A escolha da data deveu-se ao fato de que, desde 2009, já celebramos, na esfera da CPLP, o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP. O reconhecimento do 5 de maio pela UNESCO representa, assim, para a nossa Comunidade, um passo importante na valorização e na projeção do nosso idioma comum à escala internacional.

Dessa forma, em 2020 o dia 5 de maio será celebrado primeira vez como uma data mundial no âmbito do sistema das Nações Unidas.

Infelizmente, esse momento histórico para nós, falantes da língua portuguesa, será marcado também por um outro fato inédito: a pandemia mundial causada pelo novo coronavírus, ou Covid-19, que tem se expandido com assustadora rapidez e já custou quase duas centenas de milhares de vítimas fatais em todo o mundo. Os países da CPLP, espalhados pelos quatro continentes, não foram poupados pela propagação da doença. Vivemos, pois, tempos difíceis e os efeitos da pandemia na nossa vida quotidiana, nas nossas relações sociais e nas atividades económicas continuarão a fazer-se sentir por algum tempo.

Mais do que nunca, o momento pede solidariedade e ação conjunta. E, numa fase em que o isolamento social se tornou uma exigência para a saúde pública, devemos enfrentá-lo reafirmando o que nos une e o que nos permite permanecer ligados apesar da distância física.

Nesse contexto, celebrar a língua portuguesa adquire uma nova dimensão e torna-se ainda mais relevante e necessário. A nossa comunicação tem sido realizada de maneira virtual e a utilização de um idioma comum tem-nos permitido não só uma maior facilidade na troca de mensagens, telefonemas e teleconferências mas também facilidade e rapidez na concretização de ações essenciais, como, por exemplo, as operações de repatriação de nacionais dos nossos Estados-membros apanhados de surpresa num outro país da CPLP.

Por isso, e apesar das circunstâncias atuais, não podemos deixar de assinalar a passagem do primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Todas as línguas carregam consigo valores, modos de pensar e a herança do universo cultural onde se desenvolveram. A língua portuguesa é, acima de tudo, um património comum dos países e dos povos que a usam e que a foram alimentando e valorizando ao longo dos séculos, apropriando-se dela e vivendo-a hoje como elemento central da sua própria identidade nacional.

Como todos sabemos, o mundo globalizado em que vivemos coloca desafios à nossa língua, mas será importante realçar que tanto as estimativas sobre a evolução demográfica como a nova realidade da revolução tecnológica e digital oferecem igualmente oportunidades favoráveis à difusão do português.

O número de falantes da língua portuguesa ascende hoje aos 260 milhões de pessoas, espalhadas por todos os continentes. É a língua mais falada no Hemisfério Sul, é a 5ª língua mais falada no mundo e é também uma das línguas mais usadas na internet e nas redes sociais, o que, no contexto atual, adquire especial relevância.

De acordo com as mais recentes projeções demográficas das Nações Unidas, o número de falantes de português poderá aumentar para 500 milhões até ao final deste século, sobretudo graças ao crescimento demográfico em Angola e em Moçambique, cuja população deverá ascender aos 150 milhões e 140 milhões, respetivamente, o que conferirá ao português uma dimensão mais africana, reforçando a sua natureza pluricêntrica.

As questões da língua têm hoje uma crescente expressão nos domínios político-diplomático e da geoeconomia, dos negócios, do conhecimento, da ciência, da inovação e da cultura, entre outros, extravasando uma abordagem cingida aos contextos da educação e da comunicação. A nossa língua representa, com efeito, a matéria prima de um conjunto de atividades económicas geradoras de riqueza, que incluem o turismo, a cultura, as artes criativas, as indústrias do audiovisual, da televisão e do cinema, a produção editorial, entre outras. E o seu crescente valor geoestratégico e o enorme potencial económico são ainda ampliados pelo contributo insubstituível das diásporas de todos os nossos países, que levam a língua portuguesa a todo o mundo, constituindo-se, assim, como poderosos agentes de divulgação e promoção do nosso idioma.

Nesse sentido, devemos sublinhar o trabalho realizado pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (ILLP), instituição vinculada à CPLP que tem a missão de prestar apoio técnico à Comunidade no que diz respeito à elaboração e implementação de políticas e planos de promoção e difusão da língua portuguesa. Apesar de enfrentar sérios constrangimentos de ordem orçamental, o IILP regista avanços no desenvolvimento do Portal do Professor de Português Língua Estrangeira ou Não Materna, importante ferramenta virtual de apoio aos professores de português de todo o mundo, com conteúdos adaptáveis à realidade de cada país.

Quero saudar também o estreitamento das relações entre a CPLP e o sistema ibero-americano, por meio da Secretaria Geral Ibero-Americana (SEGIB) e da Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI). Em 2018, a OEI tornou-se o primeiro organismo internacional a obter o estatuto de Observador Associado da CPLP e, na próxima Cimeira da CPLP, a decorrer em Luanda, no segundo semestre de 2020, a candidatura da SEGIB ao mesmo estatuto será apreciada pelos Chefes de Estado e de Governo da Comunidade.

As nossas organizações coincidem no entendimento de que a cooperação em matéria de política de língua, sobretudo no caso de línguas pluricêntricas como o português e o espanhol, deverá beneficiar grandemente da cooperação multilateral, envolvendo o maior número possível de nossos Estados-Membros. Juntos, devemos promover a heterogeneidade e rejeitar qualquer tentativa de hegemonia linguística.

Devemos celebrar a língua portuguesa como património comum, que nos une e nos singulariza enquanto cultura e nos serve como instrumento para exprimir a nossa imensa diversidade. A língua portuguesa dá corpo e sentido ao mesmo tempo à nossa singularidade e à nossa pluralidade. O português encerra uma enorme mais-valia como língua capaz de estabelecer pontes e promover a paz e o desenvolvimento. A diversidade e a heterogeneidade que encerra são elementos de poder e de futuro.

Mas precisamos lembrar também que a nossa língua, especialmente neste momento, um elemento facilitador essencial para o aprofundamento do nosso diálogo político e da nossa cooperação com vista ao desenvolvimento sustentável de nossos países e ao bem-estar de nossos cidadãos. Não podemos esquecer que, para além da crise atual, importantes desafios nos esperam, tais como a ampliação da mobilidade no interior do espaço da CPLP e o aprofundamento da cooperação económica entre nossos Estados-Membros, com a consequente geração de empregos e de rendimentos que poderá fomentar. A língua comum oferece-nos uma ferramenta incomparável para enfrentar esses desafios. Cabe a nós utilizá-la.

Viva a CPLP! Viva a língua portuguesa!