“O MUNDO E AS OPORTUNIDADES ESTÃO AO ALCANCE DE QUALQUER UMA”

Com um percurso profissional na advocacia de mais de duas décadas, mais concretamente desde 1998, Rita Montalvão, Advogada Coordenadora dos Núcleos Porto, Coimbra e Algarve RSA LP, abordou, em entrevista à Revista Pontos de Vista, um pouco mais da sua carreira, a forma como as mulheres começam, cada vez mais, a conquistar o seu espaço, fruto do seu valor, sem esquecer que é importante nunca desistir de lutar pelos sonhos.

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Edificada em 2013, a Rede de Serviços de Advocacia de Língua Portuguesa (RSA LP), assume-se como uma rede inovadora de sociedades de advogados/escritórios que operam em parceria. No sentido de contextualizar o nosso leitor, como caracteriza a RSA LP e que percurso tem vindo a ser traçado até hoje?
Efetivamente assim é. A RSA LP foi criada em 2013 e é uma criação da RSA – Raposo Subtil e Associados que, desde 1997 tem por matriz um serviço completo e integrado aos seus clientes, tanto a nível nacional como internacional, combinando um profundo conhecimento do negócio com a exigência do conhecimento técnico.
Pretendeu-se estender essa matriz a outro nível, o da Lusofonia, criando-se uma rede inovadora de sociedades de advogados/escritórios de advocacia associados, trabalhando em parceria e, até agora, já espalhados por cinco países lusófonos (Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde e Moçambique). A ideia é que o Cliente não sinta qualquer diferença de um escritório para outro e que, esteja onde estiver, consiga obter os mesmos serviços com a mesma qualidade, rapidez, eficiência, com o cunho da marca RSA LP. Deixa de existir o escritório de Lisboa, o escritório do Porto, o escritório de Coimbra, o escritório do Algarve, o escritório de Angola, o escritório de Moçambique, entre outros… passa a existir apenas a RSA LP. Como se estivéssemos fisicamente no mesmo edifício.
O avanço dos meios digitais veio ainda reforçar mais esta ideia que se pretende passar e, sobretudo se fazer sentir. Não há mares, nem continentes, nem fronteiras intransponíveis.

Tem um percurso evidente no universo da advocacia e do direito, sendo atualmente Advogada Coordenadora da RSA LP. Quem é Rita Montalvão e que análise faz da sua carreira e do percurso realizado deste então até aos dias de hoje? Ao longo da sua carreira, que momentos é que considera fundamentais para ter alcançado o patamar em que está atualmente?
Sou antes de mais mulher, mãe, filha, irmã, amiga, como qualquer mulher. Sou multitasking e não tenho medo de desafios, sou determinada, sou positiva, enérgica, focada na tarefa. Gosto de concluir e de ir até ao fim nas tarefas que me são atribuídas. Detesto aquilo que fica a meio. Gosto muito de sentir no final, a sensação de “delivery” ao cliente ou a quem me pediu um determinado objetivo, gosto da resolução de casos intricados, pela criação e implementação de soluções inovadoras.
Adoro pessoas, adoro viajar, entre muitas outras coisas. Adoro viver e adoro trabalhar. Meu lema, acreditando que a sorte na vida me permitirá isto: “100 anos, 100 bandeiras (países visitados)”.
Na vertente profissional sou apaixonada por aquilo que faço, grata pelo percurso profissional que me tem vindo a ser proporcionado, sobretudo no seio da RSA LP, cheio de desafios estimulantes e que, apenas ainda está a meio.
O meu percurso profissional, que se iniciou em 1998, foi sempre na advocacia, maioritariamente na vertente de assessoria, muito ligado a clientes e players internacionais das mais variadas jurisdições. Costumo brincar, dizendo que, num só dia de trabalho dou, virtualmente, a volta ao mundo, da Nova Zelândia a Portugal.
Tive a sorte de ter trabalhado em diferentes locais, para diferentes entidades, em diversas áreas do direito e nos mais variados temas, o que me permitiu aumentar a minha bagagem em termos de experiência e valências profissionais, mas também em termos de visão, flexibilidade e adaptação.
O meu percurso permitiu-me transformar-me em algo semelhante ao pato marreco. Adaptável a qualquer meio. Já viram um animal mais adaptável? Tanto em terra, no ar como na água? É isso que pretendo ser sempre. Adaptável sempre às mudanças, aos novos desafios profissionais, às necessidades dos clientes, para cada vez melhor servir, no âmbito da advocacia.
A RSA LP permitiu-me ainda descobrir que a gestão teria sido certamente uma das minhas vocações. Ao assumir as funções de coordenadora dos escritórios do Porto, Coimbra e Algarve, descobri a paixão pela gestão, desde os recursos humanos aos resultados financeiros. E a maior recompensa neste âmbito, é sentir as equipas a trabalharem felizes e realizadas.
Não tenho um ou outro momento mais fundamental que possa destacar, porque aquilo que sou hoje e me tem permitido chegar sempre mais além e, me permitiu chegar ao patamar onde me encontro agora, trata-se de uma súmula de todos os momentos profissionais que vivi e experienciei.

Num passado não muito longínquo, o universo da advocacia/direito parecia estar reservado ao género masculino, retrato que, felizmente, foi sendo mudado ao longo dos tempos. Quão importante é para a profissão que as Mulheres assumam maior relevância no setor?
Até à geração dos nossos pais, por uma questão sociocultural as mulheres não tinham ou tinham pouco acesso a este tipo de profissões. Felizmente o mundo mudou. Diria que atualmente, seremos mais mulheres no mundo do direito/advocacia, que homens. É muito importante que não exista qualquer diferenciação de género no nosso setor, porquanto tanto homens como mulheres têm contributos importantes para dar.

Alguma vez sentiu algum ceticismo por ser mulher neste mundo da advocacia?
Não, no que a mim me diz respeito. Aliás, o patamar onde me encontro agora é reflexo disso. Nunca deixei de sentir, pelo facto de ser mulher, que “the sky is the limit”.

O que é para si ser um verdadeiro líder e gestor de pessoas? O diálogo e a capacidade de escutar são dois dos principais pilares para uma gestão positiva?
Sem sombra de dúvida. Não existe liderança sem diálogo nem capacidade de escutar. Para mim o verdadeiro líder e gestor de pessoas, é aquele que, consegue criar nas pessoas que lidera o sentido de equipa, do coletivo, de profissionalismo, de motivação, determinação, de partilha, de atingir em conjunto os objetivos a que se propõem, enquanto fazendo parte de um único organismo. A liderança deve ainda dar estabilidade, conforto, compreensão e segurança. O verdadeiro líder e gestor de pessoas tem de conseguir isto e ainda que, aqueles que lidera são felizes no trabalho. Para isso é também muito importante que, consiga criar um ambiente no trabalho que proporcione qualidade de vida para aqueles que lidera.

Acha que existe alguma diferença entre uma liderança feminina e uma masculina? Ou acredita que a liderança positiva não tem género?
Para mim a liderança positiva não tem género, pelo menos em termos gerais, enquanto ideia conceptual, base de uma boa liderança. Depois disto, existirão diferenças na forma de abordar algumas questões em particular, quando pensamos na liderança masculina vs liderança feminina. A meu ver, estes diferentes pontos de vista, que sempre existirão, vão mais além que o simples género, porque cada ser humano é único e tem uma visão única. São diferentes formas de abordar o mundo, diferentes formas de estar que, nalguns detalhes são intrínsecas e específicas de cada género. Não somos totalmente iguais (homens e mulheres) na forma como vemos as coisas e abordamos os assuntos. Mas somos complementares e, nas diferenças, só nos podemos enriquecer enquanto seres humanos e, necessariamente enquanto profissionais e líderes.

O que falta, na sua opinião, para que a igualdade de oportunidades seja cada vez mais uma realidade?
Acho que cada vez mais a realidade é a de igualdade de oportunidades. O mundo está a mudar muito rápido e, as diferenças também se estão a esbater de dia para dia, pelo menos no meio e sociedade onde vivo e trabalho.

Sente que hoje as Mulheres conseguem conciliar melhor a sua vida profissional com a pessoal ou ainda têm de escolher somente um rumo?
As mulheres já não precisam de escolher só um rumo nos dias de hoje. Mas é um grande desafio diário. Conciliar a vida profissional cada vez mais exigente com a vida pessoal (família, filhos, casa, entres outros…). Não é fácil e às vezes é desgastante. Mas, o que vejo e sinto é que, todas nós somos cada vez mais multitasking e é incrível como conseguimos fazer tantas coisas em 24 horas. Em tempos de confinamento, durante o teletrabalho, cheguei a dar banho ao meu filho de 5 anos, com uma mão, enquanto segurava na outra o computador para assistir a uma qualquer reunião via teams. Esta é uma das enormes qualidades e vantagens das mulheres. A capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, sem perder a orientação e a concentração.

A terminar, o que podemos continuar a esperar da sua parte e qual a mensagem que gostaria de deixar ao universo feminino que dia após dia continua a mostrar a sua força?
Da minha parte, quero continuar a trabalhar com a determinação e gosto que me têm sido característicos até hoje. Tenho ainda um caminho a percorrer que somente vai a meio, em termos profissionais. Ainda tenho muito para dar e muito para aprender.
Às mulheres: nunca desistam de lutar pelos vossos sonhos. O mundo e as oportunidades, estão ao alcance de qualquer uma. Não se deixem esmagar pelos obstáculos e acreditem sempre na vossa força (somos ”shewolves”). Tudo é possível. Nada é inconciliável. Nada é intransponível. A História prova isso.