“A APOTEC CONTA NESTE MÊS QUARENTA E QUATRO ANOS DE INTENSA ATIVIDADE”

A APOTEC – Associação Portuguesa de Técnicos de Contabilidade é um organismo profissional de classe, autónomo e independente e tem como objetivo representar, dentro dos quadros legais, os seus associados, defendendo os seus interesses técnicos, profissionais, deontológicos e culturais. Isabel Cipriano, Diretora da APOTEC, esclareceu-nos em entrevista, como é para si gratificante assumir um cargo de extrema relevância, dedicação e exigência.

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Começando pelo início, quem é a Isabel Cipriano, além de contabilista e Diretora da APOTEC há mais de 20 anos?
Sou alguém que teve pressa em acabar o bacharelato no ISCAL, em 1996, sem grande paciência para a estatística e para a álgebra linear do curso superior de Contabilidade e Administração, que mais parecia ser um curso de matemática aplicada à contabilidade. O objectivo era começar a trabalhar na área da contabilidade e finanças. E quando comecei, apenas tive horas certas para sair nos três primeiros dias, desde então deixei de ver o relógio de ponto, passei a ver responsabilidades e a arranjar equilíbrio entre as várias (profissionais e pessoais). As primeiras férias de trabalho tiveram como finalidade o acompanhamento hospitalar e recuperação em casa, de um familiar.
Sou parte de um casal, com quase 25 anos de caminhada. Tenho um filho com 15 anos que cresce sabendo que somos para a família, aquilo que somos para os outros. A dedicação e a exigência são os mesmos. Procuramos educar com o exemplo, que é a única coisa de valor que, enquanto pais, lhe podemos deixar.
Quem escolheu esta profissão fui eu. Não me foi imposta. Nunca um familiar ficou por cuidar. Nunca gozei mais de 15 dias seguidos de férias. E ainda com genica para voluntariado, projectos novos, amigos e família. Ortega y Gasset, em 1937 disse que “nós somos nós e as nossas circunstâncias”. Sou alguém que gosta do que faz.

Que análise faz do setor da contabilidade e do trabalho desenvolvido pela Associação em prol da atividade em Portugal?
A caracterização do tecido empresarial condiciona a forma como se desenvolve a atividade deste sector, assim como as assimetrias regionais. Ainda assim, segundo dados do INE, nas estatísticas dos serviços prestados às empresas, em 2019, o valor das prestações de serviços em atividades de contabilidade, auditoria e consultoria das empresas cresceu 7,5% em relação a 2018. A Contabilidade, auditoria e consultoria deixou de ser a atividade mais representativa (26,2% do total da prestação de serviços) e foi ultrapassada pelas atividades da Informática que atingiram um peso de 29,2%, quando em 2018 estavam em 2º lugar fruto do resultado de um crescimento de dois dígitos (+12,5%).
A APOTEC conta neste mês quarenta e quatro anos de intensa atividade. Participámos em todas as alterações legislativas do sector. Estivemos na génese, implementação e desenvolvimento da regulamentação profissional, e por isso temos uma responsabilidade acrescida e histórica, que procuramos não descuidar e intervimos sempre que se justifique e seja necessário para os profissionais do setor, e em particular, para os Associados. Acresce ainda mais o dever de participação responsável ativa por ser uma entidade reconhecida de utilidade pública. Fazemos também a defesa da Contabilidade num país que tem uma forte ingerência fiscal nas práticas contabilísticas e na gestão das empresas.
Os profissionais de contabilidade são das classes profissionais que mais mudanças abraçaram, aliados ao bom uso das soluções tecnológicas, que se foram sucedendo desde os anos 80. Hoje temos também o desafio de coordenar talentos, facilitando operações virtuais, tornando o trabalho mais flexível, pensando na saúde e segurança dos funcionários.
Temos que adaptar e inovar sempre, para o apoio continuo aos Associados, que são a razão da existência da APOTEC.

Como é que a podemos caraterizar enquanto líder nesta organização e como começou este desafio para si? Que género de liderança perpetua no seio da APOTEC?
A liderança na APOTEC é, por inerência, do presidente Manuel Patuleia, com quem tenho o privilégio de colaborar. Eu tenho a cargo, desde 2007, a direcção executiva e a co-responsabilidade estatutária enquanto vice-presidente, desde 2016.
Em 2000 fui convidada pelo Manuel Patuleia para vir para a APOTEC para dar continuidade ao periódico técnico editado pela Associação, o Jornal de Contabilidade, assumindo a coordenação, e dotar a organização de meios e processos tecnológicos para as dificuldades administrativas mas sobretudo com uma maior adequação às crescentes necessidades dos Associados.
Na reorganização administrativa e desenvolvimento tecnológico, áreas com experiência e conhecimento, acabou por ser um maior desafio. Quatro bases de dados separadas por função, nenhuma interligava, processos administrativos pouco informatizados, uma estrutura administrativa “pesada” com o natural desgaste e cansaço de uma associação com 23 anos, num país sem grandes hábitos de livre associativismo. E com o prenúncio de que teria “os dias contados”, uma vez que já tinha sido constituída a ATOC (hoje, OCC) e que as associações de inscrição facultativa iriam em pouco tempo desaparecer.
Eu vinha de sistemas integrados faturação/contabilidade, com mais de cem colaboradores, transações em mercado europeu e importações, lojas de venda ao público, revendedores, controlo interno, milhentas transações sibs com taxas diferenciadas, com contabilidade analítica, revisão legal de contas, etc., e longe de imaginar o que me esperaria e surpreendeu-me os hábitos, iguais há vinte anos e algum ceticismo a mudanças. Só mesmo por um sentido de profunda admiração e gratidão pelo presidente, não me vim embora nos dois primeiros meses.
E foi junto com as pessoas – colaboradores internos e externos, e fazendo trabalho que não era “meu” mas que era preciso ser feito para se conseguir adequar e implementar toda uma revolução informática, administrativa e uma forma mais próxima e assertiva no relacionamento com os Associados e com as instituições e organizações estatais.
Um dos fundadores e grande símbolo desta Associação, Martim Noel Monteiro era um acérrimo defensor de que a competência se demonstra com os conhecimentos que se evidencia e não com os diplomas que se apresenta. E esse é um lema que deixou bem marcado na APOTEC, pois ainda hoje defendemos intransigentemente esse princípio.
A APOTEC adaptou-se internamente, vem fazendo-o constantemente porque as necessidades dos profissionais e das empresas também se vão modificando, e há que antecipar essas necessidades para continuarmos a prestar o melhor apoio aos Associados.
E o ano 2020 foi um desafio à liderança de qualquer organização. As ‘nossas’ pessoas corresponderam de forma muito dedicada e solidária. E isso foi percetível aos Associados que se mantiveram e continuaram a justificar a nossa entrega. A liderança é assente em (re)conhecimento, confiança e ética.

A mulher hoje tem um papel fundamental na Sociedade, quer ao nível da gestão como da liderança em múltiplas actividades consideradas até de maior influência do sexo masculino. Como se pode equilibrar, na sua opinião, esta balança da “igualdade de género”?
Penso que a mulher tem hoje um maior reconhecimento público, mas sempre teve um papel fundamental na sociedade. Historicamente somos uma sociedade matriarcal. Veja o papel da mulher na família. Quem herdava naturalmente o direito ao trono? Os filhos do rei com a rainha, não os outros que não os da rainha. As duas grandes guerras vieram colocar em evidência, não só a necessidade, como a capacidade da mulher em desempenhar atividades que tradicionalmente estavam a cargo dos homens. E sendo um processo irreversível, a mulher foi desenvolvendo competências, e hoje é comum cada vez mais mulheres estarem na liderança e gestão das organizações, como noutros lugares nas mais variadas entidades. “Igualdade de género” é um argumento político. Não há géneros iguais. O que se poderá pretender igualizar é a oportunidade de um tratamento semelhante em reconhecimento, remuneração e valorização pela capacidade e competência. E esse é caminho que se tem vindo a fazer, às vezes devagar, noutras nem por isso.
Temos tantos e bons exemplos desta sociedade em constante mudança, desde mulheres na arbitragem profissional desportiva, a cientistas, influencers, políticas, governantes, militares, gestoras, activistas, etc. Em 2020, era notícia a voz mais poderosa na luta contra as alterações climáticas globais, Nemonte Nenquimo, a líder de 34 anos da nação Waorani no Equador.
Na APOTEC, a equipa administrativa é composta por 5 mulheres e 1 homem. Na Direção Central, há 4 mulheres e 3 homens.

A contabilidade assume uma grande relevância para as empresas neste contexto de recuperação económica em tempos de Pandemia. Qual o papel que desempenha e fomenta para este desígnio junto da Direção e dos associados?
A contabilidade é uma parte vital das organizações, que permite a evolução do modelo operacional da empresa para criar e diversificar novos serviços, criando assim valor.
O acentuado desenvolvimento tecnológico das últimas décadas tem criado, no âmbito da actividade profissional, uma maior necessidade de ajustamento entre o conhecimento adquirido pelos agentes e as necessidades constantes exigidas ao desempenho eficiente de qualquer actividade profissional.
As constantes alterações legais, e este último ano têm sido exímio nisso, não só ao nível da legislação laboral como fiscal, e evidenciam a necessidade dos profissionais de contabilidade se manterem permanentemente actualizados nessas áreas do conhecimento social, por forma a poderem corresponder ao mais elevado nível de exigência.
As mudanças profundas que já estão a ocorrer nas empresas, no quotidiano e no mundo urgem a que os profissionais redefinam seus papéis e contribuições não só para as entidades como para a sociedade em termos gerais. A profissão de contabilista não é imune a estas mudanças. A definição de resiliência assenta muitíssimo bem a estes profissionais.
Os contabilistas têm um papel muito importante, e isso obriga-nos a nós Associações a dotar e formar estes profissionais para o futuro, que exige cada vez mais a execução de uma abordagem abrangente e integrada, aliada de conhecimento, tecnologia, competências e comportamentos éticos necessários para um ambiente sempre em (r)evolução.

A terminar, o que podemos continuar a esperar do trabalho e da relevância profissional dos contabilistas bem como da APOTEC no contexto económico e institucional na sociedade portuguesa?
Valorizar o profissional através da formação é dotar as organizações de capacidade de criação de valor. A APOTEC Academia, criada no final de Março do ano passado, em pleno confinamento, é o mais recente projecto formativo na APOTEC de transmissão, partilha e crescimento profissional, com o rigor e dedicação que os Associados e formandos nos merecem. E esta é uma preocupação constante da Direcção.
A formação profissional como criação de valor é o objectivo por excelência, e um desafio à recuperação económica. Não só para nós profissionais, mas para a sociedade em geral, aliando conhecimento e criatividade, pois o modelo tradicional não se adequa a estes novos tempos, que já nos trazem novas formas organizacionais, em que a volatilidade geopolítica e económica têm grande impacto nos mercados financeiros, assim como as questões de desempenho e preservação ambientais. E isto é referenciado no Plano de Recuperação e Resiliência.
E os contabilistas estão bem posicionados para liderar uma agenda de criação de valor, como parceiros de negócios dentro de uma organização. Têm sido o suporte das empresas, já o eram e agora são ainda mais.
Somos qualificados em diversas as áreas como a contabilidade, a fiscalidade, o controlo interno e reporte, a gestão financeira, gestão de recursos humano e a gestão de sistemas de informação, entre outras. Numa crise tão grande e abrangente quanto a COVID-19, todos devemos trabalhar juntos para compartilhar conhecimentos e recursos e fornecer os melhores conselhos e orientações possíveis para nossos governos e economias.

Existem alguns desafios para curto-médio prazo em torno da v/ atividade e da v/ gestão no mandato que resta?
As sucessivas falências de várias empresas das atividades forçadas ao encerramento, as dificuldades de tesouraria, que não estão sendo atenuadas pelos apoios do Estado que se têm manifestado insuficientes, as contínuas dificuldades de otimizar plataformas públicas de respostas às necessidades das empresas, dos profissionais e dos contribuintes, vão ter reflexo também nos contabilistas, e por inerência, nas associações.
O nosso mandato termina no final deste ano, em 2022 haverá novas eleições. Não é uma preocupação imediata, pois há elementos de continuidade neste sentido de missão associativa, a Direcção tem projetos novos em desenvolvimento, continua a apostar em mais parcerias, que visam ajudar os associados e as empresas a sobreviverem e a prosperar na incerteza destes próximos anos.