“A Educação continua a ser a base fundamental para a mudança de mentalidade numa sociedade”

“Olho para a liderança como um farol orientador que tem por objetivo transmitir uma direção, alinhada com a visão do negócio e com as iniciativas estratégicas da organização”. Quem o afirma é Fátima Santos, Executive Manager da Bioglobal, que nos deu o privilégio de estar presente na Revista Pontos de Vista e onde abordou a importância do Dia Internacional da Mulher e, acima de tudo, da relevância em continuarmos a trabalhar em prol da criação de oportunidades entre Mulheres e Homens.

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O dia 8 de março foi definido, pela Organização das Nações Unidas, como o Dia Internacional da Mulher. Sabendo da importância que a data desempenhou num passado de conquistas por direitos fundamentais, o que faz desta uma efeméride significativa, numa sociedade mais avançada?06

A celebração desta data vem recordar-nos que ainda existe muito por fazer em relação aos direitos fundamentais das mulheres. Uma sociedade evoluída, deverá ser uma sociedade mais inclusiva e lamentavelmente ainda persistem os casos de discriminação de funções e remuneração dentro das organizações. Também nos meios familiares, existe desigualdade de género, dado que a mulher continua a ser vista como a principal responsável pelas tarefas domésticas, pela educação e acompanhamento dos filhos e a ter que garantir as necessidades do seu companheiro. O nível de exigência pedido a uma mulher não é comparável ao de um homem, sendo que ainda existe o estigma que se uma mulher é uma boa mãe e boa companheira não poderá ter a mesma capacidade para ser uma boa profissional. Outro flagelo que assistimos, diariamente, é o aumento da violência doméstica, sendo que as principais vítimas são mulheres.

A igualdade de género é um bem valioso que precisa de ser cultivado por cada um de nós. Na sua perspetiva, existe algo que justifique que, passados 46 anos da alteração do Código Civil, que constituiu um marco histórico incontornável na luta pela igualdade, ainda seja necessário «relembrar» este cultivo diário?

Na minha opinião, não existe apenas um fator que o justifique, mas sim o contexto atual da sociedade em que vivemos. A crise de valores morais, a falta de tempo dos pais para acompanharem os filhos e fomentar relações familiares, o aumento do custo de vida, a pressão para atingir os objetivos profissionais são alguns dos fatores que contribuem para a deterioração da saúde mental e consequentemente para o surgimento de fenómenos de violência radicais. Existem setores da sociedade que continuam a ser maioritariamente masculinos, não porque as mulheres não tenham competências técnicas ou comportamentais, mas sim porque não lhes são dadas as mesmas oportunidades. A educação continua a ser a base fundamental para a mudança de mentalidade numa sociedade. Começa no seio familiar onde é visível a diferença da educação que é dada a uma menina, em que é exigido que seja arrumada, ajude a mãe nas tarefas domésticas, aprenda a cozinhar, tenha uma apresentação cuidada e seja amável com os outros, em comparação com a educação dos meninos, que para além de não ser tão exigente nestes pontos, os incentiva ainda a pensarem que estas são tarefas menores. A igualdade de género deverá ser iniciada através da educação transmitida em casa, fomentada ao longo do caminho da aprendizagem escolar e consolidada no ambiente profissional. Lamentavelmente, as mentalidades e comportamentos não se alteram apenas pela publicação de um artigo no Código Civil.

A verdade é que, apesar das mulheres terem de contornar obstáculos e desafiar mentalidades, muitas conseguiram desimpedir caminho e alcançar o sucesso pretendido – e a Fátima Santos é um exemplo disso mesmo. Na posição de pessoa, mulher e profissional, como define o seu percurso até então?

Tenho a consciência que faço parte de uma minoria. Venho de origens muito humildes em que não existia histórico de progressão escolar. Cedo fui confrontada com dificuldades financeiras e tive de iniciar a minha vida profissional com quinze anos. Durante oito anos, trabalhei em vários setores, desde a restauração, retalho e serviços, mantendo sempre a frequência escolar com bom aproveitamento. Esta realidade, reforçou os meus valores de responsabilidade, resiliência, dedicação e a minha inteligência emocional. Hoje em dia, olhando para essa fase da minha vida, considero que foi uma fase de crescimento emocional e intelectual, mas também de superação de desafios. Nunca senti que, pelo facto de ser mulher, deveria condicionar as minhas escolhas, ou os objetivos a que me propunha.

Quando ingressei no ambiente empresarial, tive a oportunidade de trabalhar numa Multinacional, em que a igualdade de géneros era fomentada. Era constantemente desafiada com novos projetos, o que contribuiu de forma decisiva para reforçar as minhas competências de trabalho em equipa, empatia, comunicação e liderança. A minha capacidade de entrega e dedicação foram fundamentais para cumprir com sucesso os desafios que me foram propostos. Foi, no entanto, com o ingresso na Bioglobal e a exposição ao mundo da segurança eletrónica, que senti uma maior desigualdade de papéis. Este é um ambiente muito técnico e talvez por isso maioritariamente masculino, em que as poucas mulheres que existem têm papéis na área comercial, marketing, ou administrativa. Os cargos de topo são maioritariamente ocupados por homens. É preciso o investimento em competências técnicas, muito trabalho, empenho e coragem para enquanto mulher, termos a capacidade de nos superar todos os dias.

Atualmente é Executive Manager da Bioglobal, uma empresa na área de identificação e segurança eletrónica. Partindo do pressuposto que esta é uma área que tem de estar um passo à frente do seu tempo, é uma área isenta de preconceitos, que abraça a qualidade profissional das suas pessoas, independentemente do género? Qual tem vindo a ser o papel da Bioglobal neste sentido?

Existe um estereotipo em que as áreas de Engenharia, Eletrónica e Informática são predominantemente frequentadas por homens. Nos últimos vinte anos, temos assistido a um aumento considerável do número de mulheres licenciadas nestas áreas, no entanto continua muito por fazer para atrair e reter as mulheres nesta área. De acordo com o Eurostat, em 2020, a distribuição da força de trabalho no mercado das TIC era 83% masculina e 17% feminina.

A Bioglobal tem vindo a acompanhar esta evolução no mercado, no entanto os seus quadros técnicos continuam a ser predominantemente masculinos. Em todos os processos de recrutamento e seleção que lançámos, nunca fizemos distinção de género, no entanto é visível que do lado da oferta não existem mulheres disponíveis para as funções. Ao longo destes seis anos, como Executive Manager da Bioglobal, só conheci uma mulher que teve interesse em responder a um processo de recrutamento para Full Stack Developer.

Enquanto líder de uma empresa, sei que deveremos fazer mais, há todo um caminho a percorrer no reforço de programas de incentivo que devem ser iniciados no meio escolar e deverão ter continuidade no meio empresarial.

No ADN da Bioglobal vive, efetivamente, a responsabilidade e a preocupação com os Recursos Humanos. Tendo a Fátima Santos um papel de liderança, como tem vindo a perpetuar um caminho de exemplo e motivação?

Olho para a liderança como um farol orientador que tem por objetivo transmitir uma direção, alinhada com a visão do negócio e com as iniciativas estratégicas da organização. Enquanto líder, devemos ter a capacidade de motivar os nossos colaboradores, envolvê-los na estratégia da empresa, através de uma comunicação próxima e clara. A capacidade de ouvir e ter empatia, sermos verdadeiros, são características fundamentais para a boa comunicação e negociação dos objetivos. Não podemos querer o envolvimento dos colaboradores se eles não perceberem como é importante o seu contributo na organização, e de como fazem parte de uma simbiose, afinal, não existem organizações, sem pessoas!

Enquanto líderes, temos sido confrontados com constantes alterações de mercado, a COVID-19, a guerra na Ucrânia, o aumento galopante dos preços e os problemas nas cadeias de abastecimento, são alguns dos riscos com os quais nos temos deparado, obrigando as organizações a adaptarem a sua estratégia. Isto, só é possível se as organizações forem flexíveis, se os líderes estiverem próximos dos seus colaboradores e se existir uma rápida e eficaz comunicação, permitindo rapidamente adaptar-nos às novas realidades do mercado.

A aposta na formação é outro fator determinante nesta simbiose. A formação incentiva o aumento de competências dentro da organização, abre espaço para a inovação e para a criatividade, fatores fundamentais na flexibilidade e sucesso de uma organização. Por outro lado, se o colaborador sente que a organização investe no seu crescimento, isto contribui para o seu bem-estar e reforça a sua confiança na execução da sua função.

Eu própria voltei a estudar em 2019, frequentando o EMBA no ISCTE Business School, o que me permitiu renovar e aumentar o meu nível de competências e simultaneamente dar o exemplo aos meus colaboradores, de que é importante continuar a aprender.

Posto isto, por que motivos a Bioglobal é hoje uma referência tecnológica e um player inquestionável no seu setor?

A Bioglobal iniciou a sua atividade em 2001, sendo uma das empresas pioneiras na identificação de pessoas, através de tecnologia Biométrica. Relembro que apenas em fevereiro de 2004, é que a CNPD deu o parecer positivo para a implementação da biometria nos sistemas de controlo de acessos e gestão de assiduidade.

A nossa estratégia passa por um conjunto de iniciativas, nomeadamente, pelo desenvolvimento de software proprietário de controlo de acessos em várias línguas, permitindo a entrada em novos mercados, pelo estabelecimento e reforço da rede parcerias com os principais players tecnológicos, pela formação e capacitação de todos os nossos colaboradores e pela capacidade de customizar soluções “chave na mão” à medida da realidade de cada cliente. Estes fatores de sucesso e diferenciação, permitem-nos implementar, cada vez mais, projetos de referência.

Nos processos de engenharia de software, fomentamos uma política de privacy by design e privacy by default e incentivamos à utilização das mais atuais linguagens de programação. Nos processos de produção, procuramos adotar os referenciais nacionais e internacionais e reforçamos o comprometimento de manter a nossa política de segurança atualizada. Estas medidas, permitem-nos obter as certificações e acreditações necessárias para trabalharmos com entidades que vão desde a Administração Pública, Forças Armadas, Indústria, Retalho e Serviços.

Daqui a dez anos, a nível profissional, onde gostaria de ver posicionada a Bioglobal e, no âmbito pessoal, que metas gostaria de ver cumpridas?

A incerteza dos mercados daqui a dez anos é enorme, no entanto acredito que a Bioglobal consolidará a sua posição de líder de mercado em soluções de identificação e segurança.

A adoção de biometria irá continuar a crescer em várias áreas de desenvolvimento, que vão desde a cibersegurança, os pagamentos eletrónicos, a simplificação de processos de Identificação Governamental, até à utilização em equipamentos de realidade aumentada. A Internet of Everything (IoE) que incentiva à utilização de sensores e à comunicação dos equipamentos em rede, aliado à adoção de biometria, que é atualmente o método de identificação mais seguro, permitirá que os sistemas estejam ainda mais interligados, conectados e seguros. Existe ainda muito para explorar neste campo.

No campo pessoal, sinto que ainda tenho muito a aprender e a concretizar. Quero fortalecer os meus laços familiares e ser um exemplo de sucesso, enquanto mulher e mãe.

Sou exigente por natureza e considero que ser líder não é um processo fechado, por isso vou continuar a investir na minha formação para ser melhor profissional, e contribuir para o sucesso da minha organização.