“Cada rosto representa uma vida e é singular na sua história”

Tendo como missão de vida contribuir para que todos possam viver uma vida em dignidade e autonomia de forma sustentável, Susana Garrett Pinto, Fundadora do Projeto TEACH How to Fish, pretende “criar oportunidades para que cada pessoa que vive em situação de vulnerabilidade possa desenvolver os seus talentos”. Para sustentar este desafio criou no início de 2021 a by THF – uma empresa social que prestará serviços na área da formação e team building. Conheça de que forma esta força conjunta resulta num modelo de inovação social.

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Ligada desde sempre a várias questões sociais e ajuda humanitária, e paralelamente à sua atividade profissional como business developer numa fintech, a Susana Garrett Pinto fundou em 2015 o TEACH How to Fish (THF), um projeto social voluntário que tem como visão permitir dignidade em autonomia a cada pessoa que vive em situação de pobreza e vulnerabilidade. De que forma o projeto atua perante este desafio?
Através do Projeto THF pretendo tornar as pessoas que vivem em situação de exclusão social autónomas dando a oportunidade de desenvolverem as suas capacidades e talentos, para que deixem de viver dependentes de assistencialismo. Acreditamos que cada um tem em si o potencial necessário para se reinventar, e que com suporte e acompanhamento, conseguiremos reverter a sua condição de pobreza e dependência de caridade.
Trabalhamos em cinco áreas chave – Habitação, Alimentação, Saúde, Educação / Formação e Emprego – e definimos estratégias a curto, médio e longo prazo de duas formas: “dando o peixe” (assistencialismo) e “ensinando a pescar” (capacitação). Damos sempre que necessário primeiramente “o peixe”, com caráter provisório, porque sabemos ser um fator que se torna essencial para fazer o restante caminho rumo ao principal objetivo com sucesso.
A capacitação de todos e o acompanhamento são fundamentais, para isso deverá ser estabelecido um compromisso em conjunto onde fica claro o objetivo número um da nossa cooperação: a autonomia de cada pessoa de forma sustentável.

No início de 2021, a Susana Garrett Pinto criou a by THF, a primeira empresa com um modelo social em Portugal, que sustenta o objetivo primário do Projeto THF. O que a levou a avançar e a dar este passo? Quais as etapas no processo e os primeiros desafios encontrados?
Acredito no serviço pelo exemplo, na liderança pela coerência entre o que se diz, o que se pede aos demais e o que se faz. Nunca transformei o Projeto THF numa associação porque quis trabalhar numa solução que permitisse a sustentabilidade de todas as operações e também uma forma de recuperar a credibilidade do setor social que estimulasse a cooperação entre todos.
Creio que a missão do Projeto THF de transformar a dependência de caridade em autossuficiência, exigiu arriscar novos conceitos rumo à sustentabilidade, assim como um modelo empresarial com potencial de crescimento e que alinhado aos critérios ESG (Environmental, Social e Governance) representa ainda uma elevada aliciante ao investimento. Pretendo ter em breve concluído o processo de validação do modelo de empresa social em Portugal, que acredito que surgirá de forma natural com este primeiro passo que demos na própria constituição da empresa e nos estatutos cuidadosamente definidos, e com isto criar o quarto setor no nosso país, que representará as empresas com fins lucrativos com um propósito social e/ou ambiental e um modelo de atuação sustentável.

Qual o formato de empresa social escolhido? Que respostas e soluções pretende alcançar?
A Vera Costa Pereira, CEO da Business Avenue, abraçou o desafio que lhe levei em 2020, e desenhou de forma inspiradora todo o modelo de negócios que abriu finalmente a oportunidade para o nascimento sustentado da by THF.
A by THF é uma empresa com fins lucrativos, que prestará serviços na área da formação e team building social, em modelos de B2S by THF (Business to Society), e todo o resultado líquido da mesma tem um propósito de investimento social e sempre que possível, através dos nossos parceiros, também ambiental.
O desafio a que nos propusemos foi o de criar uma forma sustentável de resolver problemas sociais assinalados, como o desemprego ou a falta de formação, mas igualmente gerando valor social positivo através do core business do nosso negócio. Isto é, os nossos serviços contemplam também a valorização de cada pessoa como um precioso ativo, inclusivamente no seu trabalho e perante a comunidade.
Muhammad Yunus disse uma vez que “um empreendedor social, ao invés de ter apenas uma fonte de motivação, como a maximização de lucro, tem duas: maximizar lucro e fazer o bem às pessoas e ao mundo”.

De modo a atingir com sucesso os objetivos, a By THF privilegia parcerias com todos os setores sociais. De que forma os diferentes setores e a sociedade civil podem ter uma intervenção ativa na resolução sustentável de desafios sociais?
Por sempre ter assumido o papel de construtora de pontes, e ligar todos os que podem e querem cooperar e todos aqueles vivem em vulnerabilidade, sei que temos de dar voz e um papel ativo aos grandes especialistas no tema pobreza: as pessoas que vivem em situação de pobreza. E quando digo “temos”, incluo toda a comunidade e todos os setores. A cooperação e as parcerias são o caminho fundamental para enfrentar os enormes desafios sociais do nosso país e do mundo, e o quarto setor é fruto da semente para que tal aconteça. Depois a medição de impacto, a transparência e o foco no objetivo primário partilhado permitirão o sucesso de um modelo de valor no trabalho de qualquer um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Considera que existe hoje uma maior abertura por parte das diferentes entidades face às questões sociais?
A by THF tem também como missão o despertar de empatia e da necessidade de trabalharmos em parceria para obtermos resultados sustentáveis na vida de cada pessoa. Por outro lado, a Responsabilidade Social Corporativa (RSC) é pela primeira vez uma prioridade para as empresas que pretendem para além de resultados financeiros positivos ter impacto nas comunidades ou países onde estão presentes.

Tendo como missão contribuir para um mundo mais justo e equitativo, e depois do que a Susana Garrett Pinto já criou, o que considera que falta ainda desenvolver?
Quanto mais escuto pessoas que viveram ou vivem numa condição social de fragilidade, quanto mais aprendo sobre o tema pobreza, mais percebo que tenho de continuar o caminho com profunda humildade, capacidade de escuta e disponibilidade para a mudança. Falta desenvolver um modelo uniformizado para o trabalho na área social ou ambiental à escala mundial, mas que tenha a possibilidade de ser customizado a cada pessoa e a cada realidade, e de responder às necessidades específicas que forem levantadas. A pobreza em nenhuma das suas formas pode ser generalizada e talvez por isso todos os modelos que abordam este tema baseados em informação apenas quantitativa são muito frágeis e pouco eficazes. Estamos sempre a falar de pessoas como nós, de famílias reais, de vidas que mudam a cada momento e onde nada é estanque. De pessoas que perderam muitas vezes a sua casa, o seu trabalho, que não podem adquirir a sua alimentação em autonomia, mas também que perderam a sua dignidade e na grande maior parte dos casos o acesso os seus direitos como cidadãos. E cada rosto representa uma vida e é singular na sua história.

Se pudesse avançar no tempo dez anos, onde gostaria de ver o Projeto TEACH How to Fish e a empresa social by THF?
Indo ao encontro da visão e do cumprimento dos objetivos do Projeto THF, daqui a dez anos gostaria que a nossa presença fosse absolutamente desnecessária junto das pessoas ou comunidades com que trabalhámos durante este período, e que onde outrora assinalámos a existência de pobreza e dependência de caridade, todos possam viver uma vida plena em dignidade e em autonomia. No caso da empresa social by THF o conceito criado prevê o potencial de replicação e internacionalização, e tenho tido aliás várias reuniões com empreendedores sociais na Europa por exemplo, por forma a criarmos sinergias e partilharmos visão, metodologias e também resultados. Sei que com a validação jurídica do modelo e os resultados positivos na abertura do quarto setor em Portugal, rapidamente surgirão outras empresas com os mais diversos modelos de negócio e formas de atuação, e só desejo que sempre permaneça viva a visão de fraternidade e de cooperação para o bem comum e sucesso de todos.