“Portugal está considerado como um dos países mais avançados do mundo em Governo Digital”

“O digital é sobretudo uma forma diferente de pensar o mundo e de encontrar novas soluções para os desafios que encontramos no dia a dia”. Quem o garante é Mário Campolargo, Secretário de Estado da Digitalização e da Modernização Administrativa, que, em entrevista à Revista Pontos de Vista, destacou as diferentes fases do crescimento da digitalização em Portugal, mas também das respetivas vantagens para a inovação e modernização do órgão da Administração Pública.

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A revolução digital a que assistimos atualmente remete para uma transformação digital da economia que é impulsionada pela tecnologia. Como observa a evolução da digitalização em Portugal e o impacto da mesma no mercado?
Quando olhamos para a Revolução Digital podemos até numa primeira fase valorizar, puramente, a dimensão tecnológica, quase como um fim de si mesmo. Depois, percebemos que essa dimensão é apenas um meio para um objetivo maior. E finalmente, numa terceira fase, podemos perceber que o valor da revolução digital passa pela nossa capacidade de associarmos os utilizadores da tecnologia num processo de cocriação, que beneficie a sociedade como um todo. É por isso que, quando lançamos os programas como os bairros digitais, que ajudam as pequenas e média empresas a acrescentar valor ao seu negócio, através do digital, ou quando fomentamos a criação de novos serviços inovadores, através das test bedes, ou quando apoiamos as startups com um ecossistema inovador, estamos a associar todas as entidades neste processo da revolução digital. É por isso que, Portugal tem hoje em dia, não só, políticas muito claras ao empreendedorismo e ao ecossistema de inovação, mas tem sido capaz de atrair grandes empresas para investirem, ou para se fixarem no nosso território.
Portugal é um país de vanguarda no ensino das engenharias e tecnologias e por isso tem capacidade de atrair não só empresas, como talento. Portugal vai continuar a afirmar-se como um país inovador, damos como exemplo, no Orçamento de Estado para 2023, a criação de estratégias nacionais, de tecnologias disruptivas, designadamente, à volta dos dados, da inteligência artificial, ou da Web 3.0, mas também o investimento na área dos territórios inteligentes, ou das smart cities. Esta estratégia de territórios inteligentes é mais uma demonstração de como a cocriação, o envolvimento das entidades locais, com a administração central, com a universidade, com o setor empresarial, podem ajudar a criar valor a todas as nossas regiões, fomentando a sustentabilidade da economia e ajudando a projetar Portugal como uma nação digital.

A verdade é que o digital tem colocado à disposição soluções fundamentais. De que forma o digital tem elevado a Administração Pública a um patamar moderno, transparente, mais eficiente e eficaz?
Eu diria que o digital é sobretudo uma forma diferente de pensar o mundo e de encontrar novas soluções para os desafios que encontramos no dia a dia. Esta é também, no contexto da Administração Pública, uma lógica que tem que ser explorada em toda a sua amplitude, ao desenvolver serviços públicos digitais mais simples, mais transparentes, mais próximos dos cidadãos e das empresas. Quer isto dizer que antes de apostar em soluções tecnológicas, é necessário repensar e simplificar processos, agilizar a forma como a Administração Pública funciona e como ela dá resposta. Assim, digitalizar passa por desenvolver mais e melhores serviços públicos digitais e por apoiar as pessoas e as empresas que, eventualmente, não tenham capacidade de as utilizar numa lógica omni-canal.
Portugal, tem trilhado este caminho, e é hoje um país considerado como um dos países mais avançados do mundo em governo digital, juntamente com países como: o Reino Unido, ou o Canadá, a Nova Zelândia, ou a Coreia do Sul. Fazemos parte de um grupo que se chama Digital Nations e que de facto é uma rede dos dez países mais avançados em governo digital, cuja a presidência assumiremos em 2023.
O desenvolvimento tecnológico, emparelha com o investimento nas competências digitais da população, será o que vai permitir que, num futuro próximo, os serviços públicos digitais sejam concebidos segundo um modelo comum, e que o cidadão tenha uma experiência de utilização mais simples, mais harmonizada, mais uniforme, sem diferenças, ou incongruências. Para o efeito, pretendemos através do programa Simplex valorizar os três “A’s”: antecipar as necessidades dos cidadãos – primeiro “a”; automatizar os serviços que são necessários no dia a dia – segundo “a”; e neste contexto aproximar o Estado e a Administração Pública dos cidadãos e das empresas – terceiro “a”, materializando de facto o conceito de uma única Administração. É esta a lógica que defendemos para o Simplex, que é um exemplo claro de modernização, de simplificação, de dizer “sim” ao cidadão e às empresas e também de nos mostrarmos mais transparentes.

As mudanças de paradigma e disrupções daí resultantes demonstram que vivemos um tempo de grandes promessas, mas também de grandes desafios. Na sua perspetiva, que lacunas urge colmatar na aposta do país na vertente da inovação?
A aposta na inovação passa pelo aumento das competências básicas e avançadas da população; passa por investir nas competências básicas para que todos possamos beneficiar da inovação nos serviços públicos e nos serviços do setor privado; passa também por investir na qualificação e requalificação dos empregados, mas também dos desempregados, dos líderes digitais, para que as próprias empresas possam encontrar, dentro de si, a capacidade de inovar nos serviços e nos modelos de negócio. Passa também por apostar na formação avançada nas nossas universidades, nos nossos politécnicos, uma formação, que complemente o conhecimento científico com a capacidade de empreendermos. Aliarmos isso, ao apoio ao empreendedorismo vai fazer com que novas empresas, novas startups possam evoluir para scaleups e possam ser dinamizadores da inovação. E também para as empresas portuguesas, aquelas que, por vezes, têm custos de contexto muito elevados trabalhar no regime dos licenciamentos para diminuir os custos de contexto e libertar capacidade de inovação nas nossas empresas.

Como referirmos, apesar dos desafios, as oportunidades serão, com certeza, grandiosas. Assim, quais são as suas expetativas para o futuro da Digitalização e Modernização Administrativa? Que planos apraz cumprir?
Apostar que Portugal é uma nação digital implica investir por um lado, na digitalização da economia, e por outro lado, investir na digitalização da Administração Pública. É aliás, por isso, que estes dois aspetos estão concentrados nesta Secretaria de Estado e que a liderança política é do Sr. Primeiro Ministro. Por isso, quando pensamos no futuro da digitalização e na modernização administrativa temos que pensar que a Administração Pública vai, preferencialmente, comunicar com os cidadãos e com as empresas, através do canal digital. Mas, porque não queremos deixar ninguém para trás, temos de apostar num novo modelo de atendimento ao cidadão, o modelo omni-canal. Aquele, em que o canal digital é complementado pelo canal presencial nos espaços e lojas do cidadão e complementado também pela opção do canal telefónico, da videoconferência, ou da utilização de sistemas de chat bots, ou bots capazes de entender e responder de uma forma automática, numa primeira fase, às necessidades e aos desafios dos cidadãos.
Mas, porque apostamos tanto no digital, temos que investir muito na Cibersegurança, não só no domínio dos quadros regulamentares, dos quadros legais, mas também na dimensão prática, na dimensão de prevenir e reagir, rapidamente. Por isso, é que estamos no processo de criar centros regionais de apoio às pequenas e médias empresas, por isso é que investimos na criação de uma academia para a Cibersegurança, conhecida como C-Academy, que vai formar 9.800 funcionários da Administração Pública, ou do setor privado, com competências avançadas na área da Cibersegurança, aliás numa parceria muito interessente entre a academia e as empresas, e também apostando na partilha de boas práticas, através da C-Alliance – uma aliança entre empresas de vários meios económicos para partilharem boas práticas na área da Cibersegurança.
Apostar, portanto, no canal digital, numa lógica omni-canal fazer com que os serviços possam ser fornecidos de forma segura para uma população que tem as competências digitais necessárias para a utilização desses serviços, é a aposta para o futuro de um país digital e de uma Administração Pública, capaz de complementar o esforço que é feito na digitalização da economia.