Como fugir à procrastinação na escrita (e não só)

A ARTE DE PROCRASTINAR FAZ, INFELIZMENTE, PARTE DA NOSSA VIDA E NÃO É FÁCIL COLOCÁ-LA NA GAVETA.

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«É p’ra amanhã, bem podias fazer hoje; porque amanhã sei que voltas a adiar e tu bem sabes como o tempo foge; mas nada fazes para o agarrar.», já cantava o António Variações.

O que é procrastinar? Procrastinar é deixar para depois, adiar, postergar para data incerta as pequenas (aparentes) minudências do dia a dia e não só. O roupeiro que necessita de ser arrumado, o quadro a pendurar na parede, a torneira que espera um arranjo e não para de pingar, mas também (e ainda mais grave), os nossos sonhos, os nossos desejos. A energia por trás é a mesma: a não ação, o não realizar, o não fazer acontecer. As razões que nos levam a procrastinar são variadas começando por aquela que é até considerada um «pecado capital» pela igreja católica: a preguiça. A preguiça é a falta de vontade, interesse ou ânimo para realizar algo que exija um esforço intelectual ou físico. Confesso, não aprecio muito arrumar gavetas e roupeiros. Por isso, tendo a adiar esta tarefa mais do que devia.

A Bíblia, esse livro onde cabem todas as facetas boas e menos boas do Homem (comentário sem qualquer conotação de preferência religiosa, apenas a constatação de um facto), apresenta muitas passagens sobre esse «pecado»:

«O preguiçoso morre de tanto desejar e de nunca pôr as mãos no trabalho.»

Provérbios 21:25

Não acredito que preguiça seja a razão que leva os aspirantes a escritores a fugir da cadeira, a não definir uma rotina de escrita e a cumpri-la. Refiro-me aos autores que pretendem encarar a sua escrita de forma mais profissional e já perceberam: escrever ao sabor da inspiração raramente os leva a bom porto. A procura incessante do perfecionismo e o medo da rejeição são, assim o creio, as principais razões que travam a escrita.

É muito importante ter brio no que escrevemos e não nos contentarmos nunca com a primeira versão. Editar, retirar os excessos, partilhar as nossas palavras com outros e rever as vezes necessárias até sentirmos: «não me envergonharei no futuro destas palavras que agora escrevo». Depois, é avançar, começar um novo projeto, seja redigir um e-mail, um artigo de opinião, uma crónica, um livro: escrever, editar, rever, partilhar com outros olhos e por fim, dar o assunto por encerrado, e assim sucessivamente. O segredo para escapar do pesadelo «perfeição» reside em conhecer e utilizar o processo, e não na busca permanente de algo que não existe, que só nos provoca descontentamento, desalento e, pior ainda, «a não ação». Há quem nunca volte a ler o que escreveu, mas se ler, após usar o processo mencionado (escrever, editar, partilhar, rever, finalizar) terá esta certeza:  foi o melhor que conseguiu com as ferramentas (conhecimentos, vocabulário, destreza linguística, entre outros.) que tinha naquele momento à sua disposição; fez tudo o que era suposto fazer. É este o ofício da escrita.

O medo da rejeição… Todos tememos a crítica e, sem dúvida, ela irá sempre surgir. Nunca conseguiremos agradar a todos e isso é perfeitamente normal. Ter essa consciência retira-nos o total peso deste medo: haverá sempre alguém a apontar alguma coisa. Há situações que nos vão doer mais do que outras, mas, se queremos escrever, partilhar as nossas palavras com o mundo, esse é o preço a pagar. Nada há a fazer em relação a isso. É aceitar e avançar de peito em frente.  Depois, para quem já publicou existe o medo de sucessos passados. É este o receio que tem levado alguns escritores a procrastinar a sua escrita: o receio de que o seu próximo livro, não seja tão bom como o primeiro. Isto, aliado a uma certa dose adicional de perfeccionismo, é a «receita para o fracasso». Para fugir à procrastinação é necessário um misto de consciencialização e força de vontade. A consciencialização passa por perceber as razões que estão por trás do ato de adiar, deixar para depois. Isto aplica-se à escrita e à vida. Da sua clareza virá certamente a necessidade urgente de agir e a partir daí será imparável em tudo aquilo que se proponha fazer hoje, e não amanhã. Porque o tempo foge.

«Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.»

José Saramago