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VIVER HOJE, SUSTENTAR A ESPERANÇA

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VIVER HOJE, SUSTENTAR A ESPERANÇA

A vasta experiência de Elisabete Carvalho levou-a a desempenhar vários lugares como Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta. Contudo o seu desejo era fazer mais e melhor, assim surgiu a Clínica das Horas – aqui, através duma prática séria e eficiente, é valorizada a relação humana e pessoal, entre profissionais, pacientes e famílias. Integridade, dever, confiança, dedicação e respeito pela individualidade são os valores que estão bem assentes na dinâmica desta clínica.
À conversa com a Revista Pontos de Vista, esteve Teresa Sutherland, também ela Psicóloga e Psicoterapeuta com formação em Aconselhamento Parental. Ambas partilham estes valores como fundamentais para o funcionamento da equipa, “o que torna o nosso trabalho gratificante”, diz Elisabete Carvalho.
Na Clínica das Horas prevalece o espírito de equipa, centrado na coesão e na prática de clínica séria, uma forma de trabalhar, segundo Elisabete Carvalho, eficaz e consistente, já que tem como suporte uma complementaridade de saberes. “Na psicologia, temos um grupo de terapeutas de diferentes formações: dinâmica, totalmente enraizada na psicanálise, cognitivo comportamental, sistémica, de casal, familiar e sexual. Temos a consulta integrada da criança e do adolescente, com atendimento aos pais, sempre que necessário. Acompanhamos adultos com diferentes problemáticas porque contamos com psiquiatras dedicados a diferentes áreas, como por exemplo a adictologia, comportamentos de risco e o suicídio. Já para a terceira idade, e em Neurologia, temos uma consulta específica de demências, com recurso a treino neurocognitivo, que pode ser realizado presencialmente ou em casa e que, neste caso monitorizamos à distancia. O coaching é habitualmente solicitado por parte de empresas embora também surjam pedidos individuais.”, explicam as nossas entrevistadas. Todos estes temas – e numa fase pré pandemia – eram abordados, em reuniões de intervisão clínica “onde podemos falar dos nossos casos, partilhá-los com a equipa e integrar a multiplicidade dos nossos saberes. Temos efetivamente, formações muito diferenciadas, e um olhar diferente sobre cada caso clínico, é algo que pode ajudar e muito os nossos pacientes”, realça Teresa Sutherland.
Estas reuniões deram lugar a tertúlias, sendo um projeto suspenso uma vez que o objetivo seria alargar esta partilha de conhecimentos a outras instituições e a outros colegas, algo que não é possível concretizar devido à fase atípica que atravessamos, com a COVID-19. No entanto, o funcionamento da Clínica das Horas, não foi afetado, embora tenha fechado as portas durante três meses. “Adaptámo-nos rapidamente. Continuámos a dar consultas online, vínhamos pontualmente e de forma isolada à clínica, sempre que havia um pedido – porque quando se trata da primeira consulta, os técnicos e na sua maioria, os pacientes, preferem que esta seja presencial. Mas, essencialmente, o suporte foi online. Houve uma adesão muito grande e tivemos um acréscimo de primeiras consultas, o que por outro lado coloca em evidência as necessidades que as pessoas sentiram neste período conturbado”, afirma Elisabete Carvalho, acrescentando que “mantivemos o contacto e o suporte entre os elementos da equipa”.

“AS PESSOAS TÊM DE SE PERMITIR SENTIR”
Será que se dá a devida importância à questão da saúde mental? Particularmente agora, já conseguimos saber qual o impacto da pandemia sobre o bem-estar psíquico? “Damos habitualmente importância quando falha”, responde Elisabete Carvalho. “No entanto, neste tempo crítico, obviamente que a questão da saúde mental se tornou fundamental pela repercussão a vários níveis, que a COVID-19 tem tido sobre grande parte da população. Houve uma enorme mobilização de recursos de combate a um inimigo comum – o vírus – e a saúde mental foi aí considerada. Em tempos difíceis, as estruturas mais frágeis abanam e há o risco do colapso. A perda da noção de controlo, o medo da doença e da morte, surgem mascarados sob diversas formas de doença”.
Entre as faixas etárias mais lesadas como os idosos e as crianças, a camada adolescente e jovem adulto tem sido recorrente na Clínica das Horas. Teresa Sutherland explica que “ouço-os muitas vezes a dizer «eu só tenho 20 anos, os meus melhores anos estão a passar, como vai ser a minha vida agora?». Porque a vida quotidiana mudou, tínhamos estratégias montadas para nos distrairmos quando algo corria mal. Mas se estamos fechados em casa, não temos outra hipótese senão confrontarmo-nos com o sofrimento, muitas vezes sem ajuda e por isso temos tantos casos de depressão e mal-estar instalado”.
Sabemos que a redução da socialização e ao mesmo tempo o aumento do recurso à tecnologia pode potenciar sentimentos de solidão, mais graves na adolescência. “O tempo de trabalho passou a ser vivido em casa, com a sobrecarga do acompanhamento aos filhos e das rotinas domésticas. Esta proximidade, às vezes tão desejada, revelou crises familiares e colocou em evidência problemáticas dos casais. Tivemos um aumento significativo das consultas de terapia familiar e de casal, e da consulta específica para casais bi-culturais, muitas vezes com pedido de estratégias concretas para sobreviverem à proximidade agora sentida como excessiva”, explica Elisabete Carvalho. “Com os idosos assistimos precisamente ao contrário: a ausência de contacto físico com os familiares, tem sido uma provação difícil e claramente lesiva da saúde mental. Nos dois sentidos: ouvimos os filhos queixarem-se da culpa de não poderem cuidar dos pais”.
Perante o emergir de sentimentos como ansiedade e angústia, as nossas entrevistadas realçam a importância de fatores como “manter as rotinas de higiene, trabalho, refeições, distribuir tarefas por todos e cumpri-las, preservar a privacidade dos elementos da família, reconhecer que todos temos momentos de irritação e de tristeza, procurar o riso, perdoar o outro, manter a esperança. Procurar o lugar seguro das pequenas alegrias: ler, ouvir música, caminhar, pintar, ver o mar, rezar”. Curiosamente – e tendo em conta que vivemos na era digital – uma das atividades que voltou, segundo as próprias, foi a escrita de cartas por correio. Leva a crer que recordar os tempos antigos traz uma sensação de pertença e quietude ao coração.
Praticar a positividade, pode ser benéfico, porém com bom senso. Citando as nossas interlocutoras, “tudo aquilo que instituirmos como uma regra rígida não é saudável. A rigidez é um grande inimigo da saúde mental, ao invés da permeabilidade e da flexibilidade que são palavras-chave da resiliência psíquica. Não há soluções. Há tentativas ajustáveis a cada um e as suas particularidades. Estamos a viver um tempo novo, a fazer história. As pessoas têm de se permitir sentir esta turbulência, mas, ao mesmo tempo importa saber que podem fazer escolhas benéficas para a sua saúde mental: podem pedir ajuda”.
Na Clínica das Horas, onde é permitido sentir, é também essencial cuidar ao tempo de cada paciente. Esse cuidado será sempre a prioridade, tal como tem sido ao longo destes sete anos. São muitos os projetos de Elisabete Carvalho, para um futuro já próximo: criar uma consulta integrada da saúde da mulher, particularmente ligada à menopausa, aliada à nutrição funcional, questões da sexualidade e do envelhecimento. Uma outra consulta com psicoterapia de suporte ao luto e ainda (ainda por desenhar) ligada às temáticas do género, com a colaboração de investigadoras da UNL. “Queremos melhorar a área da estimulação/treino cognitivo, participando numa experiência piloto na área da Robótica e da inteligência artificial aplicadas a crianças e idosos”, afirmam Elisabete Carvalho e Teresa Sutherland.
A concluir, a Fundadora da Clínica das Horas assegura que “reconheço o enorme valor profissional e humano de cada elemento desta equipa, que pretendo reforçar em determinadas valências, terminando ou iniciando formações específicas de e para cada elemento, na procura constante do conhecimento, sem nunca abandonar os valores que diferenciam a Clínica das Horas. E é assim que nos sentimos a participar ativamente na resposta aos desafios psicológicos relacionados com o momento que vivemos. Sabendo que quando encaramos a dificuldade, descobrimos a força – seguramente sairemos deste momento mais fortes”.