“ADOTAR UMA ATITUDE POSITIVA E OTIMISTA É FUNDAMENTAL PARA ULTRAPASSARMOS OBSTÁCULOS E SEGUIR EM FRENTE”

No passado dia 10 de outubro, celebrou-se o Dia Mundial da Saúde Mental, tendo sido este o mote para uma conversa com Isabel Santos Melo, CEO do Grupo Mentaur, uma Líder que fundou esta marca. Decorria o ano de 1988 e que é hoje, cada vez mais, um verdadeiro exemplo de saber estar no mercado e, acima de tudo de contribuir para quem mais precisa, até porque, tal como refere a nossa interlocutora, “é preciso ser especial para trabalhar nesta área e valores como a compaixão e o respeito pelo outro enquanto indivíduo são fundamentais e, felizmente, continuam a ser os que prevalecem neste meio”.

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O Grupo Mentaur tem dedicado, desde 1988, todo o seu tempo a pessoas vulneráveis na sociedade, oferecendo uma ampla variedade de serviços e cuidados especializados, abraçando assim uma causa que requer muita dedicação. Quão gratificante e importante isto significa e que valores acredita que prevalecem neste meio?
No decorrer dos últimos 30 anos, tenho um orgulho imenso ao olhar para o nosso percurso e constatar os inúmeros casos em que as pessoas, com o nosso apoio efetivo, conseguiram atingir plenamente as suas aspirações. Em muitas situações ao progredirem para formas de vida mais independentes, mas igualmente ao concretizarem sonhos de vida como por exemplo casar, ter um filho, ter um emprego, viajar pelo Mundo ou simplesmente ir a Lisboa para nadar com golfinhos. Como anteriormente referido, nós oferecemos uma ampla variedade de serviços e isso implica que muitas das pessoas que apoiamos têm bastantes limitações e requerem um apoio substancial em todas as áreas, desde cuidados básicos de higiene até problemas comportamentais severos. Nestes casos de maior complexidade, algo tão simples como uma ida ao cabeleireiro pode ser um verdadeiro desafio difícil de ultrapassar. Essas aparentemente pequenas vitórias, são muitas vezes verdadeiros feitos para quem as vive diretamente e para mim igualmente gratificantes. É preciso ser especial para trabalhar nesta área e valores como a compaixão e o respeito pelo outro enquanto indivíduo são fundamentais e, felizmente, continuam a ser os que prevalecem neste meio.

A 10 de outubro celebrou-se o Dia Mundial da Saúde Mental, cuja pretensão passa, obviamente pela sua sensibilização, mas também por identificá-lo como uma causa comum mundialmente. Como pode descrever a evolução do tema ao longo dos anos? Acredita que, atualmente, a questão da saúde mental ultrapassa barreiras nacionais, culturais, políticas e socioeconómicas?
Até ao encerramento dos asilos psiquiátricos em finais do seculo XX, as questões de saúde mental e os doentes psiquiátricos eram na sua grande maioria mantidos por detrás de um manto de invisibilidade. Desde que as pessoas com problemas psiquiátricos lutaram pelos seus direitos em viver socialmente e em igualdade, gerou-se uma maior visibilidade, mais discussão e ativismo acerca destas matérias. Exceptuando alguns síndromes específicos em certas culturas, as questões de saúde mental normalmente transcendem quaisquer barreiras nacionais e culturais. Exemplos disto são as perturbações bipolares e do espetro do autismo. O uso e abuso da saúde mental com objetivos políticos ainda persiste em algumas nações com deficit democrático e infelizmente aqueles que vivem em condições socioeconomicamente mais desfavoráveis têm uma probabilidade mais acentuada de virem a sofrer com problemas de saúde mental devido ao stress de que são vítimas.

Abordando a atual situação de pandemia global da COVID-19, acredita que a saúde mental ganhou maior consciencialização na vida da comunidade? De que forma todas as consequências desta nova realidade afetaram a saúde das pessoas?
A excecional e estranha forma de vida atual causada pela pandemia fez emergir um aumento acentuado de ansiedades e depressões diretamente relacionadas com o stress. Por outro lado, devido ao confinamento a que nos vimos forçados em nossas casas, tivemos igualmente a oportunidade de examinar o nosso estilo de vida e descobrir todas aquelas coisas que realmente importam – uma autorreflexão com o potencial de proporcionar mudanças positivas.

De forma mais generalizada, acredita que há hábitos que podem ser cultivados para amenizar sentimentos de ansiedade ou angústia durante um período de vida mais complexo? Que hábitos o Grupo Mentaur recomendaria?
O Grupo Mentaur sugere que aquelas pessoas que tiveram a oportunidade de auto refletir, de abraçar novos projetos, de fazer exercício físico, de ter uma alimentação saudável, de dormir adequadamente, de usar técnicas mentais como por exemplo mindfulness e meditação, de manter o contato com outros e talvez renovar relacionamentos com amigos e familiares, sofrerão menos ansiedade durante períodos de vida complexos como os que vivemos neste momento. Convém recordar que o stress e a ansiedade reduzem a nossa imunidade e deixam-nos mais vulneráveis a doenças.

Na sua opinião, pedir ajuda ou ir a um rastreio relacionado com saúde mental, ainda provoca algum estigma? Existe atualmente maior abertura de pensamento?
À medida que a sociedade e as comunidades se abriram a quem padece de problemas mentais, o estigma da saúde mental reduziu significativamente nos últimos 50 anos. Para isto contribuiu também o facto de muitas celebridades começarem a tornar públicos os seus próprios problemas de saúde mental. No entanto, o estigma está ainda presente. Devemos continuar a discutir abertamente estas questões, incentivar mais campanhas de saúde pública e produzir mais legislação nestas matérias para finalmente erradicarmos por completo o estigma da saúde mental.

O Grupo Mentaur ajuda os utentes que acompanha a chegar até ao seu potencial máximo, sendo que o lema passa por acreditar que nada é impossível. De que forma transmitem esta positividade?
Partindo do princípio de personalização dos apoios prestados, a nossa crença de que nada e impossível baseia-se na convicção de que um serviço especializado tem, acima de tudo, de ser especial. E o que torna um serviço especial é:
Uma abordagem individualizada e que atribui mais importância à pessoa do que ao seu diagnóstico clínico;
Uma abordagem aos técnicos de apoio que os identifica como contribuintes ativos dessa positividade pelas suas características pessoais e não apenas pelas suas competências profissionais.

Acredita que praticar esta positividade de que se fala, melhora em muito a saúde mental? Faz diferença até nas situações mais adversas?
Em termos da população que apoiamos diariamente nos nossos serviços, não tenho a menor dúvida. Ser positivo e fazer as pessoas acreditarem em si próprias não é possível se nós próprios não acreditarmos nelas.
Em muitos casos esta positividade implica uma avaliação cuidada dos riscos inerentes, mas é importante que se tomem riscos pois ninguém cresce à sombra e sem sair da sua zona de conforto.
A positividade das nossas equipas técnicas transfere-se de uma forma natural para as pessoas que apoiamos impulsionando o desenvolvimento da sua auto-estima e autoconfiança.

O Grupo Mentaur participa regularmente na Mental Health Awareness Week. Quais são as expetativas e objetivos desta iniciativa?
O objetivo é sempre associarmo-nos a uma iniciativa que se relaciona diretamente com a nossa área de atuação. As expetativas vão desde aproveitar a oportunidade para proporcionar um leque de atividades variado e diferente aos nossos utentes e, também, contribuir para uma sensibilização alargada do tema.

Sabemos que se dedicam igualmente em produzir e disseminar conhecimento nas áreas em que atuam, desenvolvendo inclusive programas dinâmicos de conferências ou eventos. Nesse sentido, atualmente estão a desenvolver algum projeto que nos possam relevar?
O Grupo Mentaur foi recentemente galardoado em Bruxelas com o Prémio de Melhor Projeto Europeu de Pesquisa Científica em Serviço Social na sequência de um evento organizado pela European Social Network – os Prémios Europeus de Serviço Social 2019. O projeto em questão refere-se a um guia de indicadores de qualidade de vida em pessoas com autismo que foi desenvolvido e validado por nós no Reino Unido.
Em setembro de 2019 participámos igualmente no XII Congresso Autism-Europe em Nice, França onde apresentámos um poster referente a um dos nossos mais recentes serviços.
Em 2020 fomos selecionados para fazer uma apresentação oral na 28th European Social Services Conference em Hamburgo, Alemanha. A apresentação será acerca do tema da Proteção de Adultos Vulneráveis. Devido a atual situação internacional esta conferência foi, entretanto, adiada para junho de 2021, mas a nossa apresentação mantém-se.

Para o Dia Mundial da Saúde Mental, o Grupo Mentaur irá dedicou alguma iniciativa?
O Reino Unido celebra a semana da saúde mental em maio e este ano o tema subjacente foi a “Bondade”. Nesse âmbito encorajamos as nossas equipas técnicas e utentes a idealizarem simbolicamente pequenos gestos de bondade entre eles.
Algumas ações exemplificativas foram o design e envio pelos nossos utentes de postais a familiares e amigos simplesmente para lhes lembrar o quanto são queridos. Pequenos gestos como por exemplo surpreender outra pessoa ao preparar-lhe uma refeição ou uma bebida sem esta estar à espera. Foram também criados certificados de bondade que foram depois atribuídos pelos utentes a quem eles nomearam. Estas atividades, entre outras, geraram uma onda de positividade e satisfação que se tem prolongado desde maio até hoje.
Para outubro, temos planeado um reavivar das iniciativas implementadas em maio, bem como uma série de formações específicas internas em torno das questões de Saúde Mental.

Que mensagem gostaria de deixar sobre forma de encorajamento e incentivo? Qual é o lema que gostaria que percorrêssemos?
É importante continuarmos a acreditar e nao baixarmos as nossas expetativas em relação a futuros projetos e conquistas pessoais. Encarar estes tempos como uma oportunidade de crescimento e de mudança. O ser humano é resiliente por natureza, mas adotar uma atitude positiva e otimista é fundamental para ultrapassarmos obstáculos e seguir em frente. Penso que isto se aplica não só aos tempos difíceis que todos nós estamos a atravessar, mas também às lutas interiores de cada um de nós e nomeadamente daqueles que sofrem com problemas de saúde mental.