Olho Seco na Criança: A Silenciosa consequência da Era Digital

O “olho seco”, clinicamente denominado de Síndrome do Olho Seco, refere-se a uma condição ocular em que há uma produção insuficiente de lágrimas ou uma evaporação rápida das mesmas, resultando em olhos que não estão adequadamente lubrificados. Esta insuficiência pode ser devida a vários fatores, desde alterações na composição das lágrimas, obstrução das glândulas lacrimais, até fatores ambientais.

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J. Salgado-Borges. MD, PhD, FEBO, Diretor Clínico da Clinsborges, Embaixador em Portugal do TFOS (Tear Film & Ocular Surface Society) e Membro da EUDES (European Dry Eye Society)
www.clinsborges.pt/www.salgadoborges.com

Historicamente, esta condição tem sido mais comummente associada aos adultos, particularmente entre indivíduos de idade mais avançada. Contudo, nas últimas décadas, tem-se observado uma tendência crescente da Síndrome do Olho Seco em faixas etárias mais jovens, incluindo crianças.
A prevalência desta patologia em crianças vem alertar para a necessidade de reconhecimento precoce e de uma abordagem adaptada.
A experiência e manifestação do olho seco nas crianças pode diferir significativamente da observada em adultos, o que impõe desafios diagnósticos e terapêuticos específicos na prática clínica oftalmológica.

Perceção do Olho Seco na Criança e no Adulto

Uma abordagem oftalmológica compreensiva deve sempre levar em conta as variabilidades entre os grupos etários. A perceção e a comunicação de sintomas relacionados ao olho seco diferem substancialmente entre crianças e adultos, tornando-se um desafio diagnóstico e terapêutico distinto.
As crianças, sobretudo as mais jovens, têm uma capacidade limitada em verbalizar ou elucidar a natureza exata do seu desconforto ocular. Em vez de descreverem a sensação de “ardor” ou “areia nos olhos”, frequentemente usadas pelos adultos, as crianças poderão simplesmente referir que os olhos “doem” ou que “não se sentem bem”. A falta de uma linguagem descritiva específica pode conduzir, por vezes, a diagnósticos tardios ou incompletos.
Ao contrário dos adultos, que frequentemente conseguem identificar e descrever os sintomas clássicos associados ao olho seco, as crianças podem não reconhecer ou expressar características específicas, como a secura ocular, comichão ou sensação de corpo estranho. Esta dificuldade é potenciada pelo facto de muitas crianças não possuírem o vocabulário ou a consciência necessária para diferenciar entre as diversas sensações oculares.
Esfregar os olhos é, sem dúvida, uma das manifestações comportamentais mais frequentes em crianças com desconforto ocular. Este gesto pode surgir como uma tentativa instintiva de aliviar a irritação. No entanto, é crucial compreender que esfregar os olhos pode, paradoxalmente, agravar os sintomas de olho seco e, em casos extremos, levar a lesões corneanas ou ao desenvolvimento de problemas como o ceratocone.

A Influência dos Aparelhos Digitais

Na era moderna, assistimos a uma imersão quase total na tecnologia, com aparelhos digitais desempenhando papéis cruciais na educação, comunicação e entretenimento das novas gerações. Esta revolução digital, embora com muitos benefícios, trouxe consigo uma série de preocupações no que se refere à saúde ocular, especialmente no contexto pediátrico.
Os jovens de hoje são nativos digitais. Desde tenra idade, interagem com tablets, smartphones e computadores, muitas vezes, em períodos mais prolongados do que as gerações anteriores. Estes dispositivos, concebidos para captar e manter a atenção, são frequentemente utilizados de forma contínua, seja para fins educativos ou recreativos, levando as crianças a passar uma quantidade significativa de horas diárias em frente a ecrãs.
Ao focar-se em aparelhos digitais, o olho humano tende a pestanejar menos frequentemente, reduzindo assim a repartição regular do filme lacrimal na superfície ocular. Com a frequência de pestanejos reduzida, o olho fica mais exposto ao ambiente, acelerando a evaporação da camada aquosa da lágrima e consequentemente levando ao desenvolvimento ou agravamento do olho seco.

O Impacto das Mudanças Sazonais – Enfoque no Outono

Durante o outono, o declínio das temperaturas e a baixa humidade relativa do ar são fenómenos comuns em várias regiões. Estas condições, juntamente com ventos mais fortes e frequentes, podem acelerar a evaporação da camada aquosa do filme lacrimal, contribuindo para o agravamento dos sintomas de olho seco.
Com a chegada do frio outonal, é habitual o uso de sistemas de aquecimento nos espaços interiores. Estes, ao reduzirem a humidade dos ambientes, podem causar desconforto ocular. Este fenómeno é particularmente relevante em ambientes fechados, onde as crianças passam grande parte do seu tempo, seja em casa ou na escola.
Recomenda-se o uso de humidificadores em espaços interiores para manter níveis adequados de humidade. Além disso, deve-se evitar correntes de ar diretas sobre os olhos, como as produzidas por aquecedores ou ventoinhas. Para as crianças, o uso de óculos de proteção em dias ventosos pode ser benéfico, bem como a promoção de pausas regulares para pestanejar e descansar os olhos.

Recomendações e Estratégias de Prevenção

No cenário atual, marcado pela ubiquidade de aparelhos digitais nas rotinas das crianças, a prevenção e a educação tornam-se as melhores ferramentas na gestão do olho seco.
O primeiro passo para mitigar o problema passa por informar os pais e encarregados de educação acerca das repercussões que o uso prolongado de aparelhos digitais pode ter na saúde ocular. Isto inclui não só a propensão para o olho seco, mas também outras potenciais complicações visuais.
Fundamental sublinhar uma recomendação que, embora possa parecer rigorosa, é vital para a proteção da saúde visual: evitar o uso de aparelhos digitais antes dos 3 anos de idade. Após esta fase, e excluindo necessidades escolares, o tempo passado em frente a ecrãs deve ser limitado a 45 minutos por dia. Estas medidas podem ser cruciais para reduzir o risco de problemas oculares relacionados com o uso intensivo destes equipamentos.
A regra 20-20-20 é uma prática simples e eficaz: a cada 20 minutos de uso contínuo de um aparelho, deve-se fazer uma pausa de 20 segundos e observar um objeto a cerca de 20 metros de distância. Esta prática ajuda a reduzir a tensão ocular e a manter o filme lacrimal estável.
Além disso, manter os olhos protegidos de correntes de ar, evitar ambientes demasiado secos e realizar compressas oculares mornas são práticas que podem auxiliar no conforto ocular.

Conclusão

O olho seco em crianças é uma realidade emergente que exige uma maior consciencialização por parte da sociedade. Os profissionais de saúde, educadores e pais têm um papel fundamental na deteção precoce e gestão deste problema, garantindo que as crianças mantenham uma saúde visual ótima. Em última análise, a regularidade das consultas oftalmológicas desde a infância é crucial, não apenas para detetar condições como o olho seco, mas para assegurar um desenvolvimento visual saudável e um futuro sem complicações visuais.