“Cada vez mais, em Angola, há Mulheres em cargos de destaque”

Assume-se como uma Mulher resiliente, com capacidade de compreensão e adaptabilidade a diferentes contextos culturais. Falamos de Isabel Caravana, Diretora Geral de uma empresa em Angola, que, em entrevista à Revista Pontos de Vista, abordou a importância do papel da Mulher na sociedade, mas também ressalvou os desafios e as potencialidades do setor energético, naquele país do continente africano.

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Numa manhã quente de Primavera a «cheirar a verão», Isabel Caravana abriu-nos a porta da sua casa, repleta de «alma portuguesa», em Pereira, a poucos minutos do centro de Barcelos, a «capital» do galo mais famoso de Portugal. O papel da Mulher, a vasta carreira da entrevistada, em diferentes ramos empresariais, e as dificuldades e oportunidades do setor energético, em Angola, foram os pontos-chave da entrevista, conduzida pela Revista Pontos de Vista. O gravador estava pronto a captar uma nova história, portanto estavam reunidas as condições para conversar sobre o primeiro tópico.

A nossa interlocutora, desde cedo, que esteve inserida no mundo dos negócios, que, para a própria, ainda é visto como “o mundo dos Homens”, sobretudo, “na área onde trabalho”. A mesma afirmou que, as Mulheres têm que “abdicar de muita coisa e tomar muitas decisões para trilhar um caminho” de sucesso. “No meu caso, tomei várias opções a nível pessoal, uma das quais, ser mãe numa fase mais tardia da minha vida”, acrescentou a Diretora Geral.

Aos 18 anos, Isabel Caravana saiu da freguesia onde é natural para alargar os seus horizontes e desbravar um caminho de sucesso na área da engenharia eletrotécnica e das telecomunicações. O seu portefólio profissional é pautado por várias experiências profissionais, fora de Portugal, em cargos de grande liderança e exposição. Há 13 anos foi de «malas e bagagens» para Luanda, a capital de Angola, onde vive, permanentemente, colocando «um pezinho» em Portugal, todos os meses, para «matar» saudades dos seus familiares e amigos.

Tendo em conta este trajeto profissional, a entrevistada, admitiu que o facto de ser Mulher nunca foi um entrave para a respetiva evolução, devido à sua “forma de ser e estar”, ou seja, por sempre ter adotado uma personalidade destemida, “não mostro medos, ou receios”. E ao fazer uma retrospetiva ao panorama atual de Angola, no que toca à evolução do papel da Mulher, Isabel Caravana defendeu que “as mudanças estão a ocorrer, pois, cada vez mais, em Angola, há mulheres em cargos de destaque, isso, é importante. Sinto que dão muitas oportunidades à Mulher, que as querem em cargos de realce e poder, acreditando nas suas capacidades profissionais”.

Acerca do ramo empresarial onde hoje se encontra, a Diretora Geral confirmou ainda existir uma disparidade de género: “é comum estar reunida numa mesa com dez ou doze Homens e eu ser a única Mulher, mas, não me sinto inferior por isso, muito pelo contrário, sinto-me bastante orgulhosa e respeitada. Os colegas pedem a minha opinião para depois, em conjunto, tomarmos as decisões”. No entanto, Isabel Caravana, reconheceu que em alguns países por onde já passou, em trabalho, existiram situações “em reuniões que ao falar para os Homens, eles me ignoravam, por uma questão cultural e isso não foi agradável, mas consegui ultrapassar todos esses obstáculos”.

Na perspetiva da interlocutora, a igualdade de género trabalha-se, também, a partir das escolas e universidades. A mesma referiu que na educação “já não existe o estereotípico de ‘o menino joga à bola e a menina brinca com bonecas’” e que “a disciplina de cidadania é muito importante para mostrar que, de facto, o Homem e a Mulher são dois seres iguais, com as mesmas capacidades, sem distinções”.

Relativamente à vasta carreira, Isabel Caravana evidenciou que “o ter estado a trabalhar em Munique”, na Alemanha, e “ter tido contacto diário com alemães” foi, até então, o maior desafio da sua jornada profissional. Ainda assim, a Diretora Geral, transmite a ideia de que toda a experiência adquirida, nesse país, foi enriquecedora para o seu crescimento pessoal e profissional.

Sendo uma portuguesa do mundo, Isabel Caravana revelou que “a troca de conhecimentos” e a forma de ser, estar e comunicar, de cada cultura que já vivenciou são hoje a sua mais-valia como Mulher e que as diversas experiências que foi acumulando, até ao momento, a tornaram a profissional que hoje é. Na visão da entrevistada, o contacto com outras perspetivas, “torna-nos mais abertos ao mundo, mas também mais flexíveis, sendo necessário muita capacidade de adaptação e de resiliência”.

Estando há mais de uma década a viver em Luanda, a nossa interlocutora sente-se uma portuguesa «com uma costela» angolana. “O meu coração é angolano”, sublinha. A entrevistada, na conversa, salientou a boa relação vivida entre portugueses e angolanos e ainda sublinhou que “a energia que se sente no ar, naquele país, é fantástica, é mesmo única. O povo angolano é um povo muito alegre, é um povo que luta e trabalha muito, e que, por vezes, não tem acesso a bens necessários no seu dia a dia. As suas adversidades são muito diferentes e por isso é que é preciso viver em Angola para conhecer-se esta realidade e compreendê-la na íntegra. Sinto orgulho no povo Angolano!”.

Como Diretora Geral de uma empresa angolana, Isabel Caravana é da opinião que os líderes empresariais, em Angola, têm que “ser multifacetados” e com “uma grande capacidade de compreensão” e “flexibilidade”, uma vez que o mercado angolano “é demasiado dinâmico, por causa das caraterísticas ‘sugeniris’ do país, e por isso a rotina de trabalho nunca é igual”. Por exemplo: “Em Portugal chove e as pessoas vão trabalhar, em Angola, quando chove, há pessoas que não conseguem sequer sair de casa. Logo, temos que conhecer a realidade da população e não nos podemos fechar no nosso mundo «mágico» e perfeito e pensar que todas as pessoas têm acesso às mesmas coisas que nós”, exemplificou a entrevistada.

Presente e futuro do setor energético em Angola

Isabel Caravana trabalha no setor energético, em Angola, há cerca de quatro anos. Nesse sentido, a mesma mencionou que, neste momento, “Angola está a apostar, fortemente, nas energias renováveis”. Prova disso são os diversos projetos que estão em execução em todo o país: “em julho do ano passado, foi inaugurado a maior central de energia solar fotovoltaica independente da África Subsariana com 188MWp e um outro com capacidade 96MW”, para além destes, “estão mais sete projetos em construção e vários em desenvolvimento, realçando-se um que terá capacidade de 400Mp”, como enumerou a interlocutora. “Estes são projetos, que estão relacionados com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, definidos pelas Nações Unidas (Objetivo 7 das Nações Unidas – Garantir o acesso a fontes de energia fiáveis, sustentáveis e modernas para todos)”, ressalvou a mesma interveniente.

Sobre o mesmo assunto, a nossa entrevistada frisou que, no ramo energético, “um dos problemas dos vários países africanos, é a dimensão dos mesmos. Em Angola, por exemplo, podemos conduzir 200 quilómetros e não ver uma aldeia, logo, passar linhas de transmissão, nessas condições, é complicado e os custos são abismais”. Para evitar essa situação, “nos novos projetos solares, implementar-se-á mini redes solares com armazenamentos de energia, através de baterias, para se eletrificar aldeias remotas. Associado a isso, far-se-á captação e tratamento de águas. (Objetivo 6 das Nações Unidas – Garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água potável e do saneamento para todos). Estes projetos, são estruturais e vão trazer desenvolvimento económico ao país, gerar muito emprego, bem como acarretar qualidade de vida”, destacou Isabel Caravana.

Quanto ao futuro próximo do setor energético em Angola, a interlocutora referiu o grande compromisso do Executivo: “as pessoas vão ter acesso a energia porque, de facto, está a ser feito um grande investimento em todas as províncias, mesmo naquelas zonas muito distantes”. Aliado a isso, está a ser feita “uma grande aposta na sustentabilidade energética, ou seja, numa energia limpa, eficiente e eficaz”.

O «amanhã» da profissional Isabel Caravana

Ainda no campo da «futurologia», Isabel Caravana relatou que o seu desejo profissional passa por “continuar a percorrer este caminho de vida profissional” de sucesso e por isso afirmou que se imagina em Angola “por bastantes anos”. “As pessoas com que me relaciono, tanto a nível pessoal, quer como profissional sabem o amor que eu tenho pelo país e o quanto eu gosto de viver e trabalhar lá e o quanto eu sei que o meu trabalho pode melhorar a qualidade de vida das pessoas, ou seja, que lhes vai trazer um futuro melhor e isso marca a diferença e é muito gratificante. No fundo, quero deixar uma boa mensagem de vida para os meus filhos”, completou a Diretora Geral.

Já na reta final da entrevista, Isabel Caravana foi desafiada pela Revista Pontos de Vista a deixar uma mensagem às leitoras da mesma, que também pretendem seguir uma carreira de liderança no mundo empresarial. A entrevistada aceitou o desafio e afirmou muito perentoriamente: “não tenham medo de ir à luta, nem desistam dos vossos sonhos. Se não sais da tua zona de conforto, não conseguirás vencer”.