CÉLULAS ESTAMINAIS DO CORDÃO UMBILICAL: A IMPORTÂNCIA EM TEMPOS DE PANDEMIA

O pretexto para o início da conversa com André Gomes, Fundador e Diretor Geral da Crioestaminal, passou pelo Dia Mundial do Sangue do Cordão Umbilical, assinalado no passado dia 17 novembro, mas ao longo desta entrevista ficamos também a compreender como a marca tem vindo a ultrapassar os obstáculos provocados pela pandemia da COVID-19, até porque hoje, fruto deste novo cenário, é natural que mais famílias optem por guardar células estaminais do cordão umbilical, sem esquecer que a Crioestaminal desenvolveu um medicamento experimental (SLCTmsc02) à base de células estaminais do tecido do cordão umbilical expandidas para tratar doentes mais graves com infeção por SARS-CoV-2 e que pode ser fundamental para a nossa saúde.

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As células estaminais do cordão umbilical são um bem que deve ser guardado, sendo que as células estaminais do sangue do cordão umbilical são usadas no tratamento de diversas doenças. Este cenário ocorre desde o ano de 1988 e, portanto, mais de 30 anos depois, estão os portugueses sensibilizados e consciencializados para a importância da criopreservação das células estaminais do cordão umbilical?
O primeiro transplante com células estaminais do sangue do cordão umbilical realizou-se há mais de 30 anos, Mathew Farrow, com apenas cinco anos, recebeu o sangue do cordão umbilical, doado pela sua irmã recém-nascida, para tratamento de anemia de Fanconi. Desde então realizaram-se mais de 45.000 transplantes, em todo o mundo, para o tratamento de mais de 80 doenças.
Atualmente, encontram-se em curso mais de 400 ensaios clínicos, com células estaminais do cordão umbilical de modo a alargar as opções de tratamento para doenças como a paralisia cerebral, doenças do espetro do autismo e diabetes tipo 1.
No entanto, a mensagem sobre a importância de guardar as células estaminais do cordão umbilical nem sempre fica clara para os futuros Pais, é por isso fundamental, para a Crioestaminal, continuar a trabalhar para que a mensagem seja recebida por cada vez mais famílias, de modo a que possam tomar uma decisão informada.

O Dia Mundial do Sangue do Cordão Umbilical assinalou-se no passado dia 17 novembro. Na sua opinião, quão relevante é esta efeméride? De que forma é que a Crioestaminal promoveu o mesmo?
O Dia Mundial do Sangue do Cordão Umbilical é uma iniciativa de âmbito global, cujo objetivo é expandir o conhecimento sobre o sangue do cordão umbilical, reforçando a importância de todas as famílias guardarem as células estaminais do cordão umbilical, aquando do nascimento de um filho. Trata-se de uma iniciativa promovida pela organização internacional Save the Cord Foundation à qual se associam vários bancos de criopreservação. A Crioestaminal associa-se à iniciativa todos os anos, pois não só reconhecemos a sua importância, como trabalhamos diariamente para que a importância das células estaminais seja clara não só para os futuros Pais, mas também para a sociedade em geral. Este ano promovemos um Open Day Virtual que decorreu no nosso Facebook, ao longo do dia, fomos partilhando vários vídeos em direto, que abordaram diversos temas, por exemplo, que tratamentos já são, hoje, realizados com células estaminais do sangue do cordão umbilical, qual a investigação que se encontra a decorrer nesta área e quais a perspetivas futuras, e possibilitamos também uma visita virtual ao nosso laboratório. Os vídeos permanecerão disponíveis para visualização em https://www.facebook.com/paginacrioestaminal

De que forma é essencial continuar a promover a importância do sangue do cordão umbilical no sentido de fomentar a ampliação da informação sobre o sangue de cordão umbilical, e de consciencialização da sua importância em todo o mundo?
É importante divulgarmos continuamente os tratamentos que vão sendo efetuados com o sangue do cordão umbilical, bem como partilhar os resultados dos projetos de investigação nesta área. É o facto de tratarem doenças, como se de um medicamento se tratassem, que torna as células estaminais tão importantes. Acredito que é esta consciência, que possibilitará, que mais famílias optem por guardar as células estaminais dos seus filhos. Destaco que vinculamos esta informação diariamente, por exemplo, através de sessões de esclarecimento para futuros Pais, que atualmente decorrem online, e promovemos sessões de formação para profissionais de saúde.

Vivemos atualmente momentos complicados, fruto da pandemia da COVID-19 e que tem provocado enormes contrariedades e dificuldades a nível mundial. Primeiramente, de que forma é que a Crioestaminal tem sabido lidar com este novo «normal» e como se tem adaptado e ajustado a esta realidade?
A nossa prioridade tem sido, desde o início de março, garantir a prestação do serviço de criopreservação de células estaminais do cordão umbilical, respeitando todos os critérios de qualidade que garantam uma eventual utilização futura da amostra, assegurando sempre a segurança dos nossos colaboradores. Assim, a equipa de Técnicos Superiores de Laboratório foi dividida em vários grupos de trabalho, que alternam, semanalmente, a atividade entre si, diminuindo significativamente o risco de contágio organizacional e eventuais períodos de quarentena, garantindo sempre um grupo apto a efetuar a atividade laboratorial. Todas as outras equipas encontram-se maioritariamente em regime de teletrabalho. De modo a salvaguardar, que toda a atividade se mantenha sem limitações, reforçamos o stock de todos os materiais necessários ao processamento das amostras de células estaminais do cordão umbilical. No sentido de ultrapassar a impossibilidade de comunicação presencial dinamizamos sessões online semanalmente, nas quais explicamos em detalhe a importância de guardar as células estaminais e o rigor dos nossos processos. No que respeita à Investigação e Desenvolvimento produzimos, em tempo record, um medicamento experimental constituído por células estaminais para o tratamento da COVID-19. Em suma, todos os dias, nas diferentes áreas, adaptamos as nossas atividades e iniciativas ao contexto em que todos nos encontramos.

É legítimo afirmar que dado este novo cenário da COVID-19, hoje damos maior relevância às vertentes da Criopreservação e das Células Estaminais?
Creio que hoje damos maior relevância à saúde em geral, constituindo as células estaminais do cordão umbilical uma opção de tratamento adicional, é natural que mais famílias optem por guardá-las para a sua família, ou doá-las para investigação para que se possam desenvolver novos medicamentos para doenças atualmente sem tratamento.

No domínio da investigação relativamente a possíveis tratamentos com células estaminais da COVID-19, qual tem sido o papel da Crioestaminal? De que forma é que se têm dedicado a tentar, pelo menos, encontrar resultados favoráveis em ensaios clínicos?
A Crioestaminal desenvolveu um medicamento experimental (SLCTmsc02) à base de células estaminais do cordão umbilical expandidas para tratar doentes mais graves com infeção por SARS-CoV-2.
O medicamento experimental é constituído por doses de 100 milhões de células estaminais mesenquimais do tecido do cordão umbilical. Foram produzidas, até ao momento, as primeiras doses deste medicamento inovador, submetidas aos necessários controlos de qualidade, que permitiram a validação de todo o processo e a qualificação do mesmo como terapia experimental a ser testada em doentes com COVID-19 em condição mais grave.
A utilização deste tipo de células para tratar doentes com pneumonias graves associadas a COVID-19 tem vindo a ser testada na China, EUA e alguns países europeus, estando já em curso mais de 20 ensaios clínicos para estudar de forma alargada a segurança e eficácias desta terapia.
O objetivo da Crioestaminal é disponibilizar este medicamento aos hospitais, quer seja num contexto de ensaio clínico, que esperamos venha a ser desenvolvido também em Portugal, quer seja no contexto de isenção hospitalar em que cada hospital obtém autorização para a realização deste tratamento experimental num grupo restrito de pacientes.

Uma das abordagens avançadas para atingir este objetivo é a administração de células estaminais mesenquimais do tecido do cordão umbilical, conhecidas pela sua capacidade para regular o sistema imunitário. Explique-nos um pouco este processo e dê a conhecer ao nosso leitor como o tecido do cordão umbilical pode ser importante neste combate.
O tecido do cordão umbilical é uma fonte rica em células estaminais mesenquimais células essas que apresentam uma capacidade ímpar de regular a atividade do sistema imunitário, estando já a ser testadas em humanos em situações de doença onde ocorre uma resposta exacerbada do sistema imunitário do paciente que pode levar à destruição dos tecidos e órgãos do próprio paciente. Em doentes graves com COVID-19 ocorre uma reação deste tipo em resposta a infeção pelo vírus, pelo que as células estaminais mesenquimais poderão aqui ter um efeito muito positivo na redução do tempo de recuperação destes doentes e na gravidade dos efeitos secundários à infeção por COVID-19.
A função pulmonar e os sintomas de doentes submetidos a este tipo de tratamento experimental melhoraram significativamente após a administração de células estaminais mesenquimais do tecido do cordão umbilical, tendo-se observado um reequilíbrio nas populações de células do sistema imunitário destes doentes, bem como do perfil de moléculas pró e anti-inflamatórias. Os resultados publicados permitiram observar que esta terapia foi capaz de inibir a hiperativação do sistema imunitário e de promover a reparação celular endógena, melhorando o microambiente pulmonar permitindo a recuperação destes doentes.
Apesar destes estudos terem sido conduzidos num número ainda restrito de doentes, os resultados favoráveis obtidos sugerem que as células estaminais mesenquimais podem constituir uma nova estratégia terapêutica para o tratamento desta doença.

Dentro desta realidade de Investigação & Desenvolvimento, acredita que deveria existir um diálogo superior entre entidades privadas como a Crioestaminal e entidades de saúde estatais?
Sem dúvida, na realidade este diálogo tem sido constante no âmbito do medicamento experimental para tratamento da COVID-19 que a Crioestaminal desenvolveu, estamos em contato com Pneumologistas e Intensivistas dos principais hospitais do País.

No domínio da orgânica normal da Crioestaminal, ou seja, na promoção de I&D, quais são os grandes desafios da marca? Continuarão direcionados para ajudar a, pelo menos, encontrar tratamentos promissores em doentes com COVID-19?
Quanto à COVID-19 a nossa expetativa é que o medicamento que desenvolvemos possa ser útil a doentes que dele precisem e que venha a ser requisitado pelos hospitais portugueses até ao final do ano.
Em 2021 continuaremos a desenvolver a área das terapias celulares de modo a produzirmos novos medicamentos com células estaminais, para doenças atualmente sem tratamento, particularmente no que respeita a tratamentos para doenças autoimunes, acidente vascular cerebral e também na área das doenças do desenvolvimento da criança. Como não podia deixar de ser, continuaremos a trabalhar para continuar a garantir a melhor amostra de células estaminais a todas as famílias que guardem as células estaminais do cordão umbilical na Crioestaminal ou que optem por doá-las para investigação.