“Quanto mais falantes de Português no Mundo, mais destacada será a Presença de Portugal numa escala Global”

Berta Nunes, Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas afirma que a sua missão é a de “sedimentar o sentimento de pertença mas também de apoiar e garantir igualdade de acesso aos serviços de Estado e proteção a todos os portugueses no exterior”. Neste sentido, abordámos em entrevista tudo o que tem vindo a ser realizado e o importante papel que a língua portuguesa tem tido na projeção de Portugal no mundo.

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Natural de Santa Maria de Lamas, Berta Nunes é Licenciada em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina do Porto, tendo recebido o prémio Engenheiro António de Almeida, por ser a aluna com a classificação mais alta a nível nacional no ano de 1980, em medicina. Gostaríamos de a conhecer melhor – o que nos pode contar mais sobre o seu percurso vasto e repleto de sabedoria?
O meu percurso profissional começou numa região do interior, quando fui trabalhar como médica para Alfândega da Fé. Este facto condicionou a minha forma de estar na vida e na política. Acabei por me dedicar a conhecer melhor a comunidade onde vivo há mais de 30 anos, particularmente na perspetiva da medicina e da antropologia, o que viria a resultar na minha tese de doutoramento, que acabou por ser publicada em livro com o título “O saber médico do povo”. A este meu contacto com uma cultura diferente num Portugal tão diverso apesar de pequeno em território, que me levou a integrar, a dada altura, a Wonca Rural (um grupo de médicos rurais a nível mundial que estuda e investiga as especificidades dos problemas de saúde nas zonas rurais) e a direção da Euripa (uma associação europeia de médicos rurais), com certeza não são alheias a minha consciência e a minha preocupação e ação relativamente às dificuldades e constrangimentos particulares das zonas mais interiores do nosso país. Esta tem sido uma luta sempre presente na minha atividade profissional e na minha militância política. E ser Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas não se desvia desta linha: por um lado, porque muitos dos nossos emigrantes partiram do interior do país por falta de oportunidades, por outro, porque eles são também uma parte da população portuguesa que não podemos correr o risco de esquecer apenas porque está menos visível. É preciso aumentar a visibilidade destas comunidades nas duas situações: os que vivem no interior do país e os que vivem no estrangeiro. Todos somos Portugal! De resto, tenho tentado manter um percurso coerente, sobretudo respeitando aquilo que são os meus valores e a minha postura na política, que é de servir a comunidade e contribuir para um melhor futuro para Portugal porque apesar do muito já feito, há sempre muito a fazer.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros tem por missão formular, conduzir, executar e avaliar a política externa e europeia do país. Como nos pode descrever a concretização deste objetivo, em particular a partir do momento em que, também Berta Nunes, o abraçou? Neste sentido, o que tem vindo a ser realizado?
Prefiro falar em concreto da missão da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que é a de sedimentar o sentimento de pertença mas também de apoiar e garantir igualdade de acesso aos serviços do Estado e proteção a todos os portugueses no exterior. E é com esse horizonte presente que temos vindo a trabalhar. Temos visitado as nossas comunidades nos diferentes países de acolhimento e trazemos registadas as suas preocupações, os seus anseios e as suas expetativas, para podermos continuar a traçar políticas que vão ao encontro das suas expetativas e necessidades. Incentivamos e apoiamos o seu regresso, se essa for a sua vontade, mas também nos congratulamos com a sua integração nos países onde vivem, acompanhando atentamente as respetivas políticas e articulando ações com as autoridades locais por forma a garantir a salvaguarda dos seus direitos. Foi o que fizemos recentemente, por exemplo, no Canadá, onde reunimos com as autoridades locais para debater a melhor forma de resolver a situação dos indocumentados. Queremos criar pontes e redes que permitam uma ligação mais consistente com os nossos emigrantes e lusodescendentes. Nesta linha de ação, criámos, com a Secretária de Estado da Valorização do Interior, o Programa Nacional de Apoio ao Investimento da Diáspora, que se propõe apoiar o investimento dos nossos emigrantes e lusodescendentes, em especial no interior do país, bem como as exportações e a internacionalização das pequenas e médias empresas nacionais através da diáspora.

Tendo em conta o papel que assume enquanto Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, de que forma a promoção da Língua Portuguesa atinge uma posição preponderante na projeção de Portugal no mundo?
O ensino da língua portuguesa no estrangeiro é uma das nossas prioridades. É importante que a Rede EPE possa garantir a modalidade de ensino mais adequada para cada caso. Por exemplo, temos de considerar que o ensino do português como língua materna pode não ser a melhor solução para um aluno lusodescendente que não fale ou compreenda a língua. Este trabalho minucioso e cuidado deve ser feito tendo sempre em vista duas metas: manter vivo o português entre os portugueses e lusodescendentes no estrangeiro e conquistar mais falantes fora das comunidades portuguesas, contribuindo para a sua valorização com uma das línguas mais faladas em todo o mundo. Num mundo onde as distâncias físicas são mitigadas pela globalização, a língua portuguesa é uma ferramenta de trabalho e um fator de valorização pessoal e profissional precioso, que a nossa diáspora mais qualificada já vai usando mais a seu favor. Simultaneamente, sem dúvida que a língua é, e pode ser cada vez mais, um fator de maior visibilidade do nosso país. Quanto mais falantes de português no mundo, mais destacada será a presença de Portugal numa escala global.

Em que medida as comunidades portuguesas podem contribuir para as relações externas de Portugal nos planos da cultura e da economia?
Neste âmbito as nossas comunidades têm tido um papel muito importante. São inúmeros os exemplos de empresários na diáspora que importam e comercializam os produtos portugueses nos países onde residem, levando para lá a marca de Portugal. É também esta dinâmica que o PNAID (Programa Nacional de Apoio ao Investimento da Diáspora) se propõe potenciar. Por outro lado, destaco, também, o papel dos movimentos associativos das comunidades portuguesas que nos seus países de acolhimento fazem um trabalho valioso de afirmação e preservação da nossa cultura e da nossa língua. E sendo certo que vivemos tempos de globalização, é pela diferenciação que podemos marcar uma posição mais destacada no mundo. Temos uma riqueza cultural inigualável, somos um país que é por si muito diverso, com um património invejável, e os nossos emigrantes têm sabido dar a conhecer o nosso país ao mundo. Não será por acaso que a maior percentagem de turistas que nos visitam são oriundos de países onde também temos grandes comunidades de emigrantes e de lusodescendentes.

Quão gratificante é para si olhar para o seu percurso e percecionar tudo aquilo que já conquistou?
Sinto-me agradecida pelas oportunidades que tive ao longo da vida e pela forma como sempre me empenhei em fazer o meu melhor, mas não me contento com o trabalho feito, há muitos projetos pela frente. Não podemos acomodar-nos no conforto das conquistas, porque há sempre mais para fazer, e deve ser isso a mover-nos, o que está para a frente, não o que ficou para trás.

A terminar, tendo uma «voz» importante de todo o esforço, sério e sustentado que Portugal está a realizar no sentido de restaurar a união e credibilidade internacional – e a um passo de 2022 – que mensagem de confiança gostaria de deixar às Comunidades Portuguesa?
Sobretudo uma mensagem positiva e de esperança. Portugal não é hoje o país que muitos emigrantes deixaram há décadas, é um país desenvolvido económica e socialmente, um país na vanguarda da tecnologia e da investigação em muitas áreas, e que quer continuar a evoluir. Nesse processo, queremos contar com todos os portugueses, os dez milhões que vivem no continente e nas ilhas, mais os cinco milhões que se encontram um pouco por todo o mundo. Portugal orgulha-se desses portugueses, e estará sempre de braços abertos para os receber e para valorizar e dar visibilidade ao seu trabalho dentro do nosso país.