Para promover o denominado empreendedorismo feminino, o CTIE, da Católica Lisbon School of Business and Economic, lançou o Prémio Women Entrepreneurship Award. Antes de tudo, interessa compreender qual a sua opinião sobre estes reconhecimentos e iniciativas no âmbito da promoção do Empreendedorismo Feminino?

Quando existe uma competição em que os inscritos são maioritariamente homens, a probabilidade de uma mulher chegar ao podium é reduzida. E como só os vencedores têm visibilidade, fica a sensação de que é preciso ser-se homem para ganhar. A Universidade Católica apresentou um estudo que revelou que entre os seus estudantes de Gestão apenas uma em cada 13 raparigas admitia a hipótese de se tornar empreendedora, enquanto o número era bem maior entre os rapazes. Repare que a corrida ainda nem começou e elas já nem se inscrevem na competição! É preciso mostrar que existem mulheres que decidem criar a sua própria mesa para garantir um lugar à mesa das decisões. E é preciso mostrar que esse caminho é possível. Por isso considero tão importantes estas iniciativas de promoção do empreendedorismo feminino.

Esteve presente como uma das três finalistas. Qual o seu sentimento por ter conseguido marcar presença no pódio desta iniciativa?

Alegria e surpresa, sobretudo. Nós, mulheres empreendedoras, estamos muito pouco habituadas a que repararem que existimos. Sobretudo, senti-me muito feliz por poder dar visibilidade a um projeto cujo objetivo é oferecer formação gratuita para promover a igualdade de género. Através da mindflow, pretendemos oferecer formação gamificada online, que permita às mulheres de Portugal e de outros países, desenvolver conhecimentos que as preparem para a Liderança e o Empreendedorismo.

A sua presença fica marcada pelo desiderato de lançar o Women Empowerment, que consiste numa plataforma de mobile App para formação gratuita de mulheres. Explique-nos um pouco mais sobre este produto. Quais as valias do mesmo?

A Mindflow, a empresa que lidero, desenvolveu um conjunto de soluções de aprendizagem e desenvolvimento com muito sucesso na retenção do conhecimento e na motivação para a aprendizagem. Através de aplicações móveis já formámos pessoas em 20 países (Europa e África) nas mais variadas áreas de conhecimento. É uma forma barata e eficaz de divulgar conhecimento. E esse foi o sonho com o qual procurei contagiar a audiência: usar a nossa plataforma de jogos de formação em aplicações móveis para o desenvolvimento gratuito das mulheres em áreas de conhecimento como Desenvolvimento pessoal e social, Liderança e Empreendedorismo.

Mesmo não tendo ficado no primeiro lugar, de que forma é que este projeto se vai concretizar e quais as suas expectativas para o mesmo?

Neste momento estamos numa fase inicial para definirmos um protocolo com um movimento global que tem por objetivo uma liderança equilibrada de género através de desenvolvimento profissional e network. Ainda não posso identificar a organização, mas acredito que em breve estaremos em condições de divulgar esta parceria e começar a disponibilizar as primeiras formações gratuitas online. A par desta potencial colaboração, está também em cima da mesa a possibilidade de contribuirmos para o desenvolvimento de raparigas na Nigéria. Este é um país com o qual já trabalhámos e que mostrou uma excelente adesão à nossa metodologia.

Em que moldes é que este projeto se irá desenvolver no futuro?

A nossa visão é começar por Portugal e outros países da Europa e estender tão breve quanto possível esta possibilidade a países em vias de desenvolvimento, nomeadamente de África. Até aos primeiros mil utilizadores temos a oferta de formação gratuita assegurada. Entretanto, precisaremos de divulgar e procurar parceiros para que a formação possa continuar a acontecer de forma gratuita. Ao longo do desenvolvimento do projeto, estamos muito abertos à contribuição de Universidades, especialistas e empresas que queiram contribuir com os seus conhecimentos para a criação de mais conteúdos de formação.

O facto de este produto não ser somente a nível nacional, mas também a nível internacional é uma grande vantagem? Qual a importância deste além-fronteiras do produto?

Sabemos que os especialistas estão mais concentrados numas regiões geográficas do que noutras, mas como se trata de uma aplicação móvel, acessível a partir de um telemóvel, os custos de o proporcionar a uma mulher em Portugal, na Roménia, em Angola ou no Brasil são os mesmos. Então podemos facilitar o conhecimento a mulheres que têm menos acesso a ele e podemos facilitar laços sociais e profissionais pelo mundo fora.

Esteve na final com Ana Palmeira de Oliveira, Cofundadora da Labfit e com Joana Rafael, Cofundador da Sensei. Que sentimentos e sensações por ter partilhado este palco com estas duas intervenientes de valor?

Simplesmente fantástico. A Ana Palmeira de Oliveira tem criado e distribuído novos medicamentos para a saúde feminina (tem três patentes!) e a Joana Rafael está à frente de um projeto altamente tecnológico (para mim, verdadeira ficção científica!) e tenho a certeza que será uma inspiração para tantas jovens que partem do princípio de que a tecnologia é um mundo masculino.

O objetivo do prémio passa por sensibilizar para o preconceito de género no empreendedorismo e dar visibilidade ao Empreendedor Feminino de sucesso em Portugal para inspirar as gerações futuras. Sente que estes géneros de iniciativas são de facto o caminho do futuro em prol do Empreendedorismo Feminino?

Sinceramente, acredito que sim. Estudos da BCG mostraram que, embora nos últimos 25 anos o número de mulheres com formação académica e 10 anos de experiência profissional tenha aumentado mais de 60%, a quantidade de mulheres na liderança nem 10% aumentou; que os investidores investem menos de metade em empresas lideradas por mulheres do que em empresas lideradas por homens, apesar dos dados revelarem que as empresas lideradas por mulheres geram mais receita do que as lideradas por homens. Por isso sim, ainda há muito a fazer. Aumentar a visibilidade dos casos de sucesso é particularmente importante, não só para apoiar essa minoria de mulheres, mas também para dar às jovens, modelos femininos que lhes permitam sonhar com novas oportunidades, que lhes permitam acreditar que é possível.

Olhando um pouco para a globalidade, sente que hoje é mais fácil para um Mulher apostar no Empreendedorismo? Sente que hoje o cenário é mais favorável para a Mulher Líder ou ainda temos de continuar a eliminar e a ultrapassar obstáculos?

Nunca foi tão favorável. Porém, tão longe estamos de que seja, de facto, favorável. Embora a investigação demonstre que quando há mais diversidade de género na liderança de uma empresa a faturação proveniente da inovação aumente 30%, em Portugal há apenas 22% de mulheres em cargos de Direção e menos de 10% em comissões executivas. Há ainda muito caminho a fazer na mudança social. E, na minha opinião, essa mudança passa por aumentar a consciência do que todos temos a beneficiar (homens, mulheres, empresas, economia, política), passa por continuar a estimular a educação das mulheres (nomeadamente em competências que não são desenvolvidas pela escola) e passa por definirmos objetivos específicos para atingir objetivos de equilíbrio de acesso à liderança. É por isso que sou a favor das quotas de género e é por isso que defendo iniciativas de desenvolvimento da network profissional das mulheres.

O que podemos continuar a esperar de si para o futuro?

Continuar a contribuir para aplicar a Psicologia ao desenvolvimento e à Felicidade das pessoas. Porque continuo a acreditar que aprender pode ser divertido, que é mais eficiente quando respeitamos a forma como as emoções influenciam a memória, a aprendizagem, a motivação… E porque considero que o desenvolvimento e a felicidade são os ingredientes para transformar o nosso mundo num mundo melhor.

Que mensagem lhe aprazaria deixar a todas as Mulheres, principalmente aquelas que têm no seu seio uma veia empreendedora?

Sejam empreendedoras em algo que realmente gostem, algo que tenham prazer em fazer, porque haverá momentos difíceis e terão que trabalhar muito, mas a paixão aumenta-nos a força para resistir e a criatividade para encontrar a solução. E, sobretudo, nunca se esqueçam: os obstáculos só existem para testarem a nossa persistência.