“Para os jovens a contabilidade é um pesadelo”

Isabel Cipriano, Presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Contabilidade – APOTEC – acredita que existe falta de investimento na literacia financeira, que a inflação não vai dar tréguas e que os jovens fogem de matérias associadas à contabilidade.

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Como observa a transformação digital no setor da contabilidade?
Há uns anos, a profissão de contabilista estava intrinsecamente associada a papéis e papelinhos. Felizmente que a desmaterialização permitiu acelerar o processo de transformação digital. Hoje em dia, já pouco se observa de ‘manual’, apesar de ainda haver “sacos/pastas com papeis”, caminha-se a passos largos para a total digitalização. A contabilidade, como qualquer outra área, acompanha o desenvolvimento tecnológico. Basta lembrar que a entrega do IRS e do IRC acontece exclusivamente online.

A realidade demonstra que nem todos os portugueses têm acesso à internet ou dominam estas ferramentas.
Acredito que se deveria investir na literacia digital, a par com a literacia financeira. Este exemplo da entrega do IRS ilustra o que pretendo dizer: quantos cidadãos não têm acesso à tecnologia e recorrem a apoio nas suas juntas de freguesia, instituições e organizações ou familiares? E não estamos a falar necessariamente de uma faixa etária mais velha e erradamente considerada “menos digital”.

No âmbito da contabilidade, que lacunas urge colmatar na vertente digital e de inovação para responderem às necessidades do mercado? Que apoio tem a APOTEC prestado nestas matérias?
A APOTEC é um espaço plural, de ensino e partilha de conhecimento, de apoio técnico especializado e multidisciplinar, que tem contribuído com as suas múltiplas valências para o desenvolvimento e crescimento das profissões em torno da Contabilidade e da Fiscalidade, preconizando a sobrevivência das organizações, o seu crescimento e inovação sustentável. Será no âmbito da Fiscalidade que urge por parte do Estado criar condições de inovação que sejam realmente eficazes e sem criar custos de contexto desnecessários para as organizações. Ser digital não é só ser através da internet, implica plataformas funcionais, adaptáveis e comunicativas, para que haja realmente vantagens para os profissionais.

Acredita que, hoje em dia, a profissão de contabilista é pouco atrativa para os jovens estudantes? E o que poderá ser feito para contrariar esta tendência?
A profissão de contabilista não é interessante para os jovens que são a classe mais digital do País, pelas mais diversas razões: subsiste a ideia que um contabilista é um burocrata; confunde-se contabilidade com fiscalidade; no ensino secundário não está contemplado explicar aos estudantes (muitas vezes com 17, 18, 19 anos) temas como o que é preencher um IRS, aceder ao site das Finanças ou da Segurança Social, validar faturas ou para que serve a Chave Móvel Digital, por exemplo. Para os jovens a contabilidade (que vista como sinónimo de fiscalidade) é um pesadelo porque ao longo da sua curta vida os estímulos que recebem são negativos.

Para os jovens a contabilidade é uma “chatice” porque os pais lhe transmitem essas mensagens.
Voltamos ao tema da literacia financeira. Os jovens crescem sem que as famílias lhes ensinem conceitos como “poupança”, “porque pagamos impostos”, muitos nunca viram uma fatura de luz, gás, comunicações, farmácia. Mas ouvem os desabafos dos pais quando a conta chega, e o rendimento não chega. Sobretudo “porque os impostos são elevados”. Há uma “aversão” natural aos impostos, por conseguinte, a contabilidade torna-se “uma contrariedade”, quando da realidade a contabilidade é essencial à governação.

Como é que se explica aos jovens o que é a inflação?
Creio que além da definição deste conceito, a maioria dos nossos jovens apesar de se aperceber do aumento do custo de vida, necessita que o ensino secundário seja reformulado também ao nível da disciplina de “cidadania”. É urgente mitigar a iliteracia financeira, e para isso há que começar no ensino.

De que forma é que a APOTEC pode apoiar e informar as empresas sobre os apoios que existem face à inflação?
Na realidade para as empresas, não existem grandes apoios, ou pelo menos apoios que pela burocracia do processo, as entidades não optem por desistir. O que fazemos enquanto Associação é informar prontamente todos os nossos associados das alterações legislativas, o envio de newsletters com regularidade, e ainda temos um jornal digital periódico. Temos uma forte presença nas redes digitais: Facebook, Instagram e Linkedin que funcionam com métricas distintas, mas onde damos nota das matérias que consideramos pertinentes.

Como é que se contraria a tendência crescente da inflação?
Portugal vive um momento complexo, a inflação superou os números de 1992, ou seja, há 30 anos quando a nossa moeda era o escudo. Em termos simples, assistimos a um aumento assustador do custo de vida e refiro-me unicamente a bens essenciais: habitação (juros), eletricidade, telecomunicações, água e alimentação.
Para contrariar esta tendência, os grupos económicos a par com o Governo têm que estar de acordo: não é possível baixar-se o IVA ou ter uma taxa zero em certos produtos quando a realidade ultrapassa estas alterações.

Existe esperança que os preços sejam reduzidos?
Sinceramente, não antevejo essa situação. Vamos ter cada vez mais pessoas com dificuldades no seu quotidiano. O custo de vida em Portugal é semelhante ao de muitos países europeus. No entanto, estamos no final da tabela quando se comparam remunerações.

Quais são os objetivos da APOTEC para 2023?
Em março assinalamos o nosso 46º aniversário, algo que em muito nos orgulha. Vamos lançar em maio um livro sobre desafios e soluções no âmbito da Justiça Tributária (resultante das conferências realizadas em 2022 com a presença de vários profissionais, nomeadamente, Juízes de áreas distintas); estamos a percorrer o País no âmbito das nossas formações técnicas presenciais (incluindo as regiões autónomas) e queremos cimentar o nosso projeto do Museu de Contabilidade. Na prática, o objetivo da APOTEC é coerente: fazer mais e melhor para os nossos associados (entre, eles também as empresas) e contribuir para a sociedade civil.

Ser associado da APOTEC
Os associados da APOTEC beneficiam de uma série de vantagens, entre descontos em todas as formações e numa rede de parceiros; um consultório técnico gratuito; o jornal da contabilidade e o apoio constante e permanente em qualquer questão pertinente para o associado. A quota para estudantes e desempregados é de  €2/mês. Já os singulares pagam €4/mês enquanto o valor para as empresas é de €19/mês.

Saiba mais: www.apotec.pt

PERFIL

Isabel Maria Cipriano, 49 anos, é Presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Contabilidade – APOTEC –  desde janeiro de 2022, embora seja quadro desta Associação desde o ano 2000. Foi a primeira mulher a ser eleita para dirigir a APOTEC desde o 25 de abril de 1974. Presença regular na imprensa portuguesa, participa também no programa Corporate Business, ao lado de Camilo Lourenço e José Pedro Farinha. Recusa fazer planos a longo prazo e acredita que será feliz em qualquer desafio profissional que a faça continuar a crescer enquanto pessoa e no qual possa retribuir as necessidades da sociedade. Vive em Lisboa, é casada e tem um filho adolescente.