“PORTUGAL GANHOU O MEU AFETO E CONQUISTOU O MEU CORAÇÃO”

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Esta frase é um dos maiores desígnios de uma das principais personalidades literárias de Portugal e que tão bem assenta na narrativa que aí vem sobre a nossa entrevistada, onde esse propósito de Fernando Pessoa apenas seria alterado no género, ou seja, Deus quer, a mulher sonha, a obra nasce. Mas siga-nos nesta viagem e conheça um pouco mais de Alessandra Nascimento Silva e Figueiredo Mourão, Sócia Fundadora da Nascimento e Mourão – Sociedade de Advogados, escritório localizado no Brasil.

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Mais conhecida a nível profissional como Alessandra Mourão, a nossa interlocutora é brasileira de gema que conheceu as terras lusitanas e se apaixonou imediatamente por este cantinho à beira mar plantado, transformando-se numa relação íntima, de carinho, reconhecimento, paixão e amor e que ainda sobrevive até hoje. Lutadora nata e líder incontestável, a nossa entrevistada é mãe de duas crianças, Ana Luiza com 15 anos e de Pedro Paulo com 10 anos, sendo casada com Carlos Figueiredo Mourão, Procurador do Município de São Paulo. Este é apenas um lado mais pessoal e privado de Alessandra, uma Mulher que assume diversas pastas a nível profissional, uma mulher de armas, como se costuma dizer em terras de Luís de Camões, pois além de ter fundado a Nascimento e Mourão – Sociedade de Advogados, que este ano perpetua 25 anos de vida, é ainda professora universitária, coordenadora do curso de negociação para advogados na Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Presidente do Comité de Ética Profissional da organização denominada por International Bar Association, IBA, considerada a maior entidade de profissionais da área jurídica, sendo ainda investidora na educação infantil no Brasil, numa escola denominada por «Pequenos Granjeiros». Cansados? Ainda não viram nada, pois Alessandra Mourão apresenta ainda uma veia de empreendedora em Portugal, pois possui um empreendimento chamado Quinta Pedras de Rio, um projeto encantador e que ainda se encontra numa fase embrionária, mas que será, quando estiver em pleno funcionamento, um local completamente inesquecível.

“VONTADE DE CONHECER MAIS E DE VIVER EM PORTUGAL”
Não é incomum que alguém de uma qualquer nacionalidade estrangeira conheça Portugal e se apaixone por ele. Incomum é que essa ligação fique marcada por um sentimento de paixão e amor, perpetuando aquele velho chavão de ser uma segunda casa. Qual seta de cupido, Alessandra Mourão ficou encantada com as maravilhas lusas, numa relação afetiva que se iniciou corria o longínquo ano de 1998, a primeira vez que a nossa interlocutora pisou Portugal. “Foi uma viagem de enorme regozijo, talvez pelos ancestrais lusitanos que carrego dentro de mim, pois senti uma energia e alegria tão grandes que criou em mim um sentimento enorme de felicidade. Além disso, esta viagem é ainda mais especial, pois foi a primeira aventura para o exterior que tive com o meu marido, algo que marca a mesma no meu coração também por essa razão”, afirma a nossa entrevistada, que recorda com saudade que nessa viagem conheceu locais maravilhosos em Portugal.
Oito anos depois, em 2006, Portugal voltaria a cruzar-se com a nossa entrevistada, fruto do relacionamento mais próximo da universidade em que Alessandra Mourão trabalhava, com Portugal, “onde comecei a dar formação para juristas lusitanos na vertente de negociação para advogados. Comecei a ir a Portugal de uma forma mais recorrente, mais concretamente para a capital, Lisboa e ficava sempre num hotel diferente e isso foi criando em mim a necessidade e a vontade de conhecer mais e de viver em Portugal”, revela a nossa entrevistada, lembrando que nesses tempos teve oportunidade de conhecer Portugal em momentos positivos e em períodos menos bons, e adquiriu um apartamento em Lisboa, tendo sido este o primeiro passo para que Portugal se tornasse a sua segunda casa.
Mas não se pense que esta ligação tenha ficado por aqui, pois nesse período um amigo próximo da nossa entrevistada herdou um conjunto de terras do seu pai, onde possui um projeto pessoal, algo que aguçou a curiosidade de Alessandra Mourão, que avançou para a aquisição de algumas terras na zona central de Portugal, realidade que dissipou qualquer dúvida na relação entre a nossa interlocutora e o nosso país, “cada vez mais próxima e de familiaridade”, revela, assumindo em contexto de boa disposição que essa relação tornou-se de tal forma forte, que hoje “não consigo assistir a um jogo de futebol entre Portugal e o Brasil”.

QUINTA PEDRAS DE RIO – UM PROJETO BONITO
“Fiquei encantada”. É desta forma que Alessandra Mourão revela o seu sentimento da primeira vez que visitou esse local, nos arredores de Abrantes, Vale do Tejo, região que a nossa entrevistada desconhecia. “Percebi que era uma região pouco explorada e vi uma possibilidade de desenvolver ideias inovadoras não só na área da agricultura, mas também na vertente do turismo rural e, mais do que isso, e porque sou uma amante das artes, na área da cultura, pois acredito que projetos culturais podem atrair um público interessado neste universo das artes. Foi assim que surgiu a ideia da Quinta Pedras de Rio, que será um projeto que acomodará interesses múltiplos”, assume.
Assim, a nossa interlocutora irá apostar na vertente agrícola, até porque possui uma pequena floresta de sobreiros, onde já é realizada a exploração de cortiça, entre outros desafios ao nível de atividades agrícolas. “Não tenho dúvidas que será um projeto único a conjugar agriturismo e o mundo das artes, em que pretendo que exista uma curadoria de artistas, inicialmente de origem brasileira e portuguesa, mas que será englobado, no futuro, por personalidades das artes de outras nacionalidades”.

CONHECER O QUE ESTÁ MAIS ESCONDIDO
Interessa ainda perceber que a motivação e o desiderato de Alessandra Mourão em apostar neste projeto, passa também por contribuir para algo maior que o seu amor pelo nosso país, ou seja, o fito passa também por criar um movimento produtivo na região, atrair pessoas nacionais e estrangeiras que estejam interessadas num turismo mais voltado para a natureza e menos de massas e aglomeração, sem esquecer que o mesmo também servirá para chamar pessoas para outros cantos de Portugal, ou seja, que saiam do roteiro óbvio das grandes regiões como Lisboa, Porto e Algarve “e passem a conhecer outros locais tão ou mais interessantes que essas, que têm, naturalmente, o seu valor, mas quero que as pessoas vejam mais e conheçam o que está escondido, sem esquecer que esta será uma possibilidade de gerar emprego e de ajudar a região e o povo a ter trabalho”, assegura a nossa entrevistada.
Alessandra Mourão acredita que temos de ver o lado positivo de todas as crises, e se o mundo atualmente vive um momento complicado, fruto da pandemia da COVID-19, esse momento aportou uma visão diferente às pessoas, relativamente à ocupação dos territórios, a nossa interlocutora incluída. “A minha atividade central está centrada numa grande cidade, São Paulo, e sinto que a pandemia criou nas pessoas uma vontade imensa de sair das grandes metrópoles, sensação que também tenho e que me leva a procurar estes espaços mais tranquilos. Isso também se reflete nessa busca no domínio do turismo por espaços e lugares de densidade populacional mais reduzida, realidade que pode criar, no pós pandemia, um nicho interessante de turistas que procurem essa serenidade, esses locais mais tranquilos e desprovidos de aglomerados gigantes de pessoas”, revela.
Como foi salientado, o mundo mudou e vivemos atualmente numa fase complicada, com diversas restrições de toda a ordem, facto que colocou inúmeros projetos em stand by, algo que também se refletiu no projeto da Quinta Pedras de Rio, que poderá ser atrasado em 9 a 12 meses. “A consecução do projeto exige uma pessoa de confiança na sua liderança e essa pessoa será o meu irmão e só não está em Portugal hoje devido ao encerramento das fronteiras. Contudo, acredito que ainda este ano começará a ser movimentado para darmos início a um verdadeiro sonho que tenho”.
Se compreendemos que toda esta relação começou sob a égide do amor, da paixão e do carinho da nossa entrevistada por Portugal, interessa também compreender que esta vertente mais negocial do projeto puro e duro, passa também pela capacidade empreendedora da nossa entrevistada, pois não basta ser criativo ou ter ideias para criar algo. Se assim fosse, todos nós seríamos empreendedores. Então o que marca a diferença? O verdadeiro empreendedor é o que tem a ideia e a consegue colocar em prática, concretizando-a, tal como Alessandra Mourão. “É importante ter ideias que possam ser colocadas em execução e acredito que uma pessoa empreendedora e líder tenha de ser realmente inovadora, com capacidade de execução e adaptação, com um olhar atento para os movimentos do mundo, das preferências das pessoas e, sem dúvida alguma, tenha de ser um excelente ouvinte. Nenhum líder vence se não tiver consigo uma equipa que acredite nas suas ideias. Sou completamente a favor do liderar pelo exemplo, porque um dos principais erros que os líderes cometem, passa por falar muito e depois são incoerentes entre a fala e a ação”.

MOMENTOS QUE MARCAM A CARREIRA
Já compreendemos que a nossa interlocutora assume sem medos qualquer desafio. Enfrentando cada um deles com uma dinâmica muito própria e com coração, embora sem nunca deixar de lado a vertente mais racional para assim ter uma visão mais realista de cada um deles. Mas quais foram aqueles momentos mais marcantes no percurso de Alessandra Mourão? São inúmeros, mas a nossa entrevistada decidiu colocar neste leque dois momentos que considera terem sido essenciais para chegar onde está hoje, tal como explica. “Na minha carreira, esses momentos surgiram de decisões que me levassem a fazer algo inovador e único e isso aconteceu quando resolvi, por exemplo, apostar, na vida acadêmica, na especialização da área da negociação de advogados, uma disciplina quem nem existia na universidade e para a qual me dispus a criá-la, algo que está no seio do escritório como sendo um foco essencial. É um diferenciador importante e que levou a nossa banca a ser notada como um escritório diferenciado e atuante nas mais diversas especialidades jurídicas para as empresas nacionais e estrangeiras. Isso e o ter-me envolvido com a International Bar Association, permitiu-nos passar de um escritório de base local para uma panorâmica internacional, criando um sentimento de confiança das empresas brasileiras com interesse no estrangeiro e empresas estrangeiras com interesse no imenso mercado brasileiro e latino-americano”, assume a nossa entrevistada.
Mas não ficam por aqui esses momentos, pois não podia faltar Portugal na aventura de Alessandra Mourão. “Acredito piamente que essa ligação pessoal e profissional com Portugal foi e tem sido essencial para mim e para a transformação, não só do negócio (inclusive com extensão dos negócios jurídicos), mas também ao nível das aspirações pessoais que tenho. Tenho muita vontade de usar a minha última terça parte de vida num país que ganhou o meu afeto, que conquistou o meu coração e obteve a minha determinação em colocar os meus esforços, os meus investimentos, projetos e energia em prol e benefício do país e das suas pessoas”, assume, claramente feliz com esta decisão na sua carreira e na sua vida.

“PODÍAMOS DE FACTO TER MAIS MULHERES EM POSIÇÕES DE LIDERANÇA”
Muitas coisas têm sido ditas no que concerne a questões relacionadas com a igualdade do género, com o equilíbrio de oportunidades entre mulheres e homens, entre ser líder masculino ou feminino. Mas será que a nossa entrevistada, uma mulher e líder de sucesso, alguma vez sentiu esse estigma? Alessandra Mourão assume que essas questões nunca a afetaram, até porque nunca se sentiu menos do que alguém, tendo sempre dado mais atenção à vertente da competência, pois é essa, na sua opinião, que aporta mais oportunidades, tendo admirado pessoas de qualquer género. “Nunca enfrentei uma situação em que o «clube dos homens» me pudesse impedir de procurar o que queria e sempre procurei alternativas por cada porta que se fechava”, assegura convicta.
Apesar de nunca ter sentido essa realidade, a nossa entrevistada confessa, contudo, que nos últimos tempos os seus olhos foram mais abertos para esta situação, que, infelizmente, ainda vigora. Como? “Por colegas mulheres. Por vezes estou numa reunião e olho e vejo que a componente feminina podia estar mais representada naquela reunião, naquela conferência, naquela faculdade, naquela empresa e a partir daí comecei a ter mais atenção a essa realidade e a conclusão a que chego é que podíamos de facto ter mais mulheres em posições de liderança e de tomada de decisões”, assume, assegurando que esse caminho terá de ser feito por cada uma das mulheres que tem um objetivo. “Cabe a cada uma de nós continuar nessa luta, até porque é essencial basear essa dinâmica na competência e nunca nos acharmos diminuídas por ser mulheres, isto mesmo em ambientes em que o cromossoma Y é maioritário. Sejamos únicos, autênticos e façamos a diferença. Não se intimidem em ambientes em que não são a maioria e acreditem nas vossas ideias e no valor das mesmas. Num mundo de redes sociais, em que a informação é tão democrática, o que mais sinto falta é do autêntico e do verdadeiro e é isso que temos de continuar a fomentar para criarmos uma sociedade mais respeitadora das diferenças, dando oportunidades pela competência e valor”.

“Quero destinar a minha energia para Portugal
E sobre Alessandra Mourão? O que podemos esperar da nossa interlocutora? “Muita coisa. Os meus projetos e desafios em terras lusitanas são imensamente inovadores em relação ao que já fiz no Brasil. Tenho muita energia, vontade e disposição de colaborar para o bem-estar da região e para o seu desenvolvimento. Tenho inúmeras ideias e a Quinta Pedras de Rio é apenas o início para que estes projetos se possam desenvolver, porque adoro criar coisas novas em terrenos inexplorados e amo Portugal, um país com o qual tenho uma relação afetiva e para onde pretendo destinar muita energia ainda remanescente”, conclui, Alessandra Mourão.