“Olhando para o meu Percurso sempre vi uma vantagem em ser Mulher no Mundo dos Negócios”

Nídia Costa, atualmente Diretora Executiva de Pessoas e Comunicação no Grupo Naval, deu a conhecer à Revista Pontos de Vista algumas características próprias de uma mulher que desde sempre sonhou vingar profissionalmente. Dentro de uma temática tão importante como a igualdade de género e o empreendedorismo feminino, a interlocutora detalhou o seu percurso até à data. Conheça-o.

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A Nídia Costa abraçou recentemente o desafio de se tornar Diretora Executiva de Pessoas e Comunicação de um grupo empresarial com bastante peso na economia Angolana. Como nos descreve o seu percurso profissional?
O meu percurso profissional começou bem cedo, aos 18 anos, e por um simples acaso, diretamente ligado à área de Recursos Humanos. Aos 18 anos terminei o 12º ano e não sabia bem o percurso académico que pretendia seguir, então decidi que queria trabalhar, queria compreender “o que se fazia nas empresas” e onde é que eu me encaixaria. O setor público não era uma opção para mim, porque não me revia no padrão, então decidi colocar um anúncio num jornal com o título “não tenho experiência, apenas muito empenho e procuro trabalho”, recebi centenas de telefonemas, incrivelmente, sem saber, fiz algo inédito para o ano de 1998. Tive oportunidade de escolher, entre várias opções, a empresa onde queria trabalhar, o que foi um privilégio para mim, esta empresa abriu-me as portas dos Recursos Humanos, desde as funções mais “chatas” e normais para uma trainee que nada sabe, até encontrar a paixão da minha vida o contacto com as pessoas. Desde então passei por empresas e funções diferentes, desde o IFGE na área da Consultoria, à Lactogal (a grande escola da minha vida), a Bi-Silque que me introduziu nos mercados internacionais e culturas multifacetadas. A estrada da minha vida pessoal trouxe-me até Angola, diretamente para a Refriango, foi uma experiência inesquecível e emocionalmente forte, mesmo após a saída continuamos a ser a Família Refriango e vibramos com todas as conquistas da empresa. Recentemente, abracei o Grupo Naval com a função de Diretora Executiva de Pessoas e Comunicação, posso dizer conscientemente que apaixonei-me pela empresa e pelo desafio desde os primeiros contactos, devido à necessidade que tinham de criar toda a área de RH desde o zero e com uma autonomia e empowerment que qualquer um de nós sonha quando abraça um novo projeto. No meio de tudo isto, a aprendizagem, as licenciaturas, os mestrados, as pós-graduações, as formações especializadas, foram e têm sido cruciais para desempenhar todas as minhas responsabilidades com o melhor profissionalismo possível.

Sendo a empresa onde labora uma marca de sucesso, que fatores diferenciadores a mesma possui em relação às restantes no mesmo setor?
O Grupo Naval é um conjunto de empresas de capitais estrangeiros, de cariz familiar, que apostou e vem desenvolvendo a sua atividade em Angola desde 2007, atuando nos setores do comércio a grosso (venda de produtos alimentares, materiais de construção, produtos para a indústria e agricultura) e da indústria transformadora, empregando atualmente mais de 1200 colaboradores. A gestão do grupo está sob a responsabilidade do seu principal acionista, o Dr. Simon Tecleab, de nacionalidade eritreia, filho do fundador do grupo. O Grupo Naval está atualmente posicionado na lista de maiores operadores económicos em Angola, tanto a nível comercial como a nível industrial, nos setores em que desenvolve atividade. No âmbito da atividade comercial, o Grupo possui 11 áreas comerciais com uma área de armazenamento com capacidade para armazenar mais de 100 mil toneladas de produtos. Além do seu forte posicionamento no mercado da capital de Angola, onde possui cinco espaços dedicados ao comércio a grosso, o Grupo possui ainda instalações comerciais próprias nas províncias de Benguela, Huambo, Huila e Malanje, bem como uma série de parcerias comerciais estabelecidas nas restantes Províncias. Para assegurar o abastecimento a todas estas áreas comerciais, o Grupo possui uma frota própria de 43 camiões, deixando claro a sua enorme capacidade logística. A nível industrial o grupo conta, à data, com quatro fábricas em funcionamento que empregam diretamente cerca de 500 trabalhadores e que são, de certa forma, líderes de mercado no seu segmento: produção de massa alimentar, de fraldas, pensos higiênicos, tubos de PVC, chapas metálicas… Na realidade o Grupo Naval está direcionado para diversos setores e esta é a grande diferenciação face a outros possíveis concorrentes. Contudo demarcaria como fatores diferenciadores a célere resposta às necessidades do mercado, adaptando constantemente a própria estratégia dos diversos negócios a essas necessidades. Também como uma vantagem a multiplicidade de culturas, a oportunidade de partilharmos ideias com visões completamente diferentes do padrão a que estamos habituados, permite-nos estamos um passo à frente em relação a possíveis concorrentes.

Dentro da área em que atua enquanto diretora, quais são os maiores desafios que diariamente enfrenta?
Os desafios em Angola são, na sua maioria completamente diferentes dos que encontramos na Europa. Aqui debatemo-nos diariamente com condições básicas da vida dos nossos colaboradores, desde o local e as condições onde residem, se o bairro é seguro ou não, se têm táxi próximo de casa, quantos táxis são até ao local de trabalho. Continuamos a debater-nos com temas como absentismo elevado, baixas qualificações, níveis de qualidade de ensino muito abaixo da necessidade do país, falta de bons profissionais especializados em áreas como eletricidade e mecânica.

O que significa para a Nídia Costa ser Diretora Executiva de Pessoas e Comunicação? Quais as características que considera fundamentais no cargo que ocupa?
Um Diretor Executivo de Pessoas e Comunicação é alguém que primeiramente toma decisões com o Conselho de Administração da Organização, define as políticas, procedimentos e processos de todas as temáticas relacionadas com a área, mas acima de tudo, deve ser o Conselheiro e Parceiro de todas as Direções e Áreas nos temas concernentes às pessoas da Organização, guiar e orientar no caminho certo e tomar decisões em conjunto com todos. As características podem mudar de organização para organização, já que cada organização tem uma cultura, clima e “vida” própria, mas diria que de uma forma generalista, capacidade de Liderança acima da média, visão holística do negócio, gestão de conflitos e de stress, resiliência e hoje em dia, sem dúvida criatividade.

O que a motiva e inspira diariamente?
Em termos profissionais, uma das minhas grandes inspirações são as pessoas, os colaboradores das organizações e perceber que todas as decisões que tomamos têm impacto direto em cada um. Contudo, a minha maior inspiração diariamente é a minha equipa, a sede de aprender, a capacidade de absorção de novas formas de fazer, a simplicidade e humildade, a alegria que trazem diariamente para o nosso ambiente de trabalho, são únicos. No foro pessoal a minha família e amigos, são a minha inspiração e força para fazer melhor e ser um melhor ser humano amanhã do que fui hoje.

Sabemos que a igualdade de género é cada vez mais uma problemática debatida. Durante o seu percurso profissional enfrentou obstáculos pelo facto de ser mulher? Quais?
A igualdade de género tem sido debatida em diversos fóruns nos últimos anos. Considero que desde o meu início de carreira até aos tempos atuais muito mudou. Pessoalmente, nunca senti que perdi alguma oportunidade ou possibilidade de evolução de carreira por ser mulher. A verdade é que ainda existe um gap financeiro que se sente em determinados países, nunca me senti afetada pessoalmente, mas conheço diversas situações em que aconteceu. Olhando para o meu percurso sempre vi uma vantagem em ser mulher no mundo dos negócios, apurou os meus sentidos, a minha capacidade de ouvir e de me fazer ouvir, a minha força e capacidade de resiliência. Gosto sempre de dizer que cresci muito profissionalmente por correr o extra mile, por querer fazer mais e melhor. A grande mentora da minha vida é uma mulher, a Isabel Fonseca, do Grupo INFOS. Quando a conheci ela era Diretora Administrativa e Financeira do Grupo, mas tinha começado como rececionista, conquistou esta posição pelo seu empenho, capacidade intelectual e muito esforço, uma mulher numa posição de Liderança num setor liderado 95% por homens, a frase “quando crescer quero ser como ela” paira até hoje na minha cabeça e continua a ser o meu lema. Admito que tive sorte nas empresas por onde passei, mas o segredo está também até onde queremos ir, o quanto queremos correr, quanto de nós queremos entregar?

Quem é a Nídia Costa enquanto profissional e enquanto mulher? De que forma concilia a vida profissional com a pessoal?
É sempre difícil falamos de nós próprios, mas enquanto profissional, diria que a primeira palavra que me vem à mente é exigente, sou extremamente exigente comigo, mas, também com as minhas equipas. Diria que tenho um perfil de Liderança de Mentoring, gosto de ensinar, de dar as ferramentas para que a equipa possa desempenhar as suas funções da melhor forma, gosto de brainstormings entre a equipa e de comunicação aberta, que sintam que participam nas decisões, para que possam implementar os processos com maior eficácia. Dou privilégio um ambiente informal e não dispenso uma boa gargalhada com a minha equipa, gosto de conhecer as suas histórias, é a única forma de compreender tantas e tantas coisas que apenas com um diálogo aberto poderemos saber. Enquanto mulher, sou muito direta e transparente, gosto de falar, falar e falar, sou divertida, muito espontânea e também impulsiva, exigente com quem decide caminhar ao meu lado, exigente no sentido de que o dia de amanhã tem de superar o anterior, sou uma mãe liberal… até demais, a vida ensinou-me que os nossos filhos precisam de espaço para ser crianças por um tempo mais prolongado do que foi permitido à minha geração.

Que mensagem gostaria de deixar a todas as mulheres que tal como a Nídia gostariam de abraçar novos projetos e trilhar um caminho de sucesso profissional?
A grande frase da minha vida é “Sky is the Limit” por isso não se restrinjam a menos do que merecem, não permaneçam em empregos que não vos fazem felizes, ou onde vos tratam de uma forma menos correta apenas por causa de um salário. Apostem continuamente na vossa formação e aprendizagem, “o saber não ocupa espaço” e é tão útil no dia a dia como quando pretendemos abraçar novos desafios. Por vezes é necessário correr riscos e esquecer o conceito do emprego para a vida, a efetividade, os benefícios e as condições que atual empresa vos dá e arriscar em algo que parece menos estável, mas que vos desafia a mente e mexe com a nossa alma.