Um objetivo de Vida: Fazer a diferença no mundo da Psicologia

Marisa Marques, Psicóloga Clínica e da Saúde e uma verdadeira apaixonada por esta sua área, conversou com a Revista Pontos de Vista sobre as questões mais pertinentes da saúde. Conheça a sua visão profissional, clara e transparente sobre o tema.

193

Ao longo da sua carreira tem demonstrado paixão pelo seu trabalho e um compromisso forte com o bem-estar do próximo. Para começar, sendo psicóloga, o que é que mais a fascina nesta sua área de atividade? O que é que a motiva a dar o melhor de si, todos os dias?
Podia usar o cliché que muito ouvimos diariamente de que me apaixona porque gosto do contacto com as pessoas acima de tudo; porque me preocupo com o bem-estar das pessoas, porque gosto de conhecer histórias de vida, porque gosto de mostrar que tudo na vida tem duas faces da moeda. Mas na realidade isto é só 1/6 daquilo que me faz apaixonar pela minha profissão.
Também podia dizer que a base da minha felicidade no trabalho era a velha expressão “Escolha um trabalho que você ame e nunca terá que trabalhar”. Mas também não é até porque, nomeadamente na saúde e na área pediátrica temos sim que trabalhar com paixão e muita dedicação, pois sem ela não teremos a capacidade de chegarmos, de nos envolvermos e entrarmos no Mundo da Criança.
E mesmo amando aquilo que faço, trabalho muito e não deixa de ser duro, custoso e pesado. Não se enganem, não é tudo um mar de rosas. diariamente tenho de acordar bem-disposta, cheia de energia para enfrentar as dificuldades que me vão surgir, os desafios que virão e os problemas para resolver, mas de acordo com a Lei da Evolução Humana sabemos que “não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas aquele que melhor se adapta às mudanças”. E claramente este é o ingrediente mágico na paixão profissional.
E, além de todos os desafios e dificuldades diárias quer profissionais quer pessoais (pois sou um ser humano e também tenho os meus dias e as minhas fragilidades), é a adaptação a cada problema, a cada criança/adolescente, a cada família, que me fazem acordar apaixonada pelo meu trabalho. é aquela lágrima daqueles pais e/ou daquelas crianças que mais tarde são substituídas por sorrisos e palavras bonitas cheias de amor e gratidão, é ver aquela lesão e aquela perturbação de neurodesenvolvimento que deixa de ser uma limitação e passa a ser uma bênção e uma aprendizagem… É poder fazer a diferença na vida de alguém da forma mais genuína que possa existir.
Com a dose de trabalho, paciência, resiliência, equilíbrio, Eu-Pessoa e Eu-profissional faz com que possa exigir de mim ser mais e melhor todos os dias. Pois sou uma pessoa focada, determinada e ambiciosa, cujo meu objetivo enquanto pessoa e profissional não é ser apenas uma Psicóloga. Mas sim marcar a diferença no meu percurso e na minha atuação na área do Desenvolvimento e na área Pediátrica.

Como Psicóloga, tem estado envolvida em diversas áreas, desde a Clínica até à Pediatria e Neuroterapia. Poderia partilhar connosco um momento de realização profissional ou uma conquista significativa que a tenha inspirado na sua jornada profissional até então?
Nesta minha jornada que já conta com dez anos, foram diversos os momentos que me inspiraram e me fizeram sentir em plenitude na minha vida profissional. Aliás, foram vários os momentos e as pessoas com quem me cruzei que fizeram toda a diferença no meu caminho e no meu desenvolvimento enquanto Psicóloga, mas também enquanto pessoa.
Contudo são três momentos cruciais que destaco sempre que me questionam e que não me canso de mencionar:
Primeiro momento: ainda na licenciatura, num momento em que me sentia um pouco perdida pois não estava a encontrar a ligação entre o meu interesse (Neurociências – Cérebro e Pediatria) e a Psicologia. Foi aqui que conheci duas pessoas muito especiais, a Dra. Sandra Carvalho e o Dr. Jorge Leite, com quem trabalhei, aprendi, cresci e sorri imenso ao longo de quatro anos no Laboratório de Neurociências – Neuromodulação da Escola de Psicologia da Universidade do Minho.
Posteriormente no exato momento que entro no Mundo real do que é trabalhar cruzei-me na Unidade de Neonatologia e Pediatria com uma Mulher fantástica e que hoje olho e vejo como uma mentora e será assim para sempre, a Dra. Sara Almeida Girão com quem aprendi e com quem descobri qual seria efetivamente o meu caminho profissional. Esta foi, sem dúvida, uma das minhas maiores escolas da vida.
E por último, faz agora dia 2 de março quatro anos do momento da minha evolução e dos melhores reconhecimentos profissionais que tive: o convite e a proposta para me juntar à equipa dos Hospitais Trofa Saúde pelo Dr. Bruno Silva e Pedro Morais, que claramente, graças a este voto de confiança, consegui fazer toda a diferença: permitindo evoluir, crescer, estudar e diferenciar-me.

Sendo uma Profissional que valoriza o trabalho em equipa e o sentido de responsabilidade, como tem vindo a ser a sua experiência em diversas instituições e organizações, como a Cruz Vermelha Portuguesa e o Hospital Trofa Barcelos, na promoção da saúde mental e no apoio às pessoas em situações de crise e emergência?
A minha atuação nos Hospitais Trofa cinge-se, somente, à área interventiva e remediativa. Pois quando os pacientes nos chegam à consulta já vêm com patologias já instaladas ou num estado-limite de evolução.
Quanto à Cruz Vermelha que frequento desde a minha entrada na idade adulta e onde comecei como TAT passando em 2017 até à data a Chefe de Equipa Psicossocial onde a área da saúde mental esta sob a minha alçada. Aqui foram várias oportunidades de atuar em situações de crise e emergência onde realço dois momentos importantes para mim e que marcaram: a altura dos Incêndios de Pedrógão e durante os anos pandémicos. Onde o foco era minimizar e controlar o impacto destes incidentes críticos e prevenir o desenvolvimento de psicopatologias relacionados com o trauma nas pessoas afetadas e envolvidas nos cenários (quer direta ou indiretamente).
E eu, pessoalmente, enquanto Psicóloga e como ser humano, prezo muito a intervenção em crise e com base nos acontecimentos que têm vindo a ser cada vez mais frequentes no nosso dia a dia, e tendo em conta as suas repercussões e impacto na vida das pessoas, torna-se fulcral e essencial uma intervenção rápida e ajustada a cada situação e a cada vítima.

Celebramos, neste mês de março, o Dia Internacional da Mulher – uma data de grande importância histórica e social. Olhando para o seu caminho até hoje e para o sucesso que tem traçado, qual é o significado desta efeméride para si, tanto a nível pessoal como profissional?
Após esta questão surgem-me de imediato três características importantíssimas que devem fazer parte do quotidiano de uma Mulher, nomeadamente uma Mulher profissional: foco, determinação e ambição. Nada daquilo que podemos e queremos alcançar diariamente na nossa vida profissional será alcançável sem estas características. Sinto, claramente, que é esta ambição que me faz querer não ser apenas uma Psicóloga. Mas sim marcar a diferença no meu percurso e na minha atuação na área do NeuroDesenvolvimento e na área Pediátrica e marcar a diferença diariamente junto da minha família e amigos. Bem como abraçar novos projetos, novos desafios e novas emoções em todos os campos.

Considerando o tema do empoderamento feminino e da luta pelos direitos das Mulheres, acredita que, atualmente, estamos no caminho devido em direção à igualdade de género? Como se encontra esta questão no mundo da Psicologia em Portugal?
As questões de igualdade de género serão sempre sensíveis. são várias as opiniões e visões dos colegas, nomeadamente na psicologia. Mas a realidade é que a marca da desigualdade se mantém em várias áreas, contribuindo para a propagação de situações de vulnerabilidade. Aliás, em pleno século XXI, os dados revelam que o desemprego continua a afetar mais mulheres do que homens, desigualdades salariais, a “pressão do corpo perfeito” e os seus impactos, estereótipos sociais, acesso à educação e o risco de pobreza. Ainda a questão de que a mulher continua a assumir na maior parte das vezes o cuidado a terceiros, a gerir uma complexa multiplicidade de papéis em simultâneo, muitos deles associados ao trabalho doméstico, que muitas vezes é invisível e que desta sobrecarga resulta também a falta de espaço e de tempo na mulher para a prática do autocuidado e daí resulta uma multiplicidade de consequências, nomeadamente a nível psicológico e mais tarde relacional (família e trabalho). E muitas vezes esta desigualdade leva ao aparecimento de quadros clínicos de ansiedade e depressão.
Apesar de diariamente ser feito um trabalho excelente, através das intervenções, por todos nós da área da Saúde Mental, a realidade é que continua a ser uma área emergente de intervenção que requer a nossa atenção enquanto sociedade.

Gostaríamos de saber qual é a sua visão para o futuro das Mulheres, especialmente no que diz respeito à sua saúde mental e realização pessoal e profissional. Como podemos continuar a promover um ambiente mais inclusivo e equitativo para todas as Mulheres?
Como disse anteriormente continua a ser extremamente importante trabalharmos individualmente e enquanto sociedade para alcançarmos um ambiente inclusivo e equitativo. este trabalho honestamente deve começar ainda no berço, onde educamos as crianças para este cenário e mais tarde deverá ser mantido hierarquicamente, quer nas escolas, grupos sociais e nas empresas e organizações.

Por fim, falemos do seu futuro. Em todas as vertentes da vida, o que almeja alcançar?
Claramente, como toda a mulher, são muitos os desejos que tenho num futuro a curto e médio prazo. E um que é transversal a todo o meu caminho até hoje é o facto de ser uma pessoa focada, determinada e ambiciosa e que mantenho diariamente o objetivo de não ser apenas uma Psicóloga. Mas sim marcar a diferença no meu percurso e na minha atuação na área do Desenvolvimento e na área Pediátrica.
E isso proporcionar-me-á sempre para uma atuação e uma necessidade de recorrer à diferenciação e à inovação em tudo aquilo que faço.