A força de uma relação sólida entre Portugal e o Luxemburgo

António Gamito, Embaixador de Portugal no Luxemburgo, entrou numa agradável conversa com a Revista Pontos de Vista, onde o debate se centrou na forte relação entre Portugal e Luxemburgo. Entre vários detalhes, revelou o otimismo com que olha para o futuro deste elo. Vamos contar-lhe tudo.

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A Embaixada de Portugal no Luxemburgo tem a missão de elevar a um patamar de excelência uma relação bilateral mais aprofundada e diversificada. Para melhor entender, como nos pode descrever o trabalho que é feito pela Embaixada com foco nesse objetivo?
As exportações de Portugal para o Luxemburgo estão ainda muito concentradas em bens e serviços dirigidos sobretudo à Comunidade Portuguesa. No sentido inverso, dado que estão sedeados no Grão-Ducado muitos bancos e fundos de investimento estrangeiros, estes são muito importantes na promoção de Portugal como um dos seus destinos de negócios. Mas não chega. Importa atingir um outro patamar onde, a título de exemplo, o digital, as transições verde e energética, a inteligência artificial, o espaço, as TIC, os serviços financeiros, a saúde e o turismo possam ter uma maior relevância e peso nas balanças comercial, tecnológica e de investimento. Espera-se que uma próxima visita de Estado de S.A.R. os Grão-Duques a Portugal, na qual estamos a trabalhar, possa alavancar estes domínios, melhorando e qualificando a relação bilateral.

Enquanto Embaixador afirma que “o desenvolvimento das relações económicas deverá ter dois sentidos e ser diversificado, enveredando por novos e modernos domínios de cooperação”. Neste sentido, qual é a importância dos negócios entre Portugal e o Luxemburgo?
Desde que cheguei ao Luxemburgo sempre disse que o relacionamento bilateral teria que ter dois sentidos, ser diversificado e passar para um outro patamar de qualidade e qualificação. Neste contexto, a importância dos negócios entre os dois países pode vir a ser muito melhor e maior. Para isso é necessária mais vontade empresarial e política, assim como um melhor conhecimento das oportunidades que cada país oferece ao outro, o que na Embaixada não nos cansamos de defender e promover.

Certo é que a praça financeira luxemburguesa se encontra em segundo lugar no ranking mundial dos fundos de investimento. De que forma a população portuguesa contribui para este feito?
São as empresas, ainda em pouco número, alguns investidores particulares e o Estado que utilizam a praça financeira do Luxemburgo e não a população portuguesa. Apesar de todos os esforços da Embaixada, julgo que em Portugal ainda se olha o Grão-Ducado pela sua dimensão geográfica e não como o país moderno e rico que é, que acolhe cada vez mais quadros portugueses que podem e devem servir de ponte com as instituições públicas e privadas nacionais.

Os portugueses são a maior comunidade imigrada no Luxemburgo, representando um quinto da população. Assim sendo, acredita que parte do desenvolvimento de um país como o Luxemburgo se deve aos portugueses? Porquê?
Além de acreditar de que a Comunidade Portuguesa que aqui reside e trabalha contribui desde há muitos anos para o PIB do Grão-Ducado, devo acrescentar que são os próprios luxemburgueses, a começar por S.A.R., o Grão-Duque e pelo Governo, que o afirmam publicamente. Com efeito, quer nas áreas tradicionais, como a construção civil, as limpezas, a restauração e hotelaria, quer nos serviços financeiros, nas muitas multinacionais aqui sedeadas e na saúde o trabalho dos portugueses é reconhecido e desejado. Daí continuarem a procurar o país e a ser nele aceites.

Tendo em conta a pandemia que ainda atravessamos, qual o impacto da mesma na economia global e em especial no Luxemburgo? Que objetivos para o reforço das relações comerciais entre os países tiveram que ser reformulados?
O Luxemburgo não escapou naturalmente à pandemia, tendo geri-la de uma forma cuidadosa e equilibrada no plano interno em termos das medidas sanitárias tomadas, nomeadamente assumindo uma comunicação em língua portuguesa para a Comunidade, reconhecendo assim o seu número e importância estratégica para o país. O processo de vacinação não correu tão bem como em Portugal devido aos “negacionistas”, embora a situação esteja a ser acautelada. No plano da liberdade de circulação de pessoas, o Grão-Ducado sempre defendeu Schengen, nunca encerrando fronteiras, pois precisa dos trabalhadores transfronteiriços para assegurar uma diversidade de atividades. No plano económico e financeiro, o país tomou medidas de apoio às empresas e aos trabalhadores, tendo já recuperado a economia e as finanças para níveis pré pandemia, o que demonstrou a sua resiliência. Naturalmente que a relação comercial bilateral sofreu com o encerramento e a diminuição da produção das empresas, estando agora a ser retomada.

A relação sólida entre Portugal e o Luxemburgo é inquestionável. No entanto, muitos são os desafios enfrentados para se chegar a uma relação forte como esta. Neste sentido, quais os maiores obstáculos que tiveram de ser encarados? E quais existem ainda por colmatar?
Se a excelência da relação política é inquestionável, o mesmo não acontece com a económica, que importa mover para outro patamar, pois existem interesses e complementaridades que tornam esse processo exequível. Sob pena de me repetir, considero que Portugal não pode olhar para o Luxemburgo como um país de pequena dimensão, mas sim como um “hub” colocado no centro de uma Europa muito produtiva e consumidora. Por sua vez, o Luxemburgo deve considerar Portugal como um país moderno e desenvolvido e não através da memória da primeira onda de emigração que chegou ao país nos anos 60 do século passado. Estes dois obstáculos, que classificaria de geracionais, estão a ser todos os dias ultrapassados.

É de extrema relevância a presença do Luxemburgo em espaços de valores e interesses comuns, tal como o estatuto de observador da CPLP. Com que otimismo vê o futuro desta relação entre os dois países?
A partilha dos mesmos valores entre os dois países – respeito pelo Estado de Direito, pelos Direitos Humanos, pela Democracia e pela Boa Governação – assim como de interesses comuns em várias regiões do globo, reforçam a aproximação das abordagens de Portugal e do Luxemburgo em espaços como a União Europeia, múltiplas organizações internacionais e outras regionais, como a CPLP, onde a assistência ao desenvolvimento por parte do Luxemburgo se faz sentir em particular em Cabo Verde. Singularizaria ainda o Centro Norte-Sul do Conselho da Europa, onde a educação, o empoderamento das mulheres e a participação cívica de jovens assume especial relevância. Por outro lado, assiste-se a um quase total apoio mútuo de um país às candidaturas internacionais do outro e vice-versa. E perante os desafios que o século XXI nos coloca, acredito que Portugal e o Luxemburgo não deixarão de marcar presença para lhes fazer face e estar unidos nas soluções a encontrar com o objetivo de garantir um Mundo mais sustentável para os seus povos e os dos espaços a que pertencem.

Sabemos que o Luxemburgo desempenha um papel fundamental como centro financeiro e de investimentos. Que mais-valias tem este país para os investidores portugueses?
Sendo o Luxemburgo um centro financeiro e de investimento dos mais modernos do mundo, ele torna-se importante para o Estado na gestão da dívida soberana, para as empresas nacionais nos processos de capitalização e para os investimentos, designadamente verdes, em Portugal.