“Os Programas de Mobilidade são uma mais-valia inegável para os estudantes, técnicos ou docentes”

O programa Erasmus+ foi o ponto de partida para o início da conversa da Revista Pontos de Vista com Amílcar Falcão, Reitor da Universidade de Coimbra. O mesmo abordou os diversos protocolos que estabelecem com instituições de Ensino Superior “de quatro cantos do mundo” e as vantagens da mobilidade internacional sobretudo para os jovens estudantes. Uma delas, passa pela facilidade de inserção ao mercado de trabalho.

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Estudar na Universidade de Coimbra é dar continuidade à história da matriz intelectual do país, que formou as mais destacadas personalidades da cultura, da ciência e da política nacional. Além da sua cronologia poderosa, o que faz desta instituição, a nível nacional, uma das melhores?
A qualidade do Ensino, da Investigação e a capacidade de transferir conhecimento e responder aos Desafios Societais. A cronologia poderosa, como diz, é um marco que nos faz orgulhar, mas que implica a responsabilidade de continuar na linha da frente. A capacidade de inovar e empreender foi algo que a Universidade de Coimbra sempre demonstrou, em períodos marcantes da história do país e do mundo, desde 1290.
Dou-lhe um exemplo prático: a pandemia da Covid-19 acelerou a nossa transição para o mundo digital, com a criação da plataforma académica online UC Teacher como resposta imediata à necessidade de ensino remoto. Essa plataforma acabou por ser distinguida como o melhor projeto no setor da educação (Best Education Project), nos Portugal Digital Awards.
Noutro tema particularmente atual e importante, a sustentabilidade, a Universidade de Coimbra tem mostrado estar entre as mais comprometidas com a causa ambiental: no ano passado foi considerada a instituição de ensino superior mais sustentável de Portugal e a 26ª do mundo nos prestigiados Times Higher Education Impact Rankings 2022, que medem o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas.

Mas não é só a nível nacional que se destaca: a Universidade de Coimbra afirma-se cada vez mais como uma universidade global. De que forma, a mesma, tem aberto caminho no que diz respeito à cooperação com parceiros e estudantes de diversas partes do mundo?
A UC, como instituição global, aposta na qualidade das parcerias, com o objetivo de fomentar e incrementar a cooperação nos campos da investigação, da cultura, do empreendedorismo, com base em redes e grupos de trabalho internacionais que dignificam o trabalho feito. Temos em vigor dezenas de protocolos com instituições de ensino superior (e não só) dos quatro cantos do mundo – e, em particular, dos países lusófonos. Pertencemos ao consórcio EC2U – European Campus City-University – um emblemático projeto de aliança universitária europeia, promovido no âmbito da União Europeias. E, atentos à nossa história, conservamos fortes laços com os nossos antigos estudantes espalhados pelo globo: nos últimos anos, temos revitalizado as redes Alumni internacionais, em destinos tão distintos como São Tomé e Príncipe, Cabo-Verde, Moçambique e ou os países da BENELUX.

O facto de a Universidade de Coimbra ter 20% de estudantes internacionais, oriundos de mais de 100 países, faz com que este espaço de ensino esteja mais próximo da resolução de problemas globais e do desenvolvimento de sociedades? De que forma?
Só encontro vantagens numa universidade de matriz internacional como a que temos. Os nossos estudantes encontram um ambiente cosmopolita, de partilha de desafios e respeito pela interculturalidade. E o convívio interpares é permanentemente fomentado – em particular, na Casa da Lusofonia da UC, onde estão sediadas as associações que agregam os alunos e alunas provenientes de Angola, Brasil, Cabo-Verde, Guiné, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Timor-Leste e a Erasmus Student Network de Coimbra, com programas diários que envolvem toda a comunidade estudantil. E, claro procuramos fomentar em todos os nossos estudantes esse espírito crítico permanente, chamando a atenção para os problemas globais e procurando que pensem em respostas criativas para os mesmos: é o caso, por exemplo, do projeto UC Challenges for Global Sustainability.

A Universidade de Coimbra participa no Programa Erasmus+ – Mobilidade Individual de Estudantes. Em que medida esta ação oferece oportunidade para que os alunos possam melhorar as suas competências, aumentar a sua empregabilidade e ganhar consciência cultural?
A UC esteve desde o início na implementação do programa Erasmus, que celebrou no ano passado, 35 anos. Este programa transmite e partilha de valores europeus fundamentais ao nível de cidadania, respeito intercultural, de digitalização, de promoção de conhecimentos linguísticos, de sustentabilidade, mobilidade verde, de inclusão. Todos os estudantes que usufruem de uma experiência de mobilidade vivenciam experiências únicas que vão alargar as suas competências científicas, interpessoais e sistémicas, facilitando a sua inserção no mercado de trabalho.

Já do ponto de vista do mercado, este Programa traz benefícios às organizações que procurem profissionais melhor preparados para os desafios mundiais como a inclusão, o ambiente ou até a era digital. Assim, de que forma é fundamental apoiar e simplificar a cooperação transnacional e internacional entre as organizações na vertente da educação?
O próprio programa Erasmus, na mobilidade estudantil, apresenta duas oportunidades, os estudos ou estágios no mundo laboral. Estes estágios pressupõem acordos entre a UC e as organizações acolhedoras. Para os estudantes é desafiante integrar, durante o seu ciclo de estudos, o mundo laboral, aprendendo de modo imersivo. Para as instituições que os acolhem há a vantagem de receberem alguém motivado, empenhado, com uma perspetiva diferente (por ser proveniente de outro país) e, muitas vezes, com ideias inovadoras. Esse género de experiência enriquece qualquer organização e qualquer profissional, ao longo das várias etapas da sua carreira.

Um dos grandes objetivos da educação consiste em reduzir o abandono escolar e aumentar os níveis de conclusão do ensino. Considera que o crescimento da mobilidade internacional, através do Programa Erasmus+, tem vindo a colmatar esta lacuna? Em que medida?
Todos os contributos são importantes para esse desígnio. Certamente que alguém que realiza uma mobilidade Erasmus traz consigo, quando regressa, novos aportes pessoais: teve contato com uma realidade diferente, enriqueceu o seu curriculum e tudo isso sustenta a motivação para ir mais além. Isso implica terminar o seu curso, provavelmente até com outros horizontes.

Acredita que, atualmente, a ideia de que é necessário preparar melhor os cidadãos europeus para os conhecimentos, as aptidões e as competências fundamentais numa sociedade que evolui de forma dinâmica e é cada vez mais móvel, multicultural e digital é reconhecida como primordial? De que forma a Universidade de Coimbra tem sensibilizado para esta questão?
A formação contínua, ao longo da vida, será cada vez mais uma necessidade para todos os cidadãos. Creio que isso já é reconhecido – como uma oportunidade e como uma responsabilidade – pelas principais instituições de ensino superior a nível nacional e europeu. Todas estão imbuídas do mesmo espírito, no respeito pelos princípios da Erasmus Charter for Higher Education. E a Universidade de Coimbra não é exceção, bem pelo contrário: estamos fortemente comprometidos com a inovação pedagógica e com a promoção de novos modelos de cursos, de curta duração, capazes de responder às necessidades de novos conhecimentos, aptidões e competências que vão surgindo a cada ano.

Quão importante é, para Portugal, que uma instituição como a Universidade de Coimbra, que conta com um património material e imaterial único, fundamental na história da cultura científica europeia e mundial, participe e impulsione a mobilidade internacional?
A mobilidade faz parte da matriz da Universidade de Coimbra, há muitos séculos: sempre estivemos em contactos com as nossas principais congéneres a nível europeu e, depois, mundial. Estes programas de mobilidade são uma mais-valia inegável para os estudantes, técnicos ou docentes que os realizam. E A própria instituição fica a ganhar: ao receber dois mil estudantes em mobilidade por ano a Universidade também se reinventa e adapta. Todos saímos fortalecidos.

Nesta mesma vertente, que novidades podemos esperar por parte da Universidade de Coimbra e da qualidade da sua atuação perante os seus estudantes e o seu desenvolvimento no mercado nacional e internacional?
Continuaremos fortemente comprometidos com o objetivo de aumentar a atratividade da UC a nível nacional e internacional. E estamos claramente empenhados em implementar as novidades do programa Erasmus, como o Erasmus Without Paper (que vai permitir gerir de forma digital todos os processos) e a disponibilização de novos tipos de mobilidades, como as de curta duração para estudantes de doutoramento e programas intensivos mistos, uma oportunidade de explorar áreas que não estejam incluídas nas estruturas curriculares atuais. Todas estas mudanças revelam um programa Erasmus rejuvenescido e adaptado às novas realidades societais, no qual a UC se revê particularmente.