“A Cidadania, a Solidariedade e a Multiculturalidade são o universo que caracteriza o mundo do Ensino Superior”

Uma estreita ligação às empresas, o incentivo ao empreendedorismo, a internacionalização e, mais importante, a qualidade do ensino, são os pilares centrais que melhor caracterizam e distinguem o tão prestigiado Instituto Politécnico de Coimbra. Jorge Conde, Presidente do mesmo, abordou em entrevista à Revista Pontos de Vista, de que forma este Ensino Superior se mantém firme e resiliente face às adversidades que se impõem e em prol daquilo que é mais importante: os alunos.

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Sendo uma instituição de ensino superior localizada na «cidade dos estudantes» – o Politécnico de Coimbra (IPC) é uma das maiores instituições de ensino superior portuguesas. De que forma, ao longo de 42 anos de história, tem contribuído para o desenvolvimento dos estudantes e do país?
O Politécnico de Coimbra, como uma das maiores instituições de ensino superior do País, forma anualmente cerca de 2000 pessoas. Daqui saem todos os anos profissionais das mais diversas áreas com forte capacitação nas suas áreas de formação. A nossa forte ligação ao território e às empresas garante que fazemos uma formação essencialmente centrada no saber fazer, aplicando o conhecimento na resolução de problemas que todos os dias se colocam às pessoas, empresas e instituições com quem os nossos estudantes ou ex-estudantes se cruzam.

Com seis escolas e uma grande diversidade de áreas de formação, que vão desde a agricultura e ambiente, passando pela educação, comunicação, turismo, artes, gestão, contabilidade e marketing, até à saúde e engenharias, quais os fatores que elevam o IPC ao ensino de qualidade que hoje conhecemos?
O Politécnico de Coimbra tem procurado estar na vanguarda das metodologias de ensino, da inovação pedagógica e da oferta formativa. Questionamo-nos em permanência se estamos a fazer os cursos certos, da forma correta. Sabemos que alguns dos cursos estão em áreas que sofrerão alterações na próxima década e que terão de ser transformados, readaptados ou mesmo descontinuados. Da mesma forma, há áreas onde ainda não ensinamos e que terão forte potencial no futuro, face às transformações que ocorrerão no mundo, nomeadamente ao nível da transição climática, da digitalização e das consequências de tudo isso na vida das pessoas. Também nos questionamos sobre a forma como ensinamos e não temos dúvidas que o modo de ensinar e de aprender vai ser alvo de grandes transformações nos próximos anos, com os professores a terem de se adaptar rapidamente a esta nova geração de alunos, mais digitais, mais nómadas e com um percurso pré-universitário muito diferente do que tinham há 20 anos. A manutenção da qualidade, ou melhor o seu permanente aumento, depende de sermos capazes de manter esta dinâmica.

Estudar em Coimbra é tradição. É uma cidade universitária onde os jovens constroem o seu futuro profissional, sejam portugueses ou alunos internacionais. Em que medida o IPC dispõe de uma rede de Instituições parceiras no âmbito do Programa Erasmus e fomenta as sinergias entre a sua educação e as comunidades da Europa?
O Politécnico de Coimbra é hoje uma das melhores e maiores portas para uma experiência de aprendizagem internacional. Integrado no Consórcio Erasmus Centro, que o IPC lidera atualmente, tem ao dispor dos alunos inúmeras parcerias por todo o mundo, com destaque para a Europa. Hoje mais de 35% dos nossos alunos têm uma experiência internacional, podendo escolher quase todos os países europeus, mas também, através do International Credit Mobility (ICM), muitos países fora da Europa com os quais dispomos de parcerias e de bolsas. Podem optar por qualquer dos continentes pois temos parceiros em todos eles. A grande importância desta experiência é dar aos jovens “mundo”, ou seja, criar neles uma perspetiva diferente do ensino, mas também da sociedade. Os programas de mobilidade ajudam a encarar a aprendizagem de forma diferente, nomeadamente porque lhes mostra que somos melhores do que pensamos e porque, mesmo como sociedade, estamos também num patamar acima da média. Somos mais humanos e mais educados do que supomos, mesmo se por vezes duvidamos disso.

É de conhecimento comum que a pandemia aportou um conjunto de alterações em todos os setores, sendo que ao nível do Ensino Superior, foi evidente. Como o IPC contornou as adversidades impostas pelas novas exigências da sociedade, sem descurar a qualidade do seu ensino?
Os professores adaptaram rapidamente o que era possível para lecionarem em ensino digital remoto, os estudantes perceberam que ou se adaptavam e aceitavam as contingências do momento ou interrompiam os estudos, e os serviços, pela mão dos profissionais não docentes, criaram soluções, nomeadamente através dos sistemas de informação, para responder à situação. Ultrapassadas as questões técnicas, houve que garantir a toda a comunidade meios para continuarmos a cumprir a nossa missão, com a qualidade que nos exigimos. Conseguimos manter padrões de qualidade que nos garantiam que, face às circunstâncias, não comprometiam o futuro dos nossos estudantes e, logo que foi possível, fomos retomando o ensino presencial. O tipo de ensino que fazemos, muito baseado no saber fazer, não se compadece na maioria dos casos com o ensino digital, por muito bom que seja. Claro que retiramos ensinamentos da situação e temos a convicção de estarmos preparados para fazer ensino digital nos graus e temas em que faz sentido. Mas para os jovens vindos do ensino secundário que ingressam nas nossas escolas, a presença no espaço físico da escola é determinante à sua formação profissional e à sua formação como pessoa.

Apesar de ainda não ter terminado, atualmente tudo começa a regressar ao normal. As ferramentas que o IPC utilizou foram fundamentais para que hoje se possa considerar (ainda mais) um pilar da educação em Portugal e, consequentemente um alavancar de sucesso para os estudantes que se iniciam no universo do trabalho? De que forma?
A geração que está agora em formação, a que acabou de chegar ao ensino superior e que sociologicamente conhecemos como geração z, é a geração da internet, onde tudo está à distância de um click. Pela forma como cresceram e como vivem o dia-a-dia, esta geração quer cada vez mais um ensino diferenciador, personalizado e próximo. Esta é a geração que quer ter tudo no smartphone, mas que também quer experienciar e perceber antes de escolher. É por esta forma de estar que temos de criar um ensino que responda a estas necessidades. Os cursos do futuro vão ser mais abertos, mais ligados a competências transversais, com informação mais próxima do interessado e com menos salas de aula. O ensino vai ter mais laboratórios, mais empresas, mais experiências reais e mais escolha. Cada vez mais temos de estar preparados para carreiras académicas feitas à medida, que garantem a melhor formação possível para “aquele trabalho” e cada vez mais temos de criar soluções para a mudança de trabalho, seja por gosto, por saturação ou por adaptação do mercado. A geração z vai ter vários empregos e, provavelmente, em áreas muito diferenciadas umas das outras. É a isso que as instituições vão ter de responder se quiserem sobreviver.

Inovação, conhecimento, qualidade, empregabilidade, cidadania, solidariedade, sustentabilidade e multiculturalidade são as palavras que melhor definem o IPC. Assim, para o futuro – e tendo em conta os constantes desafios à educação –, de que forma o Instituto irá continuar a promovê-las e a fazer jus ao título de um dos melhores institutos de ensino superior para se estudar em Portugal?
O futuro, que já começou, é tudo isso. A inovação, o conhecimento e a qualidade andam lado-a-lado. Não é possível ter qualidade sem inovar todos os dias e o conhecimento faz-se cada vez mais dessa inovação. Faz-se da ligação ao conhecimento prático (mundo do trabalho/ empresas), com quem cada vez mais criamos conhecimento. Hoje gosto de falar em cocriação de conhecimento com as empresas e não em transferência de conhecimento. O que produzimos tem tanto mais valor quanto mais se fizer em parceria com os interessados. A cidadania, a solidariedade e a multiculturalidade são o universo que caracteriza o mundo do ensino superior. Somos cada vez mais um espaço de multiculturalidade, desde logo porque temos estudantes provenientes das mais diversas partes do mundo, que trazem com eles culturas e formas de estar diferentes, mas também porque levamos os nossos estudantes a procurarem por esse mundo fora experiências de ensino superior que lhes abram os horizontes. Num mundo em que as pessoas cada vez mais convivem por detrás de um ecrã é fundamental cultivar e incentivar a cidadania e a solidariedade. Os jovens de hoje estão pouco despertos para o voluntariado, para o associativismo, no fundo, para a cidadania. Temos de a colocar no centro da aprendizagem, para que continue a acontecer. Ao ensino superior, enquanto porta de entrada na idade adulta, cabe o papel de tornar a solidariedade real para com terceiros. Importa formar bons profissionais, mas que sejam, acima de tudo, boas pessoas. Por fim, a sustentabilidade é o nosso nome do meio. Todos os dias temos programas ativos de sustentabilidade, seja ela puramente ambiental ou tenha um objetivo económico subjacente. O Politécnico de Coimbra consegue hoje ser um eco-politécnico com todas as suas escolas a implementarem diariamente práticas de preservação ambiental, muitas delas associadas à redução de consumos e, logo, à sustentabilidade financeira. A nossa instituição é – e pretende continuar a ser – um centro de educação para a sustentabilidade, pelo exemplo e pela transmissão de saber.