“A buildingSMART Portugal representa todos os que estão interessados no BIM”

José Carlos Lino, Presidente da buildingSMART Portugal, em entrevista à Revista Pontos de Vista, deu a conhecer como o BIM (Building Information Modelling) é cada vez mais importante para se alcançar novos níveis de redução de custos, tempos de execução e aumentar a qualidade no setor da construção. Saiba mais.

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Desde a fundação da buildingSMART Portugal, a Associação tem trabalhado arduamente para promover a utilização de normas abertas de interoperabilidade no setor da construção. Poderia descrever os principais marcos e conquistas da mesma ao longo dos anos?
Olhando pelo retrovisor para estes dois anos iniciais da buildingSMART Portugal penso que podemos sentir-nos orgulhosos e ambiciosos em relação ao futuro. Mesmo com escassez de recursos financeiros colocamos em funcionamento o website, as redes sociais, a newsletter e múltiplos eventos e apresentações onde difundimos a missão e os objetivos. Conseguimos parcerias e iniciativas conjuntas com várias instituições e autoridades, mesmo ao nível do governo. Granjeamos o reconhecimento da buildingSMART Internacional e também de outros capítulos tendo inclusivamente concretizado importantes acordos de cooperação com a buildingSMART Espanha e a buildingSMART Brasil. Promovemos várias MasterClasses e Webinares, e produzimos vários documentos dos quais destacaria o recente EIR baseado na ISO19650 e colocamos a certificação profissional a funcionar bem como os diversos domínios. Tem sido agitado.

O Building Information Modelling (BIM) tem sido uma peça central nas discussões sobre a eficiência e a inovação no setor da construção em Portugal. Como tem sido a evolução do BIM no país? Quais são os setores da indústria da construção que têm mostrado maior resistência e quais os mais recetivos à implementação da metodologia?
O BIM em Portugal teve as três eras: a era dos pioneiros, onde se questionava ainda o BIM, a era do BIM aplicado, centrada no software e no Modelo e agora estamos na 3ª era, a do verdadeiro BIM. O BIM federado e colaborativo. O BIM normalizado e legislado. Ou seja, o openBIM. O BIM suportado por protocolos abertos de interoperabilidade entre softwares distintos. Como temos podido constatar a maturidade do BIM tem evoluído muito em Portugal. Começou pelos projetistas, mais tarde chegou aos construtores e agora, finalmente, atingiu os donos de obra e os gestores dos equipamentos bem como as entidades públicas.

Quando comparamos Portugal com outros países europeus relativamente à adoção e implementação do BIM, onde nos posicionamos? Existem países que considera como referência em práticas de BIM e que Portugal poderia seguir?
Falar de comparações entre países implica que sistematizemos qual o BIM que queremos comparar. É o BIM do governo desse país? É o BIM do mercado desse país? Ou é o BIM nas universidades e institutos de investigação? Portugal tem tido iniciativas que não ficam nada atrás do que de melhor se faz no mundo. O que acontece é que muitas vezes são iniciativas isoladas, não disseminadas pelo setor. Muitas vezes assistimos à reinvenção da roda em distintos pontos do país e por atores diferentes o que seria desnecessário se conseguíssemos alguma uniformidade e colaborássemos mais.
Claro que há países que nos continuam a servir de faróis nas implementações BIM de nível nacional, dos quais destacaria os países Nórdicos, que há mais de 20 anos colocaram o openBIM como obrigatório, o Reino unido com uma das mais consistentes e bem estruturadas mudanças de legislação para integrar o openBIM, mas mesmo a vizinha Espanha ou o Brasil merecendo destaque pelas iniciativas legislativas definidas e reafirmadas com planos progressivos de implementação. Penso que Portugal, com as últimas ações legislativas, deu um grande salto posicionando-se logo após o pelotão da frente.

A integração entre as universidades e a indústria é vital para o avanço tecnológico. Como tem sido a colaboração entre universidades e empresas no contexto do BIM em Portugal? Existem programas ou parcerias de destaque que promovam esta sinergia?
Quando o BIM apareceu, e aos olhos dos ditos pioneiros, foi imediatamente percebido como disruptivo, paradigmático e inevitável, mas não foi o caso das universidades. Agora, com agrado, podemos constatar, de modo mais ou menos concertado, que as universidades e politécnicos investem em programas BIM de pós-graduação, em teses e dissertações e mesmo em núcleos de investigação em BIM. A ligação entre universidade e mundo empresarial, neste como noutros tópicos, podia ser muito mais ativa e pragmática, mas aí também se têm encontrado mudanças, com várias empresas a promoverem essas parcerias de modo a poderem sustentar algumas candidaturas a programas de inovação. Um dos grandes défices da indústria é a urgente necessidade de competências BIM qualificadas e certificadas e as universidades, junto com os institutos de formação, podem e devem desempenhar aqui um papel essencial.

Uma das grandes vantagens do BIM é a capacidade de prever e coordenar problemas antes mesmo de iniciarem as obras, evitando custos desnecessários. Para melhor entender, de que forma essa antecipação tem impactado o orçamento e os prazos dos projetos?
Essa é realmente uma das principais consequências e vantagens do BIM. Antecipando erros e conflitos, controlamos melhor a obra evitando retrabalho logo derrapagens nos prazos e nos custos. Mas seria injusto excluir muitas outras vantagens que o BIM proporciona, como seja a possibilidade de visualizar um modelo digital representativo do que queremos construir ou do que estamos a operar, podendo viajar nele ou saber informação sobre os seus objetos e componentes, ou quantificar toda uma obra ou planear o seu tempo de duração. Ainda recentemente no último PTBIM que decorreu em maio, pudemos constatar o testemunho de múltiplos atores desde projetistas a operadores a descreverem os ganhos que tiveram e os problemas que evitaram ao adotar esta metodologia em dezenas de casos de uso.

A sustentabilidade é uma preocupação crescente na construção moderna. Em que medida o BIM contribui para a sustentabilidade dos edifícios em termos de eficiência energética, utilização de materiais e gestão de recursos?
O BIM é uma peça essencial na garantia da sustentabilidade da construção pois permite representar e analisar os equilíbrios energéticos e a análise do ciclo de vida dos materiais e dos componentes da construção. Essa representação extravasará o edifício ou a infraestrutura e poderá estender-se a todo o espaço construído permitindo tomar decisões globais sobre as cidades e sobre os equipamentos. Permitirá perceber os fluxos de pessoas de transportes de energia, de desperdícios e também onde e como deveremos apostar para as fontes de energia que dão vida a estas comunidades. As cidades inteligentes do futuro são aquelas que conhecerão estes indicadores ao segundo e sobre eles tomarão decisões conjunturais, mas também estruturantes.

A partir de 1 de janeiro de 2030, será obrigatória a apresentação de projetos de arquitetura modelados digital e parametricamente segundo o BIM em Portugal. Qual é a sua opinião sobre esta obrigatoriedade? Considera que Portugal está preparado para esta transição?
Considero que foi uma decisão estratégica muito acertada de tornar o openBIM obrigatório e em linha com o que se está a fazer noutros países da União Europeia. Penso que as especialidades também poderiam ser envolvidas. Além disso, a ideia de termos uma plataforma única de licenciamento urbano PEPU, também me parece uma boa ideia.
De qualquer modo, tecnicamente, penso que ainda temos um percurso a fazer para suportar taticamente este mandato. Talvez pudéssemos aproveitar esta iniciativa para construir uma comissão técnica especializada a nível de poder central, mas também regional. Não temos nos nossos ministérios especialistas em BIM. Necessitaríamos de uma equipa de trabalho interministerial, transversal, que além dos técnicos de arquitetura e engenharia e dos informáticos, também incluísse juristas e legisladores, proporcionando um enquadramento técnico adequado e de suporte à decisão política. Até porque ainda nos falta abordar o CCP e a obrigatoriedade da contratação pública ser feita em openBIM. Muitos países já o fazem e Portugal não deveria esperar a inevitável ordem da união europeia para se antecipar e se começar a preparar nesta área.

Considerando a evolução contínua e a crescente adoção do BIM pelas empresas do setor da construção, qual é a visão da buildingSMART Portugal para os próximos anos? Como é que a Associação planeia adaptar-se e continuar a liderar a promoção desta metodologia?
A buildingSMART Portugal representa todos os que estão interessados no BIM e no openBIM em particular. Com essa representatividade, queremos continuar a liderar o desenvolvimento das normas, dos protocolos e dos fluxos de trabalho abertos, integrados na estratégia e na orgânica da buildingSMART internacional, mantendo os nossos princípios de interoperabilidade, relevância para o setor, transparência e sustentabilidade. Temos desafios pela frente sendo a limitação de recursos disponíveis um dos principais, mas mesmo com essas limitações a buildingSMART Portugal tem conseguido estar na linha da frente do desenvolvimento e tem contribuindo significativamente para a disseminação e o aumento da maturidade do openBIM em Portugal. Estou convicto que o vamos continuar a fazer.