APICER Economia Circular, Digitalização e Sustentabilidade

“Um novo paradigma é colocado às empresas associadas da APICER, tornando-se determinante assegurar que estas garantam a sua sustentabilidade ambiental ao mesmo tempo que não percam a sua competitividade sendo que a economia circular e a poupança de recursos se incluem neste desafio mais vasto”. Quem o afirma é José Cruz Pratas, Presidente da APICER – Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e de Cristalaria, que, em entrevista à Revista Pontos de Vista, abordou como é fundamental continuar a promover três pilares: Economia Circular, Digitalização e Sustentabilidade.

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A APICER – Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e de Cristalaria é uma associação que procura promover o que de melhor se faz no setor da cerâmica e do vidro. Assim sendo, e de modo a contextualizar o nosso leitor, qual tem sido o papel da instituição para a concretização desse objetivo?

Nos termos dos seus Estatutos, a APICER tem por Missão, representar os associados da indústria nacional de cerâmica e da cristalaria, e defender os seus interesses empresariais, de forma a promover o aumento da competitividade dos dois setores, assegurando um desenvolvimento sustentável e o fortalecimento da cooperação interempresarial e intersetorial.

Nesse sentido, ao longo dos seus 25 anos de atividade que a APICER está a comemorar, temos vindo a desenvolver iniciativas no âmbito da cooperação empresarial e institucional, informação, comunicação e marketing, sustentabilidade, internacionalização e assuntos europeus, qualificação e competências os recursos humanos, inovação e desenvolvimento tecnológico, energia e matérias-primas. Nalguns casos, estas atividades têm sido promovidas em colaboração com organismos de apoio ao setor, nomeadamente CTCV e CENCAL, e também no âmbito de organismos nacionais e internacionais em que estamos representados.

Tendo em conta que a inovação está na génese da APICER, quais considera ser os contributos da organização para a evolução do setor e que tipo de lacunas tiveram que travar, ao longo do tempo?

Verdadeiramente a inovação está nas empresas cerâmicas. A inovação é essencial para o desenvolvimento e até a sobrevivência das empresas e dos setores da cerâmica e da cristalaria. A APICER em estreita colaboração com o CTCV – Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro – tem vindo a dar contributos nomeadamente em áreas como a vigilância tecnológica do Habitat (materiais de construção e casa) e na execução de projetos de investigação, desenvolvimento e inovação.

Ainda no mesmo tópico de conversa, que projetos têm sido colocados em prática, nos domínios da cerâmica e do vidro, através desse incentivo monetário?

A APICER tem sido promotora de diversos projetos em áreas como a cooperação empresarial, internacionalização, formação profissional e sustentabilidade, sempre com o objetivo de alavancar a competitividade dos setores que representa e reforçar o seu posicionamento competitivo nos mercados internacionais.

A cerâmica portuguesa corresponde a um setor com grande tradição em Portugal e uma forte componente exportadora, com presença em mais de 150 mercados internacionais. Em 2021 Portugal foi o segundo exportador mundial de cerâmica de mesa e uso doméstico não porcelana, o quinto exportador mundial de cerâmica ornamental, o oitavo exportador mundial de pavimentos e revestimentos cerâmicos e o décimo exportador mundial de cerâmica para usos sanitários.

Atualmente está em curso um projeto SIAC – Internacionalização, cofinanciado pelo FEDER no âmbito do Compete 2020, que deu origem ao recente lançamento da marca PORTUGAL CERAMICS, com a qual se pretende aumentar a notoriedade da cerâmica portuguesa nos mercados internacionais. As ações de promoção a implementar incluem a participação em feiras nos mercados da Alemanha, França, Itália e Estados Unidos, assim como seminários temáticos e missões inversas.

Nestas ações de promoção serão utilizados os instrumentos de divulgação produzidos e a produzir no âmbito do projeto, nomeadamente o site, disponível em https://www.portugal-ceramics.com/ e o vídeo promocional, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Y_uricqDANY.

Nos dias de hoje, a grande maioria das empresas portuguesas dedicadas à área da cerâmica e do vidro estão mais conscientes da implementação da economia circular nas soluções e serviços que prestam. Todavia, ainda existem alguns casos que fogem a esta transição. Face a esta realidade, que papel tem tido a APICER, de modo a sensibilizar a comunidade para a concretização desta prática?

As empresas cerâmicas e da cristalaria tem noção do caminho da sustentabilidade em que a economia circular é apenas uma componente. A APICER, respondendo a essas preocupações, criou e tem em funcionamento uma Comissão Temática de Ambiente, garantindo aos seus associados o apoio em matérias relacionadas e/ou conexas com a temática ambiental.

O combate às alterações climáticas, é atualmente o mais vasto e mais urgente desiderato mundial. Nesse sentido a União Europeia tem imposto, um conjunto de diretivas e desenvolvido um conjunto de políticas que têm balizado o desempenho ambiental das atividades humanas, em particular as atividades do setor secundário e primário.

Assim, um novo paradigma é colocado às empresas associadas da APICER, tornando-se determinante assegurar que estas garantam a sua sustentabilidade ambiental ao mesmo tempo que não percam a sua competitividade sendo que a economia circular e a poupança de recursos se incluem neste desafio mais vasto.

A Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a comemoração do Ano Internacional do Vidro durante este ano, 2022. Este material tem enriquecido a qualidade de vida de milhões de pessoas. Na sua opinião, porquê que é importante dar ênfase e celebrar esta efeméride?

O vidro, tal como a cerâmica, são actividade e mesteres milenares. O vidro constituiu um setor com grande tradição no nosso país. Todas as iniciativas que se destinem a promover este setor, considerando, nomeadamente, que o vidro constitui um material sustentável por ser 100% reciclável, o que possibilita sua reutilização em outros processos, merecem, por isso, o nosso apoio. Na linha da questão anterior, a economia circular, no setor do vidro, aplica-se na sua plenitude.

O setor da Cerâmica está neste momento a enfrentar uma grande crise energética. Que tipo de medidas têm sido implementadas na APICER, de modo a apoiar este ramo? Perante este contexto, na sua opinião, que oportunidades surgiram para a cerâmica artística e artesanal?

A crise que se faz sentir de forma transversal na nossa economia, tem atingido de forma ainda mais intensa as indústrias da cerâmica e cristalaria, enquanto setores altamente consumidores de gás natural. A cerâmica e o vidro são os maiores consumidores finais de gás natural no contexto da indústria transformadora, com 32,4% do total dos consumos de gás.

A APICER tem mantido contactos frequentes, com as empresas e com o Governo Português, acentuando a importância deste assunto para a sustentabilidade das suas empresas. Os apoios que têm sido disponibilizados, designadamente através do Programa Apoiar Indústrias Intensivas em Gás e através das medidas de apoio às empresas em face do aumento dos preços da energia têm atenuado o fortíssimo impacto causado pelo aumento do preço do gás natural nas condições de exploração das empresas, mas, ainda assim, são claramente insuficientes para fazer face a esta crise energética sem paralelo.

O aumento do preço do gás é um dos graves problemas que o setor vive, nos dias de hoje. Sendo este um combustível essencial para esta indústria, e estando nós na reta final do presente ano, pergunto-lhe como perspetiva as tendências deste ramo para o ano 2023?

O aumento do preço da energia e combustíveis é a face mais visível dos problemas com que a cerâmica e a cristalaria têm sido confrontadas a partir do 2.º semestre de 2021 e que se têm vindo a acentuar no passado mais recente, agravados com a guerra na Ucrânia. Em termos médios, o preço do gás natural aumentou cerca de seis vezes desde o início do ano de 2022.

Mas também o preço das matérias-primas e subsidiárias, nomeadamente a argila, paletes, vidrados e corantes têm crescido de forma significativa.

Naturalmente que a conjugação de todas estas situações, sem possibilidade de serem repercutidas diretamente no preço dos produtos vendidos, tem tido reflexos nas condições de exploração das empresas e na sua tesouraria, até porque os nossos concorrentes nos mercados internacionais, designadamente os que estão localizados fora do espaço da União Europeia, não estão a ser afetados da mesma forma que os produtores europeus, onde se inclui Portugal.

A crise energética e a pressão inflacionista e as questões geoestratégicas, estão na origem do atual cenário de incerteza e muita preocupação quanto ao futuro.

Face ao cenário que se vive atualmente, como perspetiva o futuro da APICER?

O futuro da APICER está intimamente ligado ao futuro das empresas. Sem empresas não existirá APICER.

A crise que atravessamos assume contornos globais e, nesse sentido, há que procurar também soluções globais, nomeadamente no âmbito da União Europeia. A APICER está representada na Cerame-Unie, organismo que congrega e representa toda a cerâmica europeia, participando e acompanhando as decisões que vão procurando minimizar os impactos da crise nas nossas empresas.

A nível interno, a APICER tem mantido contactos frequentes com o Governo Português, diretamente ou através da CIP, dando nota das preocupações das nossas empresas e sugerindo medidas que de alguma forma possam atenuar as dificuldades que estamos a atravessar, designadamente ao nível dos preços da energia e gás natural.