“NO TRATAMENTO DA INFERTILIDADE, O TEMPO É UM ELEMENTO CRUCIAL DA EQUAÇÃO”

O ano de 2020 ficará marcado por um período de precauções e tensões devido à pandemia que se instalou mundialmente. Entre os cidadãos que sofrem com este momento, estão os casais com dificuldades para engravidar e que iam ao encontro de um tratamento. Contudo, para Marco Alves, Investigador Auxiliar na Unidade Multidisciplinar de Investigação Biomédica e no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, apesar da complexidade da pandemia, em Portugal os profissionais de saúde na área da infertilidade são de excelência e reconhecidos internacionalmente. Saiba mais sobre o tema.

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A avaliação e o tratamento de situações clínicas de infertilidade conjugal fazem parte das preocupações médicas há mais de um século. Entre os inúmeros projetos que o Marco Alves lidera, é reconhecido entre os melhores peritos do mundo na área da fertilidade. Como nos pode descrever a evolução destes tratamentos em Portugal?
Os tratamentos de fertilidade têm evoluído muito rapidamente nos últimos anos e podemos confiar nos profissionais de saúde que fazem parte das unidades de Procriação Medicamente Assistida (PMA), quer do Serviço Nacional de Saúde (SNS), quer de Clínicas Privadas. Atualmente as equipas são multidisciplinares, acompanham as evoluções científicas e técnicas e priorizam a investigação das causas da infertilidade. Quanto mais percebermos os mecanismos responsáveis pela (in)fertilidade, melhor poderemos desenvolver técnicas e produtos inovadores. Quando visito centros de referência na Europa ou EUA, a grande diferença que encontro não é tanto técnica, mas antes na presença de pessoas exclusivamente dedicadas à investigação. Este é um problema comum a muitas áreas em Portugal: falta de investimento na investigação e desenvolvimento aplicados. Em vez de exportarmos conhecimento e pessoas altamente qualificadas, deveríamos exportar produtos “made in Portugal”.

É legítimo afirmar que o mercado da fertilidade está a mudar rapidamente e a importância das tecnologias a tornar-se cada vez mais evidente? Que investigação e trabalhos se continuam a desenvolver na área?
O mercado de tratamento da infertilidade é muito dinâmico e há muito para explorar. O nosso grupo tem-se dedicado à investigação fundamental, mas também translacional. Na verdade, nos últimos anos desenvolvemos conhecimento que resultou em duas patentes que visam melhorar a viabilidade dos gâmetas para uso em técnicas de PMA, com a finalidade de aumentar as taxas de sucesso. O financiamento público nesta área é escasso, senão mesmo inexistente, mas felizmente conseguimos uma parceria com a farmacêutica MerckKGaA, que reconheceu o potencial das nossas descobertas e apostou na nossa equipa. Estamos em plena implementação do projeto e confiantes que em breve apresentaremos um produto inovador que poderá ajudar os casais. Com o investimento certo, nas pessoas mais capazes, muito mais poderia ser feito.

Atravessamos mundialmente um período incerto provocado pela pandemia da COVID-19, cujas consequências têm sido devastadoras e em muitos casos irreversíveis. Nos primeiros meses a Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução recomendou – para salvaguardar a segurança comum – a paralisação de qualquer tratamento de fertilidade. Passado todo este tempo, já é possível medir o real impacto da pandemia nestes tratamentos?
A pandemia obrigou a uma reorganização dos procedimentos clínicos. Por um lado, devido à necessidade de resposta face ao elevado número de pessoas infetadas; por outro, devido à segurança necessária para profissionais de saúde e pacientes. Os casais reconhecem que médicos, enfermeiros, investigadores, embriologistas e auxiliares de saúde fizeram um trabalho notável para que o impacto da pandemia fosse o menor possível no sucesso individual dos tratamentos. O tempo é crucial para os casais e as equipas desdobram-se, com muito esforço humano, para sem medos recuperar o tempo perdido. É importante reconhecer e incentivar estas pessoas enquanto se transmite confiança aos casais. Relativamente ao real impacto da pandemia nos tratamentos, ainda é muito cedo para conclusões. Provavelmente as listas de espera no SNS vão sofrer um expectável aumento devido à paragem e ou redução de tratamentos verificada por causa da pandemia.

Afirma-se que ao longo deste processo, a resposta que existia já não chegava para os pedidos que surgiam. Que orientações considera serem fundamentais para que os tratamentos de infertilidade em Portugal prossigam com a estabilidade e segurança necessária?
Vivemos tempos conturbados e estamos condicionados de tantas formas que é expectável que a resposta infelizmente não consiga superar a necessidade. No entanto, as equipas estão a trabalhar a um ritmo muito elevado. Mesmo após assegurar que o casal está negativo para SARS-COV-2, o manuseamento dos gâmetas deve ser feito com cuidados redobrados pois trata-se de material biológico. Os casais devem ter um acompanhamento regular com vigilância apertada porque a qualquer momento pode ocorrer uma infeção e complicar o processo ou comprometer o tratamento. Os tratamentos são seguros e seguem todas as orientações nacionais e internacionais para a área. Acima de tudo há que confiar nos profissionais e nas unidades onde estão a ser acompanhados.

A tranquilização dos pacientes foi também uma peça essencial para atenuar sentimentos de incerteza que naturalmente se manifestaram. Assim, como foi possível voltar a descansa-los no seguimento dos seus tratamentos?
Os pacientes que procuram tratamento de infertilidade são sujeitos a uma pressão que, por si só, pode ter efeitos negativos para o sucesso. Imagine somar a isto a ansiedade criada pelo contexto de pandemia em que vivemos. Hoje sabe-se que o estado anímico e a ansiedade no casal interferem com o sucesso do tratamento. Por isso, as equipas também já se especializaram em gerir expetativas e controlar a ansiedade dos casais. Este período tem sido um teste prático muito duro, mas penso que o retomar lento, programado e cuidado deu um certo conforto e uma sensação de segurança aos casais. Muitos achavam que a interrupção dos tratamentos ia durar muito mais tempo. Quando perceberam que tudo estava a voltar ao normal foi um alívio.

De modo geral e tendo em conta a sua experiência, quais foram as principais dúvidas e preocupações dos pacientes que viram os seus tratamentos interrompidos?
No tratamento da infertilidade, o tempo é um elemento crucial da equação. Há uns anos os casais não tinham tanto essa noção, mas hoje sabem que o tempo passa depressa e a probabilidade de sucesso do seu tratamento vai diminuindo. Talvez por isso mesmo a maior preocupação dos casais era com o tempo perdido e a espera. Estes fatores criam ansiedade e gera-se assim um ciclo terrível. Para além disso, muitos casais procuravam e procuram saber se é mesmo seguro retomar ou começar o tratamento. Não é possível afirmar que não há nenhum risco, mas desde que se sigam as normas não existem dados que suportem um adiamento.

Que recomendações daria para quem pensa iniciar um tratamento de infertilidade atualmente?
Independentemente do momento, sempre digo aos casais que devem procurar uma avaliação tão rapidamente quanto possível se têm dúvidas sobre a sua saúde reprodutiva. Por outro lado, os casais devem confiar nos profissionais de saúde que escolheram ou que o SNS lhes proporciona. Em Portugal, os profissionais são de excelência e muito respeitados internacionalmente. A juntar à prática clínica e laboratorial ainda fazem investigação mais por iniciativa própria do que por incentivo. Por isso não há que ter qualquer receio de ir rapidamente procurar ajuda. Quanto mais cedo, melhor.

Enquanto investigador do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), como prevê que seja o futuro da área da fertilidade em Portugal, tendo em conta o presente cenário pandémico?
Há pouco investimento nesta área por parte do Governo e entidades públicas. A sociedade civil tem obrigação de exigir mais. Nas palestras costumo começar por dizer: “hoje não vamos falar de doença e saúde, mas sim de fertilidade, aquele assunto que parece interessar apenas a pessoas que têm dificuldade em ter filhos, mas que na verdade trata apenas e só da continuidade da nossa espécie”. Isto é motivo suficiente para que se invista muito nesta área. No nosso caso, se não fosse investimento privado como o que a MerckKGaA nos proporcionou, perder-se-ia a possibilidade de desenvolvermos em Portugal produtos inovadores. Tenho também de deixar uma palavra de apreço às instituições como a Sociedade Portuguesa de Diabetologia e a Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução que incentivam de forma decisiva os investigadores. Quanto ao SARS-COV-2, eu tenho dezenas de ideias que gostaria de explorar e sei que muitos colegas passam pelo mesmo, mas sem investimento, não será possível fazê-lo. Portugal tem serviços e clínicas de excelência e há muita gente jovem interessada em trabalhar nesta área. Há muita resiliência, mas só com investimento e aposta nas pessoas mais capazes Portugal poderá continuar a afirmar-se nesta área.