“As competências são decisivas, tanto social, como profissionalmente, mas no dia a dia de trabalho o que emerge são os nossos comportamentos”

O Ano Europeu das Competências foi o mote da conversa da Revista Pontos de Vista com Jorge Araújo, Presidente da Team Work Consultores, uma empresa certificada na consultoria e no treino experimental de pessoas e equipas. Entre outros aspetos, o entrevistado destacou que “urge um investimento contínuo e eficaz no treino na área comportamental”.

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No final do ano passado, a Comissão Europeia elegeu o presente ano como o Ano Europeu das Competências. Enquanto Presidente da Team Work Consultores quão importante será 2023 para os profissionais e empresas?
Não circunscreveria ao ano de 2023 exclusivamente à grande importância das competências. Em paralelo, preocupam-me muito os comportamentos, as competências são obviamente decisivas, tanto social, como profissionalmente, mas no dia a dia de trabalho o que emerge são os nossos comportamentos. Quando percecionamos a realidade em que nos inserimos, não somos seres passivos, pois estamos num envolvimento ativo com tudo o que nos rodeia. E o que percebemos, tem um significado determinado devido ao interesse e à valorização emocional, estética, económica, cultural, entre outros, que atribuímos em cada momento ao que procuramos perceber. Um valor prévio originário atribuído sempre ao que experimentamos. A nossa perceção constitui assim um envolvimento ativo e prático, em que lidamos diretamente com as coisas, objetos, pessoas, situações. O que nos permite concluir que, antes de conhecer cognitivamente o nosso funcionamento biológico, devemos experimentar viver.

A verdade é que as organizações são fundamentais para a criação das competências do seu Capital Humano. Na Team Wok Consultores, de que forma têm procurado investir em ações de formação?
Mais do que investir em ações de formação, centramo-nos no treino na área comportamental, com o objetivo de ajudarmos a adquirir os pretendidos hábitos comportamentais. A melhor imagem é a de uma criança a tomar contacto com o mundo que a rodeia e em seguida aprender a andar. Ninguém lhe explica verbalmente como se faz! Muito menos repete fora das situações “de jogo”! Com a ajuda da família e por tentativas e erros e repetições constantes em situações sempre diferentes (mas reais!), tenta executar até conseguir. No fundo só uma prática diária vai permitir fixar na “memória corporal” os respetivos gestos e comportamentos consoante as situações diferentes com que deparamos.

Nos últimos anos, em Portugal, tem-se verificado uma escassez de mão de obra em certas áreas de atividade. Esta problemática também tem afetado a Team Work Consultores? Se sim, como procuram atrair recursos humanos?
Desde logo, procurando persistir na defesa de que as pessoas não são recursos humanos, mas sim pessoas cuja complexidade global e exigências de acompanhamento e feedback nunca devem ser esquecidas. Enquanto pessoas, cada um de nós precisa de, a trabalhar, ir recebendo o feedback que necessita para entrar num processo continuado de melhoria contínua.

Uma das metas da Comissão Europeia é que haja “uma taxa de emprego de pelo menos 78% até ao ano de 2030”. Na sua opinião, e face à conjetura atual, este objetivo é realista? O que é que a Team Work Consultores tem feito para cumprir com este objetivo?
A Team Work Consultores desde a crise financeira de 2008, logo seguida pela crise pandémica, trilhou um percurso difícil como a maioria das PME’s em Portugal. Os apoios escassearam em momentos decisivos para a sobrevivência das empresas.  Neste quadro, obviamente, não foi possível o cumprimento desse objetivo.

A Team Work Consultores também marca presença em Moçambique e em Angola. Podemos afirmar que esta expansão está alinhada com mais um dos objetivos para o Ano Europeu das Competências, que é o de “atrair pessoas de países terceiros com as competências que a União Europeia necessita, reforçando as oportunidades de aprendizagem e a mobilidade e facilitando o reconhecimento das competências”? Por que razão esta ligação «além-fronteiras» é fundamental para a marca?
Como empresa formada a partir da experiência dos treinadores desportivos de alto rendimento, as nossas ligações a Angola e a Moçambique tinham laços anteriores bastante significativos. Laços esses que nos ajudaram bastante na criação respetivamente da TWAngola e TWMoçambique. Se juntarmos a isto o facto de termos como metodologia o que designámos como “Pensar e Intervir como um Treinador”, foi imediata a adesão das empresas angolanas e moçambicanas aos nossos métodos de treino na área comportamental.

Ainda no mesmo assunto de conversa. Segundo a Comissão Europeia, em 2021, existia uma escassez de mão de obra em 28 profissões. Tendo em conta a sua experiência, considera que o investimento contínuo e eficaz na formação e na melhoria das competências irá ajudar a colmatar esta realidade?
Para além do que a formação entendida como aquisição de conhecimentos possa acrescentar, defendo há 25 anos que urge um investimento contínuo e eficaz no treino na área comportamental. Como costumamos dizer no desporto de alto rendimento, no treino os exercícios que utilizamos, nomeadamente os exercícios ditos técnicos, são por vezes demasiado lineares e previsíveis relativamente a uma realidade competitiva muito mais exigente na sua imprevisibilidade. Onde as situações parciais ou totais de jogo nunca são as mesmas (nunca se repetem!) enquanto insistimos em treinar e repetir situações de treino fora do jogo. O que implica, (muitas vezes!), os jogadores ganharem automatismos, (respostas motrizes), em situações que depois não acontecem quando competem. Estamos assim perante a obrigatoriedade em todos os exercícios de treino procurar recrear, (quanto possível!), a situação real de jogo, (que está sempre a mudar!). Apontando para aquilo que designámos como “treinar como se joga!”. O treino deve assim replicar o jogo em todas as suas circunstâncias, (duração, intervalo, oposição, ambiente emocional, caos constante, entre outros). Ora, da mesma forma, no treino na área comportamental a nível empresarial, o que ensinamos, treinamos e aperfeiçoamos deve estar sempre contextualizado dessa forma. O mesmo será dizer que sou um defensor acérrimo de um investimento contínuo no treino na área comportamental que replique a realidade competitiva, exigente e rigorosa dos ambientes de trabalho empresariais. Nunca esquecendo que todos somos capazes de realizar os maiores sacrifícios, desde que esses sejam entendidos como os nossos sacrifícios. Ou seja, todos precisamos de sentir como nossos os objetivos comuns da organização em que trabalhamos. Para o conseguirem, os respetivos líderes devem mobilizar a motivação daqueles que lideram, envolvendo, responsabilizando, apelando à sua participação, dando espaço para que se expressem e constante feedback acerca do que estão a fazer bem ou mal e como melhorarem de forma continuada.

Formação, digitalização, inovação, sustentabilidade e pessoas são de facto as palavras-chave deste Ano Europeu das Competências. Posto isto, como perspetiva o ano de 2023 para a Team Work Consultores?
Mais do que muito centrados em 2023, queremos construir um futuro em que o TODO das organizações com quem trabalhamos, seja maior que a soma das partes. E em que os EU’S que compõem essas organizações possam encontrar, em permanência, o seu espaço de envolvimento, responsabilização e melhoria contínua alinhados com os objetivos coletivos das suas organizações. Tarefa complexa, nem sempre totalmente alcançada, mas na qual nos focámos desde sempre. Nas nossas diversas ações, há muito que procuramos que os clientes expressem no seu corpo as diversas emoções que vão sentindo, cumprindo com a famosa expressão empregue por António Damásio, o nosso corpo é o palco das nossas emoções.