“Todos os dias, são, Dia da Mulher”

Enquanto mulher e profissional, Isabel Silva, CEO da Sildel – Arte e Conceito no Mobiliário, Lda, assume-se como sonhadora. Desde tenra idade, que trabalha com a cortiça e atualmente o seu desejo profissional passa por posicionar esta matéria-prima ao lado de um diamante. Entre outros aspetos, na conversa com a Revista Pontos de Vista, a empreendedora abordou a evolução do papel da mulher na indústria corticeira.

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A Isabel Silva é atualmente CEO da Sildel, onde assume um amor extremo pela cortiça. Portanto, começo por lhe perguntar o que a motivou a fazer desta matéria-prima o seu sonho e a sua «casa profissional»?

Os registos oficiais da utilização da cortiça em Portugal, estão documentados desde o Sec. XV, deduzo que já muito antes seria utilizada pela sua durabilidade, beleza e conforto. Geracionalmente, nasci e cresci, sempre com este material nobre por perto. Fiz-me mulher vivenciando cada trabalho feito pelos artesãos e infiltrou-se no meu Ser como Mulher, até esteticamente falando. À medida que fui conhecendo as suas características naturais e tudo o que a envolve, desde a bolota que se deita à terra até à árvore criada passando pela extração da cortiça na árvore – a arte ancestral de descortiçar – e a beleza da paisagem alentejana, tornei-me amante desta admirável matéria prima: a cortiça e o sobreiro.  Ainda tenho o meu quarto de menina, quem me visita, sorri e admira. Decidi que, o aparente, belo, fácil e barato é só consumismo e ilusão. A cortiça é eterna.

Já sabemos que é uma sonhadora nata. De forma a conhecermos um pouco melhor, como se define enquanto mulher e profissional?

Sim, sou uma sonhadora. Ainda bem. É uma alegria imensa viver o momento da realização dos nossos sonhos e o caminho até à concretização dos sonhos é sempre desafiante. Desperta todos os sentidos. Gosto disto! Sou um Ser que ama o trabalho e quem trabalha por amor acorda feliz mesmo no meio das adversidades que por vezes surgem no quotidiano. Como Mulher defino-me como ser feminino apesar de envolvida num negócio tradicionalmente masculino, em que a junção da identidade feminina com o Saber de e sobre cortiça que teoricamente é associada aos homens, encanta-me. Proporciona-me momentos de grande beleza, quer sentidas interiormente, quer no design, assim como na produção cuidada de cada peça. As minhas opções de vida foram sempre conscientes. Sempre, como forma de vida, dou o máximo de mim. E assim também é a Sildel, não abdico de dar o melhor de mim, todos os dias, mesmo que nem sempre aconteça o proposto e idealizado. É um processo de desenvolvimento, de crescimento. Tal como eu.

Uma das questões que ainda se coloca um pouco por todo o mundo é a igualdade de género. Face a esta realidade, quão importante é celebrar o Dia Internacional da Mulher?  E como analisa a evolução do papel feminino no setor industrial?

Permita-me a franqueza, mas, celebrar o dia da Mulher, é muito pouco. Sinto-me bem mais feliz quando diariamente sou feminina, sem qualquer conotação negativa para outras formas de Ser. Todos os dias, são, Dia da Mulher. Celebro diariamente, nem que seja só um momento, para que nos sintamos valorizadas, iguais e nesta atitude diária reforçar a importância, a Identidade do exercício de ser Mulher quer seja como pessoas, profissionais, no ambiente familiar e na sociedade.

Considera que, nos dias de hoje, a indústria corticeira ainda é um ramo maioritariamente liderado por homens? Se sim, a que se deve essa realidade? E na sua perspetiva, o que deve ser feito para inverter a situação?

Sim, a indústria corticeira é um ramo maioritariamente liderado por homens. Na minha opinião esta realidade deve-se ao facto das mulheres, apesar de na retaguarda, por tradição, sentirem que têm um papel importantíssimo. Na realidade, as Empresas corticeiras, nunca abdicaram do trabalho feminino. É como na vida, a complementaridade é fonte de desenvolvimento e por consequência, de sucesso. Não me parece que deva ser exigida a inversão de papéis profissionais. Que seja livre a vontade individual, a necessidade intrínseca de cada Mulher querer avançar ou não com a liderança neste setor e na indústria corticeira. Se existe a tentação de desvalorizar a força, capacidade e sentido de liderança das mulheres. Não o sinto, nem é esse o meu caminho. Mas antes, quando a Mulher se propõe entrar no mundo liderado por homens, ela luta pela causa como se de outra qualquer se tratasse e consegue. Isto para mim é que é a grande referência de mulheres para e com as mulheres.

Tendo em conta a sua experiência profissional na indústria corticeira, as mulheres continuam a enfrentar mais e maiores obstáculos, do que os homens, para alcançar cargos de liderança? Ao longo do seu trajeto no setor, alguma vez sentiu dificuldades pelo facto de ser mulher?

A minha experiência conduz-me para factos: temos de lutar por aquilo que queremos. E qualquer mulher que se proponha a um cargo de liderança o conseguirá, desde que seja uma líder. Nunca senti que ser mulher me dificultou o caminho.

Ainda no mesmo assunto de conversa. Ao longo do tempo, e sendo CEO da Sildel, como é que tem procurado implementar medidas que contribuam para a igualdade de oportunidades?

Tenho uma história de vida: quando iniciei o trabalho na fábrica do meu pai, em tenra idade, a dada altura, as artes/ofícios que eram destinadas somente aos homens porque implicavam, supostamente, mais força braçal ou outros, a dada altura, mulheres houveram que propuseram, cheias de força e vontade, executar as mesmas tarefas masculinas usufruindo de igual remuneração mensal. O desafio foi aceite e, já agora, por curiosidade, o meu pai foi pioneiro na indústria corticeira, a formar mulheres para as mesmas tarefas, até então, somente destinadas a homens. Acredite que boa parte das mulheres, no exercício das mesmas funções que os homens, revelaram-se tão ou melhores profissionais que os mesmos. Á natureza feminina e em minha opinião, é-lhe atribuída de forma intrínseca, a natureza perfecionista, empenhada, dedicada, responsável, etc.  Esta realidade, percebo-a eu, é a maior revelação, de que a igualdade de oportunidades não será pelo gênero, se é mulher, homem ou outra forma de Ser na vida, mas sim com a vontade expressa de cada pessoa em abraçar o trabalho que mais gosta ou a que se propõe.

Direcionando agora a conversa para outro tópico. Desde tenra idade que trabalha com a cortiça. Quais são as caraterísticas desta matéria-prima que pretende imprimir nos produtos da Sildel? Podemos afirmar que os produtos da empresa honram as raízes e origens portuguesas?

O conceito Sildel começa desde logo por respeitar as diferentes formas, texturas e cores naturais da cortiça como parte integrante do design de cada peça. É imprescindível que uma ou mais das características naturais da cortiça, seja contemplada e evidente no desenvolvimento de cada peça, quer seja, na sua funcionalidade, diferenciação ou elo de ligação estética. O objetivo é e será sempre o destaque da peça que se pretende eterna, bela e funcional. O sobreiro foi designado a árvore joia de Portugal. A Sildel ao trabalhar a cortiça no estado genuíno e sem querer defender a minha “dama” é quem melhor representa e honra a portugalidade na manufatura de tão nobre matéria-prima traduzida em peças únicas, exclusivas e intemporais. A cortiça genuína é eternamente, Portugal.

A Isabel Silva, assume um sonho, que não abdica que é “colocar a cortiça ao lado de um diamante”. Quão desafiante é cumprir este objetivo fora de Portugal, em mercados em que a cortiça ainda é uma matéria-prima desconhecida? Sente alguma diferença pelo facto de ser mulher numa indústria, em grande parte, liderada por homens, nesses mercados, onde Sildel marca presença?

Admito que não é fácil posicionar a cortiça ao lado de um diamante, só quem procura ou sabe a preciosidade de uma e de outro. A simbologia do mágico, do para sempre. Mas, sou marcadamente e neste contexto, tão ambiciosa quanto o meu sonho. Por isso, eu e o meu sonho, caminhamos juntos e havemos de conseguir. Reconheço a enorme dificuldade em dar a conhecer esta nobre matéria-prima ao mundo. Porém, apesar da Sildel ser uma marca embrionária, continuo confiante e perseverante na missão de dar continuidade à Arte de construir peças únicas, intemporais e sempre presente a sustentabilidade e questões ambientais defendidas com a cortiça genuína como “pano de fundo”. Continuo a não sentir diferença pelo facto de ser mulher, apesar da liderança masculina mesmo noutros mercados. Permita-me acrescentar que quando apresento a cortiça genuína noutros mercados e sendo mulher de estatura baixa os homens até acham engraçado pois em ambiente profissional, não interessa a estatura ou o género, somos Líderes, Ceos. Existe complementaridade, crescimento e maior desenvolvimento qualitativo e por com consequência, quantitativo, no meio de um sonho tão ambicioso.

Recentemente, o website da Sildel foi nomeado para o prémio mundial de melhor loja online. Quão importante é receber este reconhecimento? Face à conjetura atual como perspetiva o ano de 2023 para a empresa?

Ficamos muito felizes, sem dúvida. É sempre o reconhecimento do nosso trabalho. Mas não nos envaidecemos, queremos muito continuar a desbravar caminho para a conquista do grande sonho. Perspetivo um ano de 2023 a decorrer no meio de incertezas globais e apesar da Sildel operar para nichos de mercado, o que pode ser algo favorável, mesmo assim, a incerteza é grande, mas tudo faremos para alcançar os objetivos que destinamos.

Que mensagem gostaria de deixar às nossas leitoras, que querem seguir o seu exemplo de liderança?

A Vida sem sonhos não faz sentido, há que concretizar. Sonhem alto!