A RIQUEZA DE DADOS É A GRANDE REVOLUÇÃO TRAZIDA PELO BUILDING INFORMATION MODELING (BIM) AO SETOR DA CONSTRUÇÃO

A complexidade dos edifícios aumentou exponencialmente nos últimos 20 anos. Os edifícios são cada vez mais inteligentes e são responsivos às suas taxas de ocupação. Temos uma certificação energética mais exigente, o que se reflete em escolhas criteriosas de materiais e na robustez dos equipamentos. Por detrás de tetos falsos esconde-se um desenho calculado ao milímetro de cablagens, de tubagens e de condutas.

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POR PEDRO FERREIRINHA, VIRTUAL DESIGN AND CONSTRUCTION MANAGER NA HCI – CONSTRUÇÕES, S.A.

Aos requisitos das especialidades acresceram normas de eficiência energética, de segurança, de instalações especiais. A colaboração e a mitigação de erros nunca foram tão preponderantes no setor como hoje. Uma metodologia clássica, em 2D, dificilmente dá resposta a projetos altamente rigorosos e em que não pode haver ausências de informação.
O BIM trouxe maior integração entre todas as partes envolvidas no decurso do ciclo de vida de cada edifício. Trouxe também a possibilidade da articulação com o planeamento e os custos; uma melhor gestão de obra por via desta integração; e, para fechar o ciclo, uma melhor manutenção do ativo – o maior incentivo para um dono-de-obra adotar a metodologia.
Sob a perspetiva da construtora, na HCI – Construções, S.A. vemos claras mais-valias do BIM no que respeita à otimização da construção. A complexidade da coordenação de especialidades envolvidas num projeto de execução num edifício de grande escala carece, inerentemente, de elevadíssimos padrões de colaboração e de comunicação.
As plataformas digitais colaborativas são o suporte de excelência para que estes fluxos de conhecimento e de trabalho se materializem em tempo real. Baseadas nos modelos das equipas de projetistas, a análise e a interpretação de todos os elementos integrantes do projeto são mais rápidas, têm melhor qualidade e ajudam ao processo de gestão da obra, elevando a qualidade da construção.
A coordenação de todas as especialidades e as análises de incompatibilidade são etapas cruciais para a mitigação de erros. Não a resolvendo na sua totalidade, o BIM potencia a compatibilização de especialidades e permite-nos fazê-la com maior antecedência.
Em BIM a preparação de obra é produzida com mais eficiência, precisamente por toda a informação estar centralizada; estas fases, na metodologia tradicional, exigem um trabalho manual e moroso. No que respeita a quantidades e custos, é possível reduzir a quantidade de trabalhos refeitos; também a atualização de todas as quantidades é feita automaticamente. Minimizamos, assim, desvios até à entrega ao dono-de-obra.
Destaco, também, o potencial para pré-fabricação, sobretudo no âmbito das construtoras. Ao aumento de complexidade das especialidades sobrepõe-se a cada vez maior produção em fábrica de elementos que são posteriormente levados para a obra. É a procura deste tipo de soluções que eleva a qualidade dos trabalhos, a qualidade da produção e, por consequência, a redução de tempos e um aumento de qualidade geral dos edifícios; é, por isso, uma das mais-valias da modelação digital que podem advir das plataformas partilhadas e dos modelos.
Na HCI – Construções, S.A. consideramos um modelo como um projeto de Big Data integrado do edifício. Frequentemente, estes dados já existiam – apenas eram de difícil acesso, ou as interligações entre si não eram facilmente acionáveis. Estamos a desenvolver competências e ferramentas de Business Intelligence para os integrar em sintonia, tornando-os mais intuitivos e acessíveis às equipas. Trazemos, assim, mais valor e quantidade a todos os dados produzidos entregando a informação certa, quando é necessária, aos intervenientes que dela precisam.
Ao nível das plataformas digitais, é essencial um bom Plano de Execução BIM (PEB). Com um bom PEB e com regras bem definidas os modelos conseguem evoluir do projeto para a obra; da obra às telas finais; e, por fim, destas para a gestão de ativos.
É este processo contínuo que traz riqueza acrescentada a cada fase dos modelos: o projeto e a obra acrescem sucessivamente dados até à manutenção e gestão do ativo, fase que representa 80% do seu custo total. A riqueza de dados é a grande revolução trazida pelo BIM ao setor da construção, e é o que faz com que a modelação digital seja a grande evolução do setor da construção.
Há, contudo, caminho a percorrer até que atinjamos o pleno potencial do BIM em Portugal. Não há ainda regras nacionais para os modelos – nomeadamente os requisitos de informação – a ditar os parâmetros que cada elemento deve conter.
São precisas regras claras para os requisitos de informação e sobre o tipo de dados que queremos nos modelos. Primeiro, porque os modelos ainda não são elementos oficiais, ao contrário de DWG ou de PDF. Depois, porque a ausência de regras é o maior obstáculo para que em Portugal o setor da construção ganhe maturidade em BIM.
As regras de modelação e de informação deveriam ser pensadas como as bases da construção digital do edifício; mas não há, por agora, um padrão institucional de regras que esteja reconhecido como oficial em Portugal para o BIM.
O primeiro passo já foi dado pelas empresas nacionais: um empreiteiro recebe, hoje, um modelo compatibilizado entre arquitetura e especialidades. Contudo, à falta de normas, a dinâmica de trabalho em que se poderia já continuar da fase de execução para a fase da obra ainda não está madura. É necessária ação estruturante por parte das comissões ou do Estado para mediar, entre todos e à escala nacional, um workflow coerente e assertivo que melhore o processo e a sua engrenagem, desde o estudo prévio à gestão de ativos, passando pela conceção e construção.
O que teria o setor a ganhar com uma base normativa oficial? Com base nestas regras, cada empresa conseguiria ter o seu workflow previamente definido, pois todos os parâmetros seriam os mesmos. Conseguiríamos ter um planeamento integrado, com partilha de insights entre as equipas de projeto e de obra.
A modelação digital pode ajudar a aumentar a eficiência das empresas portuguesas do setor AEC e, por consequência, também a nossa competitividade no mercado europeu. Estou certo de que o BIM está a ganhar tração e de que o setor da construção estará na vanguarda da Indústria 4.0. As vantagens são claras e o potencial de aplicações futuras está já a ser explorado noutros países.
As plataformas digitais colaborativas são a base de trabalho que ajuda a responder a todas as necessidades dos intervenientes, agregando todos os dados em modelos partilhados desde a concepção, sendo enriquecidas ao longo das várias fases e alimentadas ao longo da vida do edifício.