É a Água, estúpido!

POR NUNO CAMPILHO, DIRETOR-GERAL DAS ÁGUAS DO BAIXO MONDEGO E GÂNDARA, E.I.M., S.A.

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Não há bebida mais equilibrada do que a água – sem calorias, hidrata e satisfaz na perfeição todas as nossas necessidades. É o principal constituinte celular, serve de meio de transporte dos nutrientes e está envolvida em todas as reações metabólicas do organismo. Ao beber água regulamos a temperatura corporal e promovemos o normal funcionamento dos órgãos internos. E, ainda por cima, custa pouco. Bem… depende do quão profunda é a dimensão da estupidez humana. É do conhecimento comum que a água não é apenas essencial ao Homem e aos Ecossistemas, mas é também um recurso económico estratégico, pelo que, a quantidade real de água disponível para uma única pessoa ou população é também de interesse para a saúde humana e para a economia e gestão política dos recursos.

Uma vez que a disponibilidade de água depende diretamente do seu consumo, geri-la, nas suas mais diversas componentes e impactos na sociedade, tem vindo a revelar-se de uma complexidade que poderá estar acima do dito conhecimento comum. A água gerida por entidades, maioritariamente públicas, para consumo humano, vulgo, água da torneira, vem de diversas fontes, trazendo minerais das múltiplas terras que atravessa. Se excluirmos casos raros em que seja necessário restringir algum desses minerais, facilmente se conclui que a água da torneira é a mais completa. Com todos os impactos na saúde e no ambiente que remontam à formação do universo, a lógica do bem comum e da perceção inteligível por todos (ou quase todos), associada ao consumo de água da torneira, acaba por esbarrar numa espécie de acefalia coletiva, que me apraz fazer concluir pelo que a seguir exponho. Beber água engarrafada deve ser dos comportamentos mais irracionais que qualquer ser humano pode ter.

Como é que é possível justificar, de forma plausível, gastar 1€ por um litro de água, quando esse mesmo euro pode comprar 1 000 litros de água (e remeto-me para aquisições em supermercados, porque, em outros estabelecimentos, esse valor pode ser até quatro vezes superior)? Como é que é possível defender, de forma sustentada, que a água da torneira não é boa para beber, quando os dados da entidade reguladora apontam para 99% de água segura em todo o território nacional, resultante de milhões de análises efetuadas, em quantidade, certificação por laboratórios acreditados e com uma monitorização permanente (resultante dos planos de segurança da água em vigor), muito para além do que se verifica com as águas engarrafadas (a água da torneira é o produto alimentar mais controlado em Portugal)? Como é que se pode contribuir para a redução do desperdício e para a mitigação das alterações climáticas, quando as garrafas de água de plástico são o quinto artigo mais encontrado nas limpezas das zonas costeiras, têm uma pegada de carbono total de cerca de 82,8 g de dióxido de carbono – 300 vezes mais quando comparada com a pegada de carbono da água da torneira, e gastam tês litros de água no seu processo de fabricação (plástico esse, que não é biodegradável, transforma-se em pedaços mais pequenos – os microplásticos – os quais poluem a natureza, com especial incidência para os oceanos, num processo que pode demorar até 450 anos)?

As garrafas têm de ser protegidas da luz solar e conservadas em lugar fresco e seco, mas o que mais se vê por aí, são garrafas expostas à luz, quando não mesmo ao sol, em camiões ou montras, e como a luz pode fazer crescer algas e bactérias e os ultravioletas fazem passar bisfenol A, uma substância que existe no plástico das garrafas, para o interior, há o risco, especialmente nas crianças, de provocar alterações na tiroide (terá sido, também, por isso, que em julho do ano passado a Comissão Europeia instaurou um processo de infração a Portugal por incumprimento de regras sobre o controlo da presença de substâncias radioativas na água potável engarrafada, por não cumprir o requisito da Diretiva Água Potável da Euratom, no sentido de definir frequências exatas de amostragem para a água destinada ao consumo humano embalada em garrafas ou outros recipientes para venda).

Na voz de alguns pediatras, esterilizar biberões ou ferver a água é perda de tempo, um gasto inútil e os pais terão coisas muito mais interessantes para fazer, até porque quem transmite doenças são as pessoas. Considerando, então, que o consumo de água da torneira contribui para a redução dos consumos energéticos e da produção de resíduos plásticos; para a diminuição das emissões de CO2 para o meio ambiente; para a poupança na economia familiar; o facto de os portugueses consumirem 1 300 milhões de litros de águas engarrafadas, o que corresponde a cerca de 70% do total de bebidas não alcoólicas consumidas (consumo per capita de 150 litros, apenas 30 litros menos que o total de água que se calcula ser consumida pelos portugueses – o quarto país da Europa com maior consumo per capita de água engarrafada), só posso concluir que o estúpido sou eu, porque uma mistura de snobeira, necessidade e preocupações higiénicas, transformou uma indústria praticamente inexistente, num império mundial de lucros astronómicos (são quase 300 mil milhões de euros, quando, há 15 anos, valia pouco mais de 11 mil milhões).

Em bom rigor e para não parecer que me dou por vencido (ou estupidificado), prefiro admitir que água engarrafada é típica de zonas subdesenvolvidas e almejar, um dia, poder ser (fazer com que seja) como em Viena (Áustria), onde as pessoas andam com garrafas metálicas pela mão e a água da torneira é protegida na Constituição Estadual, como um dos garantes e ícones da qualidade de vida daquela cidade. Numa zona repleta de água, superficial e subterrânea, onde me encontro, o grande desafio é captá-la em quantidade e produzi-la com qualidade. Faz parte do nosso dia a dia, num esforço nem sempre compensado pela ignorância de uns e a má vontade de outros. Os processos de Educação Ambiental, destinados, por norma, aos mais novos, precisam de ser, cada vez mais, multidisciplinares e inter-geracionais. Nas Águas do Baixo Mondego, ABMG, estamos a iniciar um processo de associação da nossa presença, a uma marca. E essa marca, é a marca da nossa água. Estamos nas Escolas, estamos em provas desportivas, estamos em Parques Urbanos, estamos nas Praias, estamos em festividades culturais e recreativas, estamos em eventos oficiais. Com as nossas garrafas reutilizáveis e os nossos aguadeiros, persistiremos na passagem da nossa mensagem, no garante da qualidade, na consolidação da confiança dos consumidores, na mudança de mentalidades e na assunção de comportamentos saudáveis, amigos do ambiente e economicamente sustentáveis. A água cai do céu, é um facto, mas até chegar à torneira dos consumidores, ininterruptamente, com a pressão adequada e a qualidade intocada, passa por um processo longo, complexo e oneroso, de captação, transporte, reserva, tratamento e adução. Quem pense de outra forma, lamento ter de o dizer, pertence ao grupo dos consumidores de água engarrafada. É barata, acessível e amiga do ambiente. Em qualquer torneira perto de si, a qualquer hora, com qualidade de excelência e que pode levar para todo o lado em garrafas reutilizáveis. É leve, pura, de grande qualidade e o melhor que pode beber. E vem, diretamente, da sua torneira… só muda a embalagem! Não há outra, nem melhor escolha possível… é a água (da torneira), estúpido!