“Portugal deve estar Atento à ameaça que o Olho Seco representa para a Saúde Ocular”

OPINIÃO DE J. SALGADO-BORGES. MD, PHD, FEBO DIRETOR CLÍNICO DA CLINSBORGES E EMBAIXADOR EM PORTUGAL DO TFOS (TEAR FILM & OCULAR SURFACE SOCIETY)

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De uma forma simples, a Síndrome do Olho Seco pode ser entendida como uma anomalia que afeta o processo de produção das lágrimas. Deste modo, o olho não recebe a lubrificação ideal para o pleno desenvolvimento das suas funções. Com isso, os problemas gerados por essa condição vão desde um distúrbio ocular que causa desconforto, até situações graves que podem danificar a superfície ocular. Afinal, a lágrima atua como um agente protetor do olho, formando uma película que recobre o globo ocular, fornecendo humidade e lubrificação constante para preservar a acuidade visual e conforto ocular através da sua composição e combinação de:

  • Água, para manter a humidade;
  • Gordura, para lubrificação e evitar a evaporação;
  • Muco, para espalhar as lágrimas pela superfície do olho;
  • Anticorpos e determinadas proteínas que promovem a resistência à infeção;

Neste contexto, devo salientar que a Síndrome do Olho Seco afeta não apenas a quantidade, mas também a própria qualidade do filme lacrimal. Portanto, é extremamente importante ficar atento aos sintomas, e procurar obter quanto antes um tratamento adequado junto de um médico oftalmologista. Felizmente, a Síndrome do Olho Seco, ao contrário de outras doenças oculares, como o glaucoma, não é silenciosa. Assim, conta com sinais e sintomas bastante percetíveis, dado que o distúrbio ocular gera um desconforto enorme nos olhos do indivíduo. Porém, o único problema, é que pode suscitar confusão com outras doenças, como alergias. Por isso, partilho abaixo os principais sinais de alerta a que deve estar atento:

  • Ardência;
  • Muco viscoso no interior ou ao redor dos olhos;
  • Sensação de areia;
  • Sensação de corpo estranho;
  • Comichão;
  • Vermelhidão;
  • Visão turva ou fadiga ocular;
  • Hipersensibilidade à luz (fotofobia);
  • Dificuldade em usar lentes de contacto;
  • Dificuldade para conduzir à noite.

Por vezes, o olho seco pode também desenvolver lágrimas em demasia. A esta condição confusa chama-se secreção de lágrima reflexa. Acontece porque a falta de humidade irrita o olho. O sistema nervoso envia um sinal de “angústia” ou reflexo para obter maior lubrificação, e assim, ocorre uma “inundação” de lágrimas para compensar a secura. O sintoma é idêntico ao que acontece quando se recebe poeira no olho. Mas estas lágrimas são sobretudo água, por isso não agem como lágrimas normais, servem somente para lavar e eliminar os detritos. Portanto, como é possível observar, são sintomas claros, causados pela má lubrificação dos olhos. De todo modo, é importante estar em alerta, e ficar atento aos sinais, procurando sempre que possível obter um diagnóstico e tratamento rápido evitando um agravamento da doença. Afinal, outras doenças também possuem sintomas semelhantes, como é o caso da conjuntivite. É ainda inegável que a idade é um dos fatores principais para o surgimento desta síndrome. Assim, pessoas que têm mais de 50 anos devem realmente estar em alerta, já que possuem maior prevalência para serem afetadas, principalmente as mulheres. No entanto, há muitos outros fatores de risco que levam ao aparecimento e manifestação da doença:

  • Fatores ambientais, tais como: o vento, baixa humidade, ar condicionado, exposição solar, fumo, químicos ou calor;
  • Exposição prolongada aos ecrãs;
  • Alterações hormonais na mulher, como por exemplo na gravidez e menopausa, terapia de reposição hormonal (TSH) ou pílulas anticoncecionais;
  • Doenças de pele das pálpebras ou áreas peri-oculares;
  • Alergias;
  • Perturbações auto-imunes, tais como Síndrome de Sjögren, o Lúpus ou a Artrite Reumatoide;
  • Inflamação crónica do olho;
  • Pestanejar pouco ou uma condição chamada ceratite de exposição, em que as pálpebras não se fecham completamente durante o sono;
  • Vários medicamentos, tais como anti-histamínicos, descongestionantes nasais, tranquilizantes, medicamentos para a tensão arterial, medicamentos para a doença de Parkinson, e antidepressivos;
  • Ingestão insuficiente de vitaminas;
  • Uso prolongado e/ou inadequado das lentes de contacto;

Importante também referir que vários estudos relacionam o uso dos aparelhos digitais com sintomas da Síndrome do Olho Seco. Já que um dos grandes malefícios que os ecrãs oferecem é justamente a atenção direta que depositamos neles que dão origem a uma redução da taxa de pestanejo em quase 66%. Dessa forma, enquanto se observa os ecrãs, os olhos não só diminuem a lubrificação, como trabalham apenas a visão curta, em detrimento da visão de médio e longo alcance. Isto, por si só é extremamente prejudicial para o olho. Durante estes últimos dois anos de confinamento devido à pandemia da Covid-19, o uso excessivo dos ecrãs foi um dos fatores de risco que agravou exponencialmente a Síndrome de Olho Seco, não só em Portugal como em outras regiões no mundo. Além disso, as máscaras de proteção faciais apesar de benéficas na proteção contra o vírus, também tiveram um impacto negativo sobre as irritações oculares, uma vez que com a sua utilização o aumento de fluxo de ar em direção aos olhos durante a respiração revelou-se um fator etiológico complementar. Isto porque, esse aumento de fluxo de ar acelera a evaporação contínua do filme lacrimal, traduzindo-se, inevitavelmente, num aumento excessivo da irritação e inflamação da superfície ocular.

Quanto aos tratamentos, em quase todas as situações de olho seco é recomendado a utilização de colírios (lágrimas artificiais). Em especial, há que ter cuidado com o uso de lágrimas artificiais com conservantes. Quando os colírios não são suficientes pode ser necessário recorrer a anti-inflamatórios para conseguir um maior conforto na evolução do olho seco. Além disso, há outros tratamentos como a Luz Pulsada (IPL) e o Plasma Rico em Plaquetas (Endoret), tratamentos que temos disponível no nosso Centro Integrado de Olho Seco (CIOS) no Porto. Apesar dos avanços tecnológicos e de investigação ao longo do tempo, é necessário aprimorar cada vez mais as opções. Assim, será possível obter alternativas que cheguem à raiz do problema de forma eficiente proporcionando resultados permanentes para os pacientes. É inegável os avanços relacionados à consciencialização da população portuguesa em relação a várias doenças. No entanto, há ainda imenso trabalho a fazer, principalmente quando se trata da importância das consultas de oftalmologia regulares, bem como da Síndrome do Olho Seco. Afinal, outras doenças oftalmológicas, como o glaucoma e a catarata, que são os maiores agentes causadores de perda de visão no mundo, acabam por diminuir a atenção para doenças “menos severas”. Por isso, é necessário ampliar o trabalho de divulgação relacionado à prevenção desta Síndrome.

As dicas de prevenção para a Síndrome do Olho Seco são muito simples, mas ajudam a manter os olhos lubrificados. Desta forma, alguns dos conselhos fundamentais são:

▶ Descansar os olhos – é indispensável dar descanso para os olhos durante as atividades que exigem um olhar fixo, como ler ou escrever no computador. Assim, a cada 20 minutos, é importante olhar para o infinito, e relaxar os olhos.

▶ Piscar com frequência – o ato de piscar é fundamental para lubrificar toda superfície ocular.

▶ Manter o corpo hidratado – a hidratação, através do consumo de água e de outros líquidos, também é bastante importante. Afinal, quando o corpo está desidratado, áreas como os lábios, olhos, mucosas ficam mais secas.

▶ Evitar ambientes secos – o uso prolongado do ar condicionado, ventos fortes, fumaça, entre outros, são grandes causadores da Síndrome do Olho Seco.

▶ Ter uma alimentação cuidada – o consumo de alimentos ricos em Vitamina A (cenoura, ovos, fígado) e em ômega 3 (alguns peixes, linhaça) contribui diretamente para uma boa lubrificação ocular.

▶ Higienizar corretamente a área dos olhos – o acúmulo de sujidade na região ocular, como nos cílios e pálpebras também é uma agravante a considerar.

Em conclusão, a causa do olho seco é um fator determinante para o diagnóstico e tratamento adequado do paciente. No entanto, é também crucial alertar os grupos de risco para este problema, nomeadamente os idosos, evitar o uso prolongado dos aparelhos digitais e a permanência em ambientes adversos.

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