UM LIVRO QUE AJUDA A LIDAR COM A PANDEMIA DA COVID-19

Qual o papel do Psicólogo perante a nova realidade provocada pela pandemia da COVID-19? Sobre esta e outras questões, a Revista Pontos de Vista esteve à conversa com Mauro Paulino, Psicólogo Clínico e Forense e Coordenador do livro “A Psicologia da Pandemia – Compreender e Enfrentar a Covid-19”, recentemente lançado pela editora PACTOR e que permitirá melhor compreender e enfrentar a COVID-19.

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A pandemia atual tem e terá um enorme impacto na saúde psicológica da população. Qual tem sido até então o papel dos Psicólogos e qual a importância destes profissionais em plena pandemia?
É indiscutível que um acontecimento desta magnitude se repercuta na saúde mental e representa uma ameaça à saúde pública, o que reforça a importância da Psicologia e dos seus profissionais. Este cenário global ajudou a colocar em evidência a necessidade de reconhecimento, mas também de investimento na ciência psicológica. A gestão da doença mental preexistente, o aumento do desemprego, o apoio a cuidadores informais, pessoas de grupos de risco, doentes com COVID-19, o risco de burnout de profissionais de primeira linha constituem exemplos claros de situações onde o papel do psicólogo tem uma relevante função. Uma resposta eficaz pode contribuir para a redução da prevalência da doença e da letalidade, bem como mitigar os seus efeitos negativos a nível social, económico e de segurança nacional.

Recentemente foi lançado o livro “A Psicologia da Pandemia – Compreender e Enfrentar a COVID-19”. Quão importante é este livro para a sociedade?
Esta é uma iniciativa que contribuirá significativamente para todos os que procuram informações credíveis, de modo a melhor compreender e enfrentar a COVID-19. É um livro que se impunha e preenche uma lacuna importante na literatura nacional, até então sedenta de informação consistente e baseada evidência. Apesar de se tratar de uma obra composta por contributos científicos, está escrita de forma clara e acessível, destacando questões incontornáveis de uma temática que deve inquietar cada cidadão, dadas as suas consequências globais. O leitor irá encontrar tópicos urgentes e importantes orientações futuras para lidar com este momento desafiante e, simultaneamente, histórico.

Foram mais de 30 os profissionais a escrever, de forma séria e criteriosa, sobre um tema que, até há pouco tempo, era desconhecido. Que temáticas podemos encontrar e de que forma as mesmas criam um impacto favorável na vida das pessoas?
Em primeiro lugar, enaltecer a responsabilidade técnica e científica com que este grupo de profissionais aderiu a esta iniciativa editorial, quando se assiste a uma proliferação de conteúdos, fake news, publicações sem revisão. Feita esta merecida menção, podemos encontrar capítulos sobre a gestão clínica da pandemia, as reações psicológicas, as complicações neuropsiquiátricas, as intervenções psicológicas e psicossociais, como em lares, as pluralidades familiares, tais como crianças com pais separados ou divorciados, ou agregados marcados por violência doméstica. Temos também conteúdos sobre o luto, o regresso aos estabelecimentos de ensino, considerando os impactos na esfera pedagógica, pediátrica, económica, laboral, legal e espiritual. Quando se aborda de forma séria estas temáticas, estamos a gerar e sistematizar informação credível e útil com impacto positivo na vida das pessoas, dos leitores, que se sentirão na posse de mais conhecimentos para enfrentar a COVID-19.

Este livro pode ainda traduzir-se numa mais-valia para a prevenção/preparação de pandemias futuras, identificando boas práticas de intervenção psicológica e comunicação de risco. O que pretendem com estas orientações? As pessoas têm medo de pensar no futuro?
As orientações abordadas ao longo do livro pretendem dotar as pessoas de conhecimento que as ajude a lidar com os múltiplos desafios da pandemia e facilitem a aprendizagem da gestão de novas pandemias. Para além do medo que várias pessoas vão demonstrando, podendo mesmo desenvolver respostas fóbicas, sabe-se que o cansaço, a fadiga da pandemia atinge já 60% da população, segundo a OMS. Há um sentimento de sobrecarga, uma vez que a pessoa se mantém constantemente vigilante, pela necessidade de obedecer a restrições e alterações na vida em sociedade.

De forma mais generalizada, como é que a pandemia alterou os comportamentos e reações das pessoas perante a COVID-19?
Apesar de a esperança passar pelo aparecimento de uma vacina que nos permita ficar imunes a esta doença e voltar em segurança ao mundo, as alterações globais potenciaram uma pluralidade de respostas psicológicas pelo aumento de casos confirmados e suspeitos, como o confinamento compulsivo no domicílio, a diminuição da disponibilidade de equipamentos de proteção individual e/ou a cobertura exaustiva da comunicação social capaz de levar o nosso sistema de alerta a estar constantemente ativado. As repercussões na economia, por um maior risco de uma situação de desemprego, intensificaram ainda mais a vivência de sentimentos negativos. É por isso compreensível que as reações das pessoas envolvam, na generalidade, maior sintomatologia ansiosa e depressiva, assim como níveis de stress mais elevados.