“Só podemos esperar que o mundo mude, se fizermos, nós próprias, parte dessa Mudança”

Sílvia Correia Amado, CEO da Giraffe Mission, assume-se como “inconformista” e defensora de causas sociais. Entre outros aspetos, na entrevista à Revista Pontos de Vista, a empreendedora revelou de que forma a marca que lidera tem contribuído para a igualdade de género.

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Sílvia Correia Amado é atualmente CEO da Giraffe Mission. Tendo em conta o seu percurso, começo por lhe perguntar como se carateriza enquanto profissional?
Considero-me uma pessoa inconformista, que não se deixa acomodar. Vivo e trabalho com paixão, adoro aquilo que faço e gosto de transmitir essa paixão às pessoas com quem trabalho e que me rodeiam. Gerar uma energia positiva e a vontade de fazer acontecer. No trabalho e na vida acho que devemos sempre lutar por aquilo em que acreditamos, mesmo que esse, muitas vezes, não seja o caminho mais fácil, ou o mais óbvio. Gosto de fazer a diferença e ajudar os outros a fazer a diferença nas suas organizações e no mundo à nossa volta, e essa é muito a missão da minha empresa e um dos principais motivos pelos quais decidi lançar-me nesta aventura. Tenho muito o sentido de missão e isso naturalmente reflete-se na Giraffe Mission e na forma como trabalho, diariamente. Acredito, também, que o que nos faz evoluir, enquanto humanos e profissionais é a capacidade de estarmos sempre a aprender, sempre a formarmo-nos e a adaptarmo-nos a novos desafios, a capacidade de nos reinventarmos, porque o mundo não para. E por isso, essa é também uma parte importante do meu percurso profissional, a curiosidade incessante e a aprendizagem constante, a capacidade de nos obrigarmos a sair, frequentemente, da nossa zona de conforto para podermos evoluir e abrir novos horizontes. Espero que isto faça parte do legado que eu deixar às pessoas e stakeholders que me rodeiam, ou não querendo parecer arrogante, da “pegada” que eu vou deixando no mundo à minha volta.

Face à identidade da sua organização – Giraffe Mission – podemos afirmar que a Sílvia Correia Amado é uma assumida defensora de causas sociais?
Sim, procuro ser. Claro que podia fazer mais e há muitas pessoas bem mais ativistas do que eu. Mas, todos nós temos impacto no mundo e no nosso círculo de influência e por isso sou uma crente que todos podemos fazer a diferença no mesmo. Acho que, por vezes, temos mais capacidade de influência do que nós próprios acreditamos e podemos fazer muito mais do que aquilo que temos consciência. Há muitas causas, há muito que pode ser feito e se cada um de nós fizer um bocadinho, naquilo que lhe for mais próximo ao coração, por pouco que pareça, todos juntos o impacto será enorme. Tendo criado uma empresa e sendo mãe, a forma como estou a impactar o mundo afeta-me profundamente, porque todos nós deixamos um legado, ou uma pegada que pode ser positiva ou negativa. Eu espero sinceramente ter a capacidade de deixar – seja a nível pessoal, seja através da Giraffe Mission – uma pegada positiva. Pelos nossos filhos e por todos os que vêm a seguir e vão viver a consequência das nossas escolhas e das nossas ações – seja daqui a uma hora, daqui a um mês, ou daqui a dez, ou 100 anos.

Liderar equipas e pessoas é considerado como uma «arte», por vezes, difícil de concretizar. O que é mais complexo e gratificante da função de uma líder?
É bastante complexo, por vezes, conciliarmos as pressões que as empresas têm – de execução, de entrega, financeiras, etc. – com a capacidade de motivar e dar resposta às necessidades individuais das pessoas. No fundo, a capacidade de mantermos as organizações “humanas” e a viverem realmente os seus valores e propósito. Os valores das organizações não podem ser palavras ocas. E se as pessoas deixarem de acreditar naquilo que a organização representa, nos seus valores, no seu propósito maior, então sabemos que, enquanto líderes, falhámos. E não é um equilíbrio fácil, manter isto sempre presente, nas prioridades da organização e das decisões que se tomam, face às pressões do dia a dia. Temos que garantir que as pessoas se sentem respeitadas e valorizadas, quando a pressão que temos é para estarmos sempre a pedir mais. As organizações só podem criar um impacto positivo à sua volta, se criaram um impacto positivo a partir do seu interior, isto é, das suas pessoas. Mais uma vez, tem que existir uma dinâmica, uma sinergia positiva entre a organização, as pessoas que a compõem e os seus stakeholders, em que todas as partes ganham. Na teoria é fantástico, mas na prática é um desafio constante e que nunca pode ser perdido de vista, sob pena da organização se perder, de perder a sua essência, os seus valores e aquilo que a torna única. Quanto aos momentos mais gratificantes, é quando vejo pessoas que começaram comigo, a aprender, a crescer e a voar mais alto, superando todas as suas expetativas. Acho espetacular quando vejo pessoas a conseguirem ir mais longe que o que elas próprias, muitas vezes, imaginaram. É muito gratificante sentir que as pessoas “conseguiram” e que, de alguma forma, pudemos contribuir positivamente para isso.

Direcionando a conversa para o Dia Internacional da Mulher, que se celebra no dia 8 de março. Quão importante é comemorar-se esta efeméride, em pleno século XXI?
Fundamental, no momento atual! Estamos a viver num mundo de extremos, em que o sucesso se atinge pela força. Em que os direitos humanos são dizimados em prol de conquistas pessoais, de egos e de supostos “valores morais” que assentam sempre no conceito de haver um pequeno grupo de humanos que tem mais direitos que todos os outros. As sociedades patriarcais estão a renascer com mais força, com “polícias morais” que podem assassinar Mulheres, apenas porque têm um lenço mal posto. Os Tate’s da vida andam a fazer sucesso no TikTok. E, claro, que em todos estes cenários, quem mais sofre são as Mulheres. Este é um momento perigoso. Porque se normaliza a ideia da agressão às Mulheres -na guerra, nas sociedades patriarcais, nos misóginos, que se espalham pelas redes sociais, com representação plena em líderes políticos, mesmo no “mundo ocidental”. A ideia de que a supremacia masculina (sobre as Mulheres), está diretamente associada à noção de sucesso masculino, disseminou-se novamente. E, portanto, quem cresce neste mundo, cresce com a generalização que isto é “normal”. E quando se normaliza, aceita-se. Deixa de haver preocupação pelos direitos das Mulheres, pela igualdade, pelo respeito básico, pela equidade nos acessos às oportunidades. Portanto, sim, acredito que esta efeméride é fundamental ser falada, vivida, discutida em pleno, nos dias que correm. E que nós mulheres, especialmente as que têm a sorte de viver em regiões, onde temos “o luxo” (que deveria ser um direito básico de qualquer Ser Humano) de ter voz ativa, nós não nos podemos calar. Temos essa responsabilidade para com todas as que não têm direito a ter essa voz. E temos essa responsabilidade para com as nossas filhas e filhos.

Ao longo do seu percurso profissional, o facto de ser Mulher foi, em alguma circunstância, um obstáculo para a concretização dos seus objetivos?
Claro que sim. Infelizmente, não sei se existem Mulheres – pelo menos da minha idade, tenho esperança que nas mais novas já se sinta alguma diferença! – que nunca tenham sentido “o peso” de serem Mulheres, na sua vida profissional. Desde entrevistas de emprego (“e o seu marido vai deixá-la viajar?”, ou “ah, que pena, já tem 45 anos e nós não contratamos Mulheres com esta idade, veja lá, não parece nada!”), a situações de assédio aceites como “normais”, a perder promoções porque “tiveste um filho, fizeste uma opção”. Acho que todas passamos por situações diversas ao longo da carreira. Esta, é outra das vantagens de ter uma empresa própria! A idade não interessa, só a experiência, não vou a entrevistas de emprego e as promoções sou eu que decido! Deixando o humor de parte, apesar de acreditar que temos feito um caminho positivo nos últimos anos, ainda há um longo caminho a percorrer, para ultrapassarmos os enviesamentos sociais, que continuam a prejudicar as Mulheres, ao longo das suas carreiras profissionais.

A verdade é que ainda há um longo caminho a percorrer para se atingir a igualdade de género. Nesse sentido, como é que a Girafe Mission tem procurado contribuir para esta realidade?
Há muito que ainda pode ser feito. Até ao momento, tendo trabalhado com jovens profissionais, procurando formá-las, empoderá-las e ajudando a prepará-las para um mercado dominado ainda por Homens. Fazendo parte de várias redes de Mulheres profissionais e empreendedoras, em que nos apoiamos mutuamente, procurando contribuir para a expansão mútua dos nossos negócios. Trabalhando com Mulheres com base na sua experiência e competências, e não olhando à idade. Fazendo voluntariado com micro-negócios, liderados por Mulheres, a apoiar o seu lançamento. Fazendo coaching a jovens empreendedoras. Há diversas coisas que tenho feito, mas há muito mais que quero, ainda, fazer.

Enquanto CEO, na sua perspetiva, o que falta para em Portugal vermos mais mulheres a assumirem cargos de liderança?
Faltam oportunidades, por um lado. Quando temos setores de ponta, em que apenas 15% dos empregados são Mulheres, a possibilidade de uma Mulher chegar a um cargo de topo é bastante inferior. Mas, falta, por outro lado, apoio para poderem arriscar. Muitas mulheres, mesmo perante oportunidades, não sentem que podem arriscar ou dedicar-se como gostariam à carreira, porque têm todo o contexto social a “pesar-lhes” – filhos, marido, “entes queridos” a aconselharem a não correr riscos…. E muitas das que arriscam, são criticadas. Há, ainda, muito julgamento social.

Para terminar, que mensagem pretende deixar às nossas leitoras, relativamente à celebração do Dia Internacional da Mulher?
Acredito que, temos que implementar, nós próprias, as lições que gostaríamos de ensinar aos nossos filhos e filhas. Só podemos esperar que o mundo mude, se fizermos, nós próprias, parte dessa mudança. Não nos conformarmos, mesmo quando o caminho não parece fácil. Não nos esquecermos que somos muitas e que não podemos deixar que calem a nossa voz. Fazermos o nosso papel para as gerações futuras e ensinarmos os valores que gostaríamos que praticassem. Para que os humanos de amanhã, já não cresçam com as discriminações com que nós crescemos. E acima de tudo, nunca deixarmos de lutar pelos nossos sonhos. Qualquer que seja a nossa idade. Porque só assim ensinamos os outros e mudamos verdadeiramente o mundo: quando damos, nós próprias, o exemplo.

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Revista Pontos de Vista Edição 128

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