Nora Cavaco

De que forma surge o gosto pela saúde mental?

O gosto pela saúde mental, surge desde sempre. Já são cerca de 20 anos a trabalhar nesta área. Tenho uma formação em educação na infância e desde cedo, comecei a trabalhar com crianças com dificuldades de aprendizagem, em especifico, com o transtorno do espectro do autismo. Esta problemática (autismo), desenvolveu a minha curiosidade e levou-me a trabalhar e a aprofundar um pouco mais, tudo aquilo que fui estudando, através de muitas pesquisas e teses. Através deste meu interesse, estou inteiramente ligada a este transtorno de neuro-desenvolvimento, sendo licenciada em Psicologia da Educação e Reabilitação, pela UALG, Pós-Doutorada em Intervenção Precoce no Autismo, Doutora em Educação Infantil e Familiar – Investigação e Intervenção Psicopedagógica, Pós-Graduada em Neurociências Aplicadas à Educação, pela FAPSS (Brasil), formação avançada em TREC – Terapia Racional Emotiva pelo Instituto Albert Ellis de Nova York, em Dialética Método de Marsha M. Linehan e em Neuropsicologia e Demências, pela Universidade de Barcelona. Assim, através de todo este conhecimento, cada vez que me debruço sobre esta temática da saúde mental, faço-o com uma nova abertura, com uma nova amplitude, flexibilidade de pensamento e capacidade de avaliar o nosso próprio entendimento sobre o desenvolvimento humano.

O que a fascina nesta área?

É conseguir ver a felicidade das pessoas com que trabalho. O autismo nas suas múltiplas formas em que se manifesta revela-se intrigante, desafiando e testando a todo o momento os nossos saberes, as nossas teorias e conhecimentos. Conviver com o autismo implica da nossa parte, uma enorme sensibilidade, conhecimento, flexibilidade psico socioemocional e comportamental, de forma a desenvolver outros olhares, outras formas de ver e sentir os outros e o mundo em que eles e nós nos inserimos.

Sei que não é uma área fácil, e, por não o ser, comecei a olhar para esta problemática de uma maneira diferente, ou seja, para além da visão geral, com o objetivo de poder chegar até eles.

O campo da neurociência é realmente admirável, porque possibilita-nos o acesso a um conhecimento que nos permite entender a funcionalidade típica e atípica do ser humano.

Entender o desenvolvimento humano é entender como o sujeito entende o mundo mesmo nas suas peculiaridades, e claro que, trabalhar em prol da reabilitação ou a habilitação de competências/ habilidades e dar respostas às famílias, também me fascina de igual forma.

É fundadora e diretora geral do The Nora Cavaco Institute. Como psicóloga, defende as terapias adequadas ao autismo?

Claro que sim! Estas terapias são uma forma de preparar e capacitar estas pessoas para o mundo e para a sociedade/microssistemas, onde estão inseridos. Tratam-se de pessoas que têm uma funcionalidade diferente das outras. Não se trata de uma doença, mas sim de um transtorno de neuro-desenvolvimento que incide sobre o comportamento da pessoa e da forma como se comunica, ou seja, têm uma fragilidade e um comprometimento na interação social e comunicação social. Para isto não existe cura, mas sim terapias, e é através destas terapias que felizmente temos conseguido bons resultados.

Como se manifesta o autismo?

Não existem testes específicos que nos ajudem a perceber se a criança sofre deste transtorno, e os que existem são de cariz qualitativo, ou seja, para detetar, é preciso que essa identificação seja feita por uma equipa multidisciplinar.

Normalmente eu faço esse reconhecimento, porque conheço as várias áreas que estão comprometidas. Esta postura, enquanto investigadora, psicóloga e docente é essencial já que me possibilita cruzar conhecimentos e saberes, falar uma outra linguagem, ouvir todos os sinais e sons, mesmo que me pareçam silenciosos.

A intencionalidade no olhar que não existe, todo o comportamento desenquadrado que se mantém durante uma temporalidade significativa e em vários contextos (casa, espaços clínicos, escola), na forma como comunicam (verbal e não-verbal), ou na maior parte das vezes, na ausência dessa comunicação, tudo isto são formas do autismo se manifestar.

Através de uma diversificada e correta avaliação neuropsicológica, é possibilitada uma intervenção consciente e adequada a respeito da reabilitação neuropsicológica da pessoa autista, com o objetivo de melhorar as suas funcionalidades e assim promover nestas crianças, adolescentes e adultos uma melhor qualidade de vida.

O mundo do autista é o nosso mundo! Definir o autismo não é tarefa fácil visto que as fronteiras existentes entre as várias perturbações do espectro autista são muito ténues.

Considera que as escolas em Portugal dispõem de meios adequados para prestar apoio a crianças com transtornos do espectro autista?

Não, e é emergente que as nossas escolas tenham este conhecimento no sentido de existir uma maior capacitação e treino dos nossos docentes para saberem identificar o que mais comprometido a criança em sala de aula revela e ajustar um plano educativo individual, tranquilamente solicitando o apoio necessário. Atualmente, sou contactada muitas vezes por docentes que se sentem incapazes e que não têm ajuda nenhuma neste sentido.

Esta via transdisciplinar de conhecimentos e recursos (incluído a família), permite que todos sejamos mais eficazes na prática, no trabalho com todas as crianças que diretamente e indiretamente a estas estão ligados como dentro da sala de aula.

Falta nas escolas a capacidade de entender o autismo, como um ser em desenvolvimento ao logo da vida, capaz de aprender; e vislumbrá-lo como um ser aprendente, apesar de todas as barreiras e de todas as contrariedades, diferenças e limitações que possa manifestar.

O The Nora Cavaco Institute é reconhecido a nível nacional e internacional. Como fundadora que balanço faz desde a sua fundação?

Já são vários anos de trabalho a nível nacional e internacional. Aquilo que não consegui obter no meu país, consegui realizar pelo mundo. Hoje agradeço todos os passos que dei, por conseguir chegar onde cheguei. Felizmente juntei uma grande equipa de profissionais nacionais e internacionais, desde médicos, psicólogos, psicopedagogos, psicomotricistas, psicólogos educacionais, educadores e terapeutas da fala. Todos juntos, partilhamos os nossos casos e divulgamos terapias eficazes em casos específicos.

O balanço que faço é bastante positivo. É uma realização, não somente minha, mas de todos aqueles que me acompanham. Estamos sem dúvida a expandir-nos e a crescer cada vez mais. O nosso maior interesse é desenvolver um trabalho de pesquisa, formativo e de atendimento personalizado e que possamos generalizar pelos resultados positivos que alcançamos.

De uma forma geral, é muito gratificante porque somos uma só voz, numa rede alargada que atravessa oceanos. O Instituto é atualmente uma marca registada, reconhecida e confiável. Foi necessário muito trabalho, empenho, vontade de ver acontecer e acreditar que era possível.

Qual o vosso maior interesse com este instituto?

O nosso maior interesse é desenvolver um trabalho de pesquisa, formativo e de atendimento personalizado, para que possamos generalizar pelos resultados positivos que alcançamos.

Tranquilizar estas pessoas, é mostrar que é possível fazer. Para isso, em primeiro lugar, é preciso capacitar os profissionais (professores, profissionais de saúde e famílias), valorizá-los no sentido de respeitar os seus limites de forma a conseguirem respeitar os dos outros, fazer com que percebam que são capazes de chegar onde querem, desde que tenham um objetivo/ uma meta clara, de forma a serem eficazes no seu trabalho.

Este ano, através do Instituto vão promover o I Congresso Mundial – Interfaces da Psicologia, atualidades e pesquisas. O que podemos esperar deste evento?

Pretendo que seja diferente de todos estes congressos, que não seja apenas só mais um. Já fiz vários em diversos pontos do mundo e por isso, chegou a vez de fazer um dos mais importantes, no meu país.

Neste primeiro congresso mundial, vamos juntar todos os nossos parceiros que nos representam. Neste momento, ultrapassamos os 25 conferencistas e já várias inscrições de pessoas estrangeiras.

O objetivo passa por dar a conhecer ao país, os saberes e as práticas de todos estes profissionais (especialistas reconhecidos internacionalmente), no autismo e em outros transtornos, ou seja, todas as interfaces da psicologia, uma vez que a área da psicologia, é a porta que se abre para todas as outras áreas.

Faro, sendo a capital do distrito, merece receber estas pessoas com o melhor carinho e para mim já é um sucesso conseguir fazê-lo, independentemente do número de pessoas que possam aparecer.

Fica registado que é possível fazer em Portugal e no Algarve um bom trabalho, promover conhecimento, fazer pesquisa de qualidade e atualizar-nos dentro das nossas áreas e sobre o que é que existe. Tenho a certeza de que vai ser um bom momento e um bom evento.

Após tudo isto, o que falta fazer?

Continuar a fazer mais e melhor. É inevitável para mim não continuar, gosto muito daquilo que faço. Pretendo continuar a fazer mais pesquisa, abranger mais áreas em que ainda não estou tão por dentro, e continuar a ter resultados positivos como temos tido até agora em diversas áreas, desde a hipnoterapia, terapia cognitiva comportamental, formações e entre outras, sempre no respeito pela ética e pela pessoa que solicita este espaço.

Para terminar, quem é a Nora Cavaco?

Sou uma pessoa do mundo, inquieta. Não posso estar presa num só lugar. Adoro viajar, adoro levar e trazer. Sou mãe de família, com dois filhos fantásticos e 30 anos de casamento. Sou uma pessoa feliz e concretizada, fiz aquilo que queria fazer da minha vida.