Luxemburgo – Centro Europeu para o Private Equity

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Luís Galveias, Chief Operating Officer da Luxembourg Private Equity & Venture Capital Association

O Luxemburgo é reconhecido em toda a Europa como o centro de excelência para a domiciliação de fundos alternativos, em particular de fundos de Private Equity e Capital de Risco. Trata-se de um novo impulso do centro financeiro Luxemburguês após décadas de sucesso do sector bancário e dos fundos UCITS[1] (fundos de investimento), com os quais se tornou o segundo maior centro mundial com €5.3 biliões de fundos domiciliados.

Hoje estima-se que os fundos de Private Equity e Capital de Risco representem cerca de 10% dos fundos sob gestão no Luxemburgo, sendo de longe a classe de ativos que registou em 2021 o maior crescimento (84%).[1]

UM SETOR EM TRANSFORMAÇÃO

Se até recentemente o Luxemburgo era conhecido por ser um centro de operações “back-office” da indústria de fundos, esta realidade tem-se alterado nos últimos anos, em grande medida como resultado da regulamentação Europeia AIFMD[2]. As novas regras ditaram maior segurança para o investidor e novas exigências que se traduziram na criação de novos serviços e novos perfis profissionais em áreas como gestão de risco, gestão de portfólio, entre outras.

O Luxemburgo foi particularmente célere na implementação da regulamentação AIFMD o que colocou o país na vanguarda do sector e levou à criação de um conjunto de ferramentas legais muito apreciadas pelos investidores. Se hoje o Luxemburgo é considerado um centro global para o Private Equity, muito o deve a estruturas como o Reserved Alternative Investment Fund (RAIF), as Limited Partnerships (SCSp) ou a adoção da gestão de fundos por terceiros, inovações que foram, entretanto, também adotadas por outros países.

RELAÇÃO COM INVESTIDORES

O próximo passo da indústria já está a ser antecipado por muitos especialistas. É expectável que após a consolidação do “middle office”, o Luxemburgo se torne um centro para o “front office”, em particular no que diz respeito à angariação de fundos. A LPEA (Luxembourg Private Equity & Venture Capital Association), associação que reúne os profissionais do setor, dedicou o seu último evento anual a esta possibilidade e várias são as vozes que antecipam este como um centro de excelência para a gestão das relações com os investidores.

Alguns destes investidores encontram-se no Luxemburgo, como é o caso de cerca de uma centena de family offices, ou ainda da banca privada que tem de forma crescente aderido a produtos de Private Equity. A atração de investidores institucionais é uma aposta de longo prazo e que será possivelmente precedida pela adesão de investidores de retalho, uma tendência que se observa a nível global e para a qual o Luxemburgo se saberá posicionar.

DESAFIOS

Como em todos os setores, o rápido crescimento vem acompanhado de desafios, o principal dos quais é a falta de profissionais qualificados e com experiência. Trata-se de um problema global, mas que o Luxemburgo sente de forma particular, uma vez que continua a depender da atração de profissionais vindos de outros países. Por esse motivo, a mesma LPEA organiza sessões de formação para a preparação de quadros qualificados, bem como uma feira de emprego digital que tem acolhido candidatos de toda a Europa, incluíndo de Portugal. Oportunidades que visam profissionais qualificados, mas sobretudo jovens que procuram uma experiência profissional no maior centro financeiro da União Europeia.

O Private Equity não é imune à conjuntura internacional e esse é naturalmente um desafio com que todos os profissionais do setor se debatem. Se inicialmente se sentiu um impacto nas valorizações dos fundos de Capital de Risco, também os fundos de Private Equity se encontram expostos ao impacto da subida das taxas de juro e ao clima geral de incerteza. No entanto, quem investe no setor, fá-lo em grande parte pelo seu horizonte temporal alargado (8 a 10 anos) e preteção contra a volatilidade do curto prazo.

A perspectiva global é assim positiva, sendo expectável que os fundos alternativos em geral (inclui Private Equity, Capital de Risco, entre outros) dupliquem de tamanho nos próximos 5 anos[3].

A RELAÇÃO COM PORTUGAL

A relação entre Portugal e o Luxemburgo vai muito além dos 100 mil Portugueses residentes no Grão Ducado. Trata-se de um dos maiores “mercados da saudade” onde, de vinhos a livros, toneladas de produtos oriundos de Portugal são vendidos, diariamente.

Ao nível do Capital de Risco e Private Equity, a relação é, porém, ainda pouco evidente. Nos últimos anos assistimos ao acréscimo considerável de atores de Capital de Risco em Portugal, lado a lado com um ecossistema de startups vibrante e alguns unicórnios de referência.

São já alguns os fundos Portugueses que têm uma verdadeira exposição internacional, alguns até com investimentos no Luxemburgo! Estou convicto que não tardará muito para que estes atores globais procurem no centro financeiro da Europa a plataforma que lhes facilitará o acesso a novos investidores.

1 Undertakings for Collective Investment in Transferable Securities

2 CSSF: AIFM Reporting Dashboard

3 Alternative Investment Fund Managers Directive

4 Preqin 2022