“O foco primordial do projeto Conecta Pyme 4.0, é a transformação digital em curso”

A transformação digital é um assunto que já não passa despercebido e cada vez mais fomenta a sua importância e é precisamente nesse sentido que o Conecta Pyme 4.0 acontece. Quem nos revelou detalhes sobre o mesmo foram os Professores da Universidade de Évora - a entidade que lidera o projeto - Paulo Resende Da Silva e Jacinto Vidigal Da Silva. Saiba tudo.

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A realização de um projeto como o Conecta Pyme 4.0 assume um papel primordial aquando do avanço da digitalização? Porquê?
Essencial. O foco primordial do projeto Conecta Pyme 4.0 é a transformação digital em curso. Um projeto com estas características, caso as empresas o saibam também aproveitar, contribuirá, pela possibilidade de colaboração mútua entre academia e empresas, para a melhoria do potencial de aplicação do conhecimento e um melhor ajustamento às necessidades das empresas. Por vezes existe a ideia de que o investimento em transformação digital é só para as grandes empresas; nada mais de errado existe nesta leitura. A transformação digital está acessível a qualquer empresa, desde que saiba o que precisa, o que pretende fazer e exista a motivação e a capacidade para fazer as mudanças necessárias. É possível e profundamente desejável porque estamos a vivenciar uma verdadeira revolução e não existe alternativa.

Sendo que o maior foco deste projeto passa por promover a transformação digital e a adaptação das empresas aos requisitos dos negócios digitais, de que forma pode ajudar a mudar a mentalidade das instituições no sentido daquilo que é o futuro da Transição Digital e ajudar na moldagem das mesmas a este novo contexto?
Sempre que uma dada instituição, seja ela uma empresa, organização, organismo público ou do terceiro setor, invista na transformação digital, de forma planeada e integrada, três consequências ocorrem: responde melhor aos seus “clientes”; reajusta os seus processos e ferramentas de gestão e torna-se mais aberta à inovação e à mudança de mentalidades. Por norma existe medo. Medo do que advém daí. Medo pelo emprego, medo pelo não conseguir corresponder às expetativas. São naturais estes medos. Temos de saber lidar com eles. Contudo, sabemos algo bastante curioso. em alguns projetos o emprego acabou por se manter e, ocasionalmente, até melhorou, novos desafios mais estimulantes foram solicitados, melhorando o nosso próprio sentimento de pertença e compromisso para com a instituição. Existem riscos, existem impactos negativos, mas os positivos existem também e nalguns casos surpreendem.

Quão importante é para as empresas da região da EUROACE a realização de uma iniciativa como esta? O “apelo” à competitividade está implícito?
Para a Região da EUROACE e para todas as regiões de baixa densidade empresarial e com elevados índices de trabalho rotineiro e mecânico, a implementação de projetos de transformação digital é crucial. Vivemos num mundo aberto, onde os nossos concorrentes estão na proximidade de um acesso de dados, rede wi-fi, onde podemos encontrar tudo através de um ecrã de telemóvel. Isto muda a perceção. Contudo, por outro lado, a transformação digital tem um impacto enorme nos processos produtivos, bem como em todas as etapas desse processo, a montante e a jusante. É extraordinário o potencial, as vantagens e os impactos nas estruturas de custos, do uso de determinadas ferramentas, equipamentos e tecnologias digitais na agricultura, no agro-negócio, na indústria extrativa, na indústria transformadora. O conhecimento é mais aberto, a capacidade de utilização dos dados é mais simples e isso é bastante impactante e pode melhorar significativamente os desempenhos a todos os níveis, inclusive na proteção ambiental e social.

Acreditam que o sucesso da Conecta Pyme 4.0 trará uma otimização na organização, nos produtos, nas infraestruturas e nas estratégias das empresas? Até que ponto a competitividade nesta transição digital poderá ser benéfica?
Temos de acreditar, apesar das dificuldades (e oportunidades) da pandemia; o que é um paradoxo. A transformação digital e a transição sendo digital, ela só se torna bastante efetiva existindo as relações de carbono. Vamos usar uma frase do cineasta Sérgio Tréfaut, em entrevista recente ao Negócio: “Para «estar com» é preciso chegar, estar e ouvir”; precisamos estar com as pessoas, nas empresas, num primeiro momento, para nos escutarmos e contribuirmos para a construção de soluções otimizadas, encontrar as melhores soluções para aquela realidade. Esta forma de estar é essencial, para não se cair em dois erros: comprar sem o critério ajustado à realidade organizacional, e não proceder às mudanças necessárias (processos, percursos informacionais, gestão de dados e qualificação do potencial humano e do talento da organização) para potenciar o seu uso em prol dos desempenhos organizacionais.

Sabendo que caminhamos a passos largos para um mundo totalmente digital, quais são os aspetos positivos que esta transformação acarreta? E quais as consequências pelas quais as empresas também poderão ter que passar com tamanha reviravolta?
É toda uma alteração da sociedade humana ainda não totalmente compreensível e que nós ainda temos grande dificuldade em entender. A maioria da população, a residente e a laboral, é bastante digital, mesmo não tendo essa perceção, mas ainda tem pensamento e modos de estar maioritariamente analógicos. O mundo laboral vai sofrer profundas alterações, nos modelos de trabalho, nos modelos relacionais, nos modelos de decisão, nos modelos de pertença. Em alguns domínios é algo ainda complexo entendermos o como será; noutros já temos os primeiros indicadores dos potenciais benefícios. Faz sentido hipotecarmos uma vida mais saudável com o garrote do custo dos transportes? Entre o deve e o haver, ter alguns bens materiais é um desperdício de recursos e os mesmos só existem porque vivemos num modelo laboral da primeira revolução industrial; a academia devia estar a trabalhar na apresentação (e está) de soluções para os novos modelos laborais e sociais; novas profissionais, competências mais tecnológicas, novos horários de trabalho; novas infraestruturas laborais, estas são, entre outras, alterações em curso. Sobre a reviravolta, será simples: quem não se adaptar nos próximos anos poderá ter o futuro comprometido. As empresas de sucesso no futuro serão aquelas que estão atentas às mudanças em curso; não as têm de liderar, mas têm de estar a preparar-se para alterar o seu modelo orgânico, funcional e de negócio.

Por fim, qual é a mensagem que pretendem deixar ao fazer parte de um projeto deste cariz? Depois de terminado o Conecta Pyme 4.0, podemos esperar um próximo? O que nos podem adiantar sobre projetos futuros?
Estamos a trabalhar para criar novas dinâmicas no apoio às empresas, através da nossa Universidade. A semente está lançada. Saibamos, usando os equipamentos e as ferramentas ajustadas, alterando comportamentos e processos, fazer germinar essa semente em algo mais profícuo, sustentável, aprazível. Somos académicos e no nosso caso estamos focados em três domínios: no ensino (já está em curso proposta neste âmbito para a cooperação no espaço da lusofonia com a Universidade das Nações Unidas na área do eGov, a Universidade do Minho e o Instituto Politécnico de Santarém; e estamos a trabalhar num novo plano e modelo de ensino para a região Alentejo, por plataforma digitais); na investigação com a continuidade de trabalho em novas frentes de estudos e aplicação do conhecimento, em curso já algumas; na extensão, na colaboração com as empresas e com os profissionais.

O Conecta Pyme 4.0 é um projeto que visa melhorar a competitividade das empresas do território da EUROACE através da incorporação de conhecimentos e tecnologias. O que significa para a Universidade de Évora liderar um projeto transfronteiriço como este?
Estar inserido numa equipa, no âmbito do programa INTERREG, envolvendo vários parceiros, sendo três portugueses, e liderados pela Junta da Extremadura, é um estímulo. Liderar todo o trabalho a realizar na Região Alentejo, é um desafio e uma oportunidade. Um desafio pela imensidão e pela diversidade do território, com dinâmicas e particularidades próprias de cada local, com uma diversidade de atividades económicas muito distintas, mas simultaneamente com fragilidades organizacionais, tecnológicas e de competências de negócio e de recursos humanos; como oportunidade pretendemos contribuir para a resolução de parte destas fragilidades, potenciando o próprio território a ser mais competitivo.