implementação da agenda 2030 do desenvolvimento sustentável, da segurança alimentar e nutricional, da promoção dos direitos humanos, entre outros temas. E foi, igualmente, reconhecida a importância de se promover mais concertação e coordenação internacional em torno da construção e da manutenção da paz.

Em conclusão, direi que a relevância da língua portuguesa e da ação dos Estados-Membros da CPLP vem-se refletindo na concertação internacional e na ação dos organismos internacionais, pelo que estou convicto que a CPLP desempenha um papel cada vez mais ativo na defesa e promoção do multilateralismo.