Liderança Feminina: um Compromisso e uma Missão

Líder em Consultoria e Serviços Tecnológicos, a Glintt é uma marca que tem vindo a marcar a diferença na área da saúde. Num discurso inspirador, Filipa Fixe, revela-nos alguns detalhes acerca da evolução da empresa e ainda sobre o seu percurso enquanto Administradora Executiva da mesma.

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A Glintt é uma empresa de referência na Península Ibérica em Consultoria e Serviços Tecnológicos, contando já com mais de 20 anos de existência. De que forma a marca consegue manter este posicionamento? Quais são as características que a distingue das restantes?
Para a Glintt, uma multinacional tecnológica com mais de 20 anos de experiência com provas dadas na área da saúde e da tecnologia, é fulcral continuar a evoluir e a reinventar-se. Os cuidados de saúde estão a evoluir e nós queremos fazer parte desta (r)evolução, mas só o conseguiremos fazer se combinarmos estratégia com tecnologia, inovação e equipas multidisciplinares de modo a proporcionarmos novas soluções e abordagens aos nossos clientes e parceiros e – muito importante – em cocriação com eles. Assim, em abril de 2020 a Glintt desenvolveu, juntamente com a Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) e em colaboração com a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma ferramenta gráfica – ADAPTT Planning Support Tool – que permite aos especialistas seniores em planeamento de cuidados de saúde e decisores políticos, de vários países, inserirem os seus dados epidemiológicos e variarem os cenários de mitigação, ao usar o modelo epidemiológico ilustrativo da ferramenta. Já em junho de 2021, lançámos o Viewer, uma plataforma pioneira criada em conjunto com os profissionais de saúde, que pretende oferecer à Saúde o foco que ela precisa, disponibilizando uma visão rápida e integrada do utente, investindo no cuidado, na prevenção da doença e no bem-estar. A génese do Viewer assenta em três grandes focos, que prometem facilitar o dia a dia e acompanhar o profissional de saúde: mobilidade, informação certa no momento certo, transformando a informação em conhecimento.

É uma empresa que desenvolve, implementa e suporta um conjunto diversificado de produtos próprios na área da saúde, tornando-a líder neste mercado. Como é ser administradora executiva de uma marca desta dimensão? Quais os desafios que enfrenta ao assumir este papel?
O mercado da tecnologia ainda não é muito marcado pela presença feminina. Apesar dos grandes passos que já foram dados, outros existem para dar e cabe-nos a nós mulheres criar a abertura para discutir estes temas. Segundo um estudo do Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), em 2020, os homens representavam 83% das pessoas empregadas na área das TIC na União Europeia, sendo que Portugal está em linha com este valor. Tal significa que mais de quatro em cada cinco trabalhadores formados em TIC são homens. E é precisamente nas tecnologias que está a aposta ao nível de crescimento económico na União Europeia. O tema das mulheres, da sua vida pessoal e profissional, tem muito a ver com o tema Cultura e a forma como cada sociedade encara este grande tema. Temos vários exemplos de sociedades inclusivas e outras ainda em fase de evolução, mas importa garantir que mulheres e homens estão em igualdade do ponto de vista pessoal e profissional para que os seus objetivos e ambições possam ser alcançados com mesma equidade. Quanto aos desafios que enfrento ao assumir o papel de administradora executiva da Glintt, um dos maiores é claramente garantir a motivação das diferentes equipas e que cada uma entende o propósito do que faz no seu dia a dia. O outro desafio é procurar, de forma contínua, que a inovação que a saúde e a tecnologia podem proporcionar é adotada pelos nossos colaboradores e incorporada pelos nossos clientes através das nossas soluções. Acreditamos que a tecnologia é um dos alicerces para melhores cuidados de saúde, com mais equidade a custos controlados. Esta pandemia trouxe-nos uma realidade diferente em que o ecossistema mais alargado da saúde tem de efetivamente ser centrado nas pessoas e na gestão da saúde e não na gestão doença. Como diz Michio Kaku (físico americano): “As próximas duas grandes indústrias a serem impactadas pelo mundo digital são a medicina e a educação. Teremos mais poder num smartphone do que um hospital universitário e moderno tem hoje. Apesar dos rápidos avanços da tecnologia, os humanos continuarão a ser fundamentais na tomada de decisão”.

Sustentabilidade é um tema que vos diz muito. Promovem por isso uma cultura empresarial que incentiva ao cumprimento de planos como, o Plano de Sustentabilidade, de Igualdade e do Código de Ética. Qual tem vindo a ser o papel da Glintt neste sentido? Que marca querem deixar?
Através da inovação, pretendemos ajudar a transformar as organizações e melhorar a vida das pessoas. Acreditamos que através da tecnologia podemos promover melhores cuidados de saúde, com mais equidade e garantindo a sustentabilidade financeira do sistema de saúde. Existem várias estratégias ao nível corporativo que podem ser implementadas para despertar a curiosidade, a criatividade e o talento feminino, como os programas de mentoria, que permitirão criar histórias de sucesso e assim, ajudar a nascer ícones femininos nas tecnologias digitais. É fundamental partilhar estas histórias de sucesso pelas quais jovens mulheres podem guiar-se e inspirar-se a si mesmas, dando-lhes a oportunidade de conhecer role models e fazendo acreditar de que é possível. Assim se quebram preconceitos e é possível desenvolver uma cultura digital disponível para todos, numa perspetiva muito mais sustentável e duradoura. E é com esta visão que, em 2021 mantemos o foco em quatro grandes pilares: Pessoas, Clientes, Inovação e Crescimento. Dos nossos projetos, destaco a Academia Glintt que recebe anualmente recém-licenciados e mestrados e os Summer Trainees, em que recebemos estudantes durante os meses de verão e concedemos uma formação on the job, oferecendo uma verdadeira imersão no seio empresarial; a Academia de Liderança, um projeto interno de formação e desenvolvimento de líderes; e o Plano de Formação Comum, para o desenvolvimento contínuo de competências, que é um pilar estratégico na gestão dos nossos recursos humanos. Outro evento interno que gostaria de destacar – no que à equidade diz respeito – são as Glintt Women Tech Talks. Foi no seguimento do Dia da Mulher de 2019 que demos o pontapé de saída do nosso Programa Tech Women com a iniciativa – Glintt Women Tech Talks (GWTT). Estas são conversas que surgem da vontade de dar a conhecer histórias e experiências inspiradoras e de sucesso, em contexto corporativo, contadas na primeira pessoa por mulheres que são autênticos role models. No final, o objetivo é criar momentos de networking e de maior descontração entre os colaboradores e colaboradoras da Glintt, e os oradores(as) convidados(as). Em 2020 e atualmente as GWTT têm sido em formato online em consequência da pandemia, mas acredito que – agora com a melhoria da situação pandémica que temos observado – a próxima GWTT já será em formato presencial.

Em 2018 nasceu a Glintt Inov onde o objetivo passa por desenvolver, inovar e promover o empreendedorismo por meio da tecnologia e dos novos modelos de negócio, para que de forma sustentável consigam melhorar a qualidade de vida da comunidade. Este projeto, nasce como e porquê? Qual a importância de traçar cada vez mais um caminho inovador aliado à sustentabilidade?
A Glintt INOV nasce em 2018 como uma marca dentro do universo Glintt dedicada a ser um Hub de Inovação na área de Digital Health, como uma estrutura independente e desafiadora das mentes inquietas que constituem o maior ativo da Glintt, o capital humano. A sua missão é a de conseguir uma maior interoperabilidade entre os diferentes sistemas que operam neste setor, centrado na saúde e no bem-estar das pessoas. O seu objetivo é incentivar a que todos os colaboradores da Glintt, clientes, parceiros académicos e empresariais sintam que podem e devem contribuir, com ideias e com o seu espírito crítico, para inovar ou melhorar até o que funciona bem, pois nada nos diz que não pode funcionar melhor. O investimento em projetos inovadores é um dos mais estruturantes da empresa para os próximos anos. Acreditamos que este é o caminho para garantirmos que a Glintt acompanha o ritmo acelerado da sociedade digital e consegue entregar soluções tecnológicas eficientes e sustentáveis e, que no final do dia, possam melhorar a saúde de todos. O futuro da saúde passa por tratar dos saudáveis antes que fiquem doentes através da descentralização, da miniaturização e da personalização, capacitando o cidadão e habilitando os profissionais saúde. A tecnologia assegura a sustentabilidade e a proximidade dos sistemas de saúde e o caminho é este. A equação do bem-estar e da saúde centrada no cidadão só pode ser resolvida através de tecnologia e de processos bem definidos. O nosso dia a dia é transformado pela tecnologia através do digital, da mobilidade e do virtual. Cada um de nós enquanto cidadão procura cada vez mais tecnologia na relação com os profissionais de saúde e com as instituições de saúde. Este momento deve ser encarado como uma oportunidade para continuar e acelerar a implementação de inovação e de tecnologia para que os cuidados de saúde e a relação utente-profissionais de saúde possa ser realizada à distância de um click. O momento pandémico que atravessamos permitiu que as diferentes instituições de saúde e não saúde centrassem os seus serviços no cidadão tendo por base tecnologia e inovação de processos. Já Milton Friedman dizia que apenas uma crise – real ou percebida – é capaz de produzir mudanças reais. Quando essa crise acontece, as ações tomadas dependem das ideias que circulam, daquilo em que acreditamos serem as soluções. Por isso acredito que nos cabe desenvolver alternativas às soluções existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o impossível do passado se torne o inevitável do presente e construa o novo futuro normal.

Falando sobre empreendedorismo. Para si, existe realmente alguma diferença entre a liderança feminina e masculina ou não é, de facto, uma questão de género?
Nós mulheres somos muito autocríticas. Por exemplo, lemos as funções exigidas num anúncio de emprego e se vemos algo com o qual não estamos 100% à vontade, riscamos da equação. Enquanto os homens são muito mais confiantes, se a primeira linha de exigências está preenchida, então siga, vamos lá. Arriscar é importante, assim como o é o fator Networking! Enquanto os homens o têm enraizado, nós mulheres precisamos de treinar mais. Mas já assistimos a claras mudanças na sociedade portuguesa. Mais mulheres em cargos de gestão e de topo, e mais homens a estenderem as suas licenças de paternidade. E esta evolução é importante tanto para a vida profissional, como pessoal, ganhando os homens uma relação muito mais próxima com os filhos desde tenra idade. Segundo, um estudo da Harvard Business School – “The Old Boys’ Club” (2020) as interações sociais entre os colaboradores e os seus líderes podem constituir uma vantagem. O estudo incide sobre os dados de uma grande instituição financeira e conclui que homens liderados por homens têm promoções mais frequentes na carreira do que as mulheres lideradas por homens. Quando as mulheres são líderes a percentagem de homens e mulheres que são promovidos é muito semelhante. O networking nas “pausas sociais” ou fora do ambiente de trabalho são fatores com impacto na evolução da carreira dentro das organizações. Tal como no episódio da série “Friends”, quando Rachel começou a fumar porque percebeu que as decisões críticas aconteciam nas pausas para fumar. Por outro lado, na grande maioria dos lares portugueses, a mãe ainda continua a ser a figura central na dimensão familiar. Existe ainda muito preconceito relacionado com o papel e responsabilidade de mãe, que importa contrariar ou que, pelo menos, não deve constituir uma barreira na progressão da carreira. Desta forma, está do lado das organizações criar condições para um maior equilíbrio, através de ações concretas e direcionadas como o acesso facilitado a formação especializada ou, simplesmente, promovendo boas práticas como “proibir” a marcação de reuniões a partir de determinada hora, não obrigando nunca a pessoa a optar por uma ou outra dimensão da sua vida (profissional versus pessoal/familiar).

Qual é o sentimento da Filipa Fixe ao saber que assume um cargo tão importante numa empresa de renome como a Glintt? O que a inspira diariamente?
Sentimento de orgulho o de pertencer a uma equipa e a uma empresa que todos os dias confia nos seus recursos e se desafia de forma permanente com o objetivo de incorporar inovação tecnológica no dia a dia das instituições de saúde e de cada cidadão, promovendo o bem-estar e a saúde da sociedade em geral. Todos os dias devemos trabalhar de forma próxima com as nossas equipas, com humildade, capacidade de ouvir e garantir que avançamos de forma sustentável e com foco nos nossos clientes e parceiros.

O que é mais desafiante para a Filipa Fixe enquanto administradora executiva da Glintt? O que é para si, um dia mau no trabalho (se é que eles existem)?
O dia a dia nunca há-de ser fácil, seja no mundo académico, como no profissional, mas se gostarmos do que fazemos nunca há-de ser difícil o levantar e ir trabalhar naquilo que gostamos. Isto é já 50% da energia que precisamos para o resto do dia!

Certamente que teve (e continua a ter) um percurso marcado por muitas vitórias bem como obstáculos. Consegue referir-nos algumas?
As vitórias devem ser vistas todos os dias e com a equipa com quem trabalhamos. Nada se concretiza de forma isolada ou apenas com uma perspetiva. Tenho trabalhado com equipas que se complementam, tanto do ponto de vista social como profissional, e tal permite que a liderança se torne cada vez mais uma relação bidirecional e de aprendizagem contínua. Uma das maiores vitórias que pautaram o meu percurso profissional foi quando eu decidi que ia olhar para o mundo empresarial como uma opção de futuro, em vez do mundo académico. A outra vitória foi o Doutoramento. Se me perguntassem se não teria sido preferível ter entrado logo no mundo empresarial, antes de fazer o doutoramento, diria que não. Ainda bem que o fiz. Cresci muito, foi-me muito útil este percurso tanto ao nível pessoal, como profissional. Acredito que não teria crescido tanto se tivesse logo entrado numa empresa em Portugal, porque me abriu portas para um conjunto de novas áreas. Fez-me estudar, aprender, ser mais curiosa e mais resiliente. Nem sempre tive sucesso, mas aprendemos com os erros. São lições de vida. Estes foram os dois momentos-chave que decidiram o meu percurso profissional.

Numa altura em que cada vez mais se debatem questões relacionadas com a (des)igualdade de género, como nos pode descrever o seu percurso profissional neste sentido? Na área onde labora, a desigualdade de género é uma realidade?
Fiz uma licenciatura, mestrado e Doutoramento em áreas relacionadas com a Engenharia e as Ciências da vida. A interdisciplinaridade e a vivência noutro país nunca me fez sentir desigualdade ou sequer pensar muito no tema. Fui sempre prosseguindo um sonho, uma ambição e penso que isso faz a diferença. Nem sempre corre da forma planeada, mas isso faz parte do percurso de cada um de nós e é independente do género. Os mentores/líderes ao longo do percurso académico e profissional foram fundamentais para me inspirarem no dia a dia e de aprender muito, mas muito, com cada um deles. E continuam a ser uma referência no meu percurso de hoje em dia. Embora se verifique na Glintt alguma disparidade que resulta, em grande medida, pela natureza tradicionalmente masculina na área tecnológica, orgulhamo-nos dos serviços que prestamos e da qualidade que imprimimos nos mesmos. Acreditamos que o nosso sucesso se deve ao trabalho de uma equipa competente e dedicada. Apostamos da retenção e captação de novos talentos, sendo inquestionável que – para nós – ter talento não tem género.

Para terminar, o que a define enquanto profissional e mulher? Que mensagem gostaria de deixar ao público feminino em seu nome e em nome da Glintt?
Na minha resposta anterior falei de “natureza tradicionalmente masculina na área tecnológica”, mas Importa desmistificar a ideia pré-concebida de que existem profissões e cargos distintos a assumir por homens e mulheres e este é um trabalho que deve ser iniciado logo desde a infância ao quebrar o estigma de que existem brincadeiras diferentes para as crianças dependendo do seu género. É preciso expor desde muito cedo as crianças, independentemente do seu género, ao contacto com tecnologias digitais para que possam facilitar o seu caminho de descoberta quanto às suas verdadeiras vocações, independentemente do que a sociedade impõe como certo e errado. É, efetivamente, preciso calar as nossas vozes internas dentro das nossas cabeças que nos fazem desacreditar nas nossas próprias competências. Se temos estudos que apontam que, ao contrário dos homens, as mulheres só se candidatam a novas oportunidades de trabalho se sentirem que cumprem 100% das qualificações divulgadas nos anúncios, então esta realidade leva-nos a crer que o síndrome da impostora existe, o que faz com que as mulheres não valorizem a sua experiência, a sua individualidade e aquilo que têm para oferecer de único. Capacidade de ouvir, curiosidade e resiliência são para mim fatores chave em qualquer área de atuação da sociedade. A todas as raparigas e mulheres gostaria de dizer que é muito importante estudarem sobre um tema que as inspire, desenvolvam as suas capacidades pessoais dentro e fora da escola e arrisquem, ou seja, saiam da vossa zona de conforto. Viajar e viver noutros países é também uma “bagagem para a vida”. Por outro lado, também as organizações atuais têm um papel fundamental na desmistificação de preconceitos. É preciso que as organizações criem as condições para promover cargos de liderança assumidos pelas mulheres. Não para simplesmente cumprir a tão conhecida lei da paridade entre mulheres e homens, mas porque efetivamente, organizações com maior diversidade representam uma capacidade de inovação muito forte. Uma força de trabalho mais diversa permite explorar outros horizontes, tomar melhores decisões alinhadas com os desafios atuais e futuros conduzindo a negócios mais sustentáveis. Assim, acredito que o segredo para as mulheres é acreditarem e terem confiança nas próprias capacidades. Se acreditamos, se gostamos e ambicionamos, vamos em frente. Pode não correr sempre como gostaríamos, mas aprendemos, melhoramos e nunca devemos desistir. A diversidade é fundamental, tanto na nossa vida pessoal como na profissional. Se pudesse dar um conselho, diria: sigam o vosso sonho e a vossa ambição e arrisquem! E gostaria de rematar com uma célebre frase de Albert Einstein – “A mente é como um paraquedas, só funciona se estiver aberta”.