“QUEREMOS QUE A CREDIBILIDADE DA PROFISSÃO SE MANTENHA A ELEVADO NÍVEL E ISSO SÓ PODE ACONTECER SE FORMOS INCLUSIVOS”

A Igualdade de Oportunidades e Diversidade tem sido um dos temas mais abordados nas mais diversas profissões, realidade que também não escapa na área dos Revisores Oficiais de Contas. José Rodrigues de Jesus, Bastonário da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas (ROC), esteve à conversa com a Revista Pontos de Vista e abordou este cenário, reconhecendo que o panorama atual na profissão tem vindo, felizmente, a mudar, embora ainda haja um caminho a ser realizado para que exista um maior equilíbrio entre Mulheres e Homens na profissão.

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Enquanto Bastonário da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas (ROC), como nos pode descrever a evolução da profissão nos últimos tempos?
A evolução dos negócios e das empresas é que determinam a evolução da auditoria. A globalização da economia, a crescente inovação tecnológica e a digitalização de alguns negócios, particularmente desde os anos 80, levou a que a auditoria tivesse que se ajustar e pudesse fazer uma avaliação de risco compatível com essa evolução. Houve necessidade de muito investimento em novas competências traduzidas em recursos técnicos e humanos mais sofisticados e com valências diversificadas. Mais recentemente, essa evolução passou por uma tentativa de melhorar e tornar mais eficaz a comunicação do auditor com os destinatários do seu relatório.

O seminário “Desafios para a Década: Igualdade de Oportunidades e Diversidade” organizado pela OROC, apresentou um estudo que revela que o número de mulheres ROC corresponde a menos de um terço da profissão. Quais são os fatores que potencializam, na sua opinião, este baixo acesso?
É uma situação comum a muitas profissões e que tende a mudar. Posso dizer que nos últimos 20 anos a percentagem de mulheres que aderiu à profissão é de 40%, tendo elas as mesmas oportunidades que os homens. Mas é uma profissão de elevado desgaste, com uma grande rotação, sejam homens ou mulheres, e o sacrifício que muitas vezes lhe está associado nem sempre é compatível com os objetivos pessoais ou com constrangimentos que por vezes as famílias enfrentam.

Apesar de as opiniões se distinguirem, ainda há mulheres que – em algum momento da sua vida – sentiram estigma por ocuparem determinados cargos profissionais. Acredita que, no âmbito dos ROC, a igualdade de oportunidades é uma questão bem assente?
Sem dúvida. Não existe qualquer descriminação na admissão de mulheres e as regras de acesso estabelecidas no Estatuto da Ordem não conduzem a qualquer tipo de desfavorecimento.

Ainda neste seminário, foram apresentados dados confirmados no que concerne à repartição por idade e podemos verificar que, a idade média dos profissionais ROC varia entre 49 (mulheres) a 59 anos (homens). Por que motivo os jovens, atualmente, não demonstram tanto interesse pela área? Estarão os acessos à profissão mais dificultados?
Mais dificultados não estão. O acesso à profissão sempre foi exigente dada a multidisciplinaridade de matérias e as responsabilidades cometidas aos ROC. Esta é uma questão transversal na Europa e aparenta estar ligada a uma maior regulação e à assunção de novas responsabilidade como, por exemplo, as legisladas sobre a prevenção do branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo.

Ainda assim, a OROC oferece variados tipos de formações baseadas na informação e conhecimento de excelência. O intuito destas formações passa também por atrair jovens à profissão? Quão importantes são estes conhecimentos para os profissionais da área?
Queremos aumentar a atratividade da profissão. Estamos a fazê-lo e vamos intensificar essas ações, nomeadamente de presença junto do meio académico. As formações patrocinadas pela Ordem são mais dirigidas aos membros e fazem parte da atualização de conhecimentos e competências que todos os ROC devem fazer e para melhoria contínua da qualidade dos trabalhos. Porém, qualquer pessoa as pode frequentar estando as nossas ações devidamente publicitadas no nosso sítio da internet. Abordamos matérias de interesse para outros profissionais e temos registado com agrado uma crescente procura das nossas ações de formação por terceiros.

Na perspetiva da Ordem dos ROC, o que continuará a ser realizado, quanto à persecução da igualdade de oportunidades, valorização do trabalho e do mérito que caracteriza a OROC?
A profissão de revisor oficial de contas é reconhecida como integrando profissionais de elevada capacidade e competência e esse reconhecimento é dado não só pelas entidades a quem prestamos serviços, mas também pelas instituições públicas que reconhecendo a nossa valia connosco interagem chamando a Ordem a pronunciar-se sobre propostas de legislação ou integrando grupos de trabalho sobre matérias que nos dizem respeito. Temos colaborado com o Tribunal de Contas e a Inspeção Geral de Finanças, bem como com o Ministério Público, e reforçado o diálogo com os reguladores e supervisores. Queremos que a credibilidade da profissão se mantenha a elevado nível e isso só pode acontecer se formos inclusivos e mantivermos a atitude de rigor e integridade que nos tem caracterizado.