BIM – Importância na área do projeto de Conservação e Restauro

Qual é o papel do BIM (Building Information Modelling) no domínio dos processos de conservação e restauro? Cristina Pedrosa, Arquiteta da Conservation Practice, e que desenvolve e coordena projetos de arquitetura e de conservação patrimonial, a par da implementação da metodologia BIM, em entrevista à Revista Pontos de Vista, abordou como a marca tem apostado no BIM e como está focada em explorar o mesmo como recurso, com todas as potencialidades e adaptando-as às necessidades da Conservation Practice.

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A Conservation Practice foi criada para preencher uma lacuna no mercado português, focando-se exclusivamente na preservação do património construído. Neste sentido, quais diria que são, na sua opinião, os fatores que diferenciam a marca no setor?
A Conservation Practice é uma empresa de natureza técnica, especializada na consultoria e projeto na área do património cultural construído, com “ADN” de Arquitetura. Trata-se de uma empresa de características singulares, numa área onde tradicionalmente não há profissionais que não sejam do setor público, sendo constituída por uma equipa que engloba as especialidades de Arquitetura, Conservação e Restauro, História de Arte e Engenharia Civil, contando também com um Arqueólogo especialista em Património Mundial. Esta abrangência multidisciplinar permite-nos trabalhar nas diferentes escalas envolvidas na conservação e gestão do património, com o desenvolvimento de projetos de restauro, o apoio a projetistas, a consultoria a instituições gestoras de sítios classificados, até à escala do Património Mundial.

O património construído tem uma importância significativa para a economia local. Poderia partilhar alguns exemplos de como os projetos da Conservation Practice têm contribuído para o desenvolvimento económico e social das comunidades locais?
Os edifícios históricos são um ativo importante nas cidades, do ponto de vista económico, cultural e identitário. Muitos dos nossos clientes são promotores imobiliários e ateliers de arquitetura que nos procuram para os ajudarmos a encontrar as melhores soluções de projeto em imóveis com valor patrimonial, em articulação com as entidades que tutelam o Património.
Temos também desenvolvido estudos de capacidade de carga vocacionados para sítios com elevada congestão turística – dos quais destacamos os estudos para a Quinta da Regaleira, em curso (Fundação CulturSintra) e para o Palácio Nacional da Pena (Parques de Sintra-Monte da Lua), realizado em 2019. O plano estratégico que apresentámos contribuiu para a implementação de medidas de gestão, por parte da Parques de Sintra, com vista a uma melhor qualidade da visita e de melhores condições para a conservação do monumento.
Estamos, também, a desenvolver uma candidatura a Património Mundial transeuropeia, envolvendo oito países, referente aos Sítios de Cluny. O cliente é francês – a Fédération Européene des Sites Clunisiens – e a candidatura está a ser desenvolvida em colaboração com um escritório espanhol, do Arquitecto Enrique Saiz Martin. Um sítio classificado como património mundial ganha um selo de qualidade reconhecido internacionalmente, que funciona como um veículo de desenvolvimento local e que, ao mesmo tempo, compromete as autoridades locais com o desenvolvimento sustentável e com a salvaguarda dos valores culturais que lhe valeram a classificação.
O processo de candidatura está a ser desenvolvido com a participação das comunidades locais de cada sítio, de acordo com as políticas e boas práticas promovidas pela UNESCO.

Certo é que, a Conservation Practice está a fazer a transição para a utilização da metodologia BIM no âmbito do restauro do património arquitetónico. O que motivou esta transição?
Perante o potencial do BIM para o conhecimento aprofundado dos edifícios e para a gestão centralizada de toda a informação que lhe está associada, consideramos que a sua implementação no setor do património construído é fulcral e foi nesse sentido que, em 2023, iniciámos a transição para o BIM.
Os projetos de restauro de edifícios revestem-se de uma enorme complexidade, assentam numa profunda colaboração interdisciplinar e conciliam diversos requisitos, muitas vezes antagónicos. Acresce que, no contexto dos edifícios históricos, a informação disponível encontra-se muitas vezes dispersa, quer em formato físico, quer em formato digital.
Os levantamentos gráficos, quando digitais, são maioritariamente em 2D e elaborados por métodos manuais, com margens de erro, por vezes, consideráveis. As tecnologias associadas à metodologia BIM vêm abrir caminho para a otimização de todos estes processos, constituindo, assim, um importante contributo para o registo, conservação e salvaguarda dos edifícios históricos.

Para melhor entender, de que forma o BIM está a ser integrado nos processos de conservação e restauro?
Estamos focados em explorar o BIM como recurso, com todas as suas potencialidades, adaptando-o às nossas necessidades. Começámos este caminho com o projeto de Restauro do Teto Mudéjar da Capela do Palácio Nacional de Sintra, com o apoio científico do Instituto Superior Técnico, partindo de uma nuvem de pontos já existente e procurando aplicar a metodologia de restauro ao processo de modelação e ao tratamento da informação (como valor patrimonial, patologias, análises de laboratório e ações de restauro).
Para além da modelação, este processo envolveu a programação de bases de dados que comunicam com o modelo e que permitem “alimentá-lo” com informação de forma expedita, num processo moroso de experimentação que foi evoluindo e amadurecendo, focado nos outputs que pretendíamos obter. Este processo tem levado a uma grande adaptação da equipa, das funções, do modo de trabalho e da gestão de tempos de trabalho, bem como a um esforço de investimento em computadores com melhor desempenho, em software e em formação.
Embora a transição para BIM seja um processo lento e complexo, estamos fascinados com as potencialidades de representação gráfica, de análise e de gestão da informação que o BIM nos permite. O projeto de Conservação e Restauro do Teatro Nacional de São Carlos, no qual estamos envolvidos, está a ser um mais uma excelente oportunidade de aprofundar o recurso ao BIM nesta área.

A integração do BIM no restauro de património arquitetónico também pode ter um impacto significativo na sustentabilidade dos projetos. Assim, em que medida o BIM contribui para a sustentabilidade na conservação do património, em termos de eficiência energética, utilização de materiais e gestão de recursos?
Costuma-se dizer que o edifício mais sustentável é aquele que já existe.
O nosso trabalho é manter, ou preservar, o mais possível o existente – sobretudo os elementos com valor histórico ou arquitetónico – e desempenhar um papel de mediação com os promotores neste sentido. O BIM permite ter visibilidade de todos os elementos de um edifício e assegura a sua quantificação e a atribuição de parâmetros de energia incorporada, possibilitando, de forma muito ágil, prever cenários de utilização expedita de materiais. É importante para nós saber gerir as transformações nos edifícios, entre construção e demolição, no sentido de melhorar o seu desempenho energético e ambiental. Estamos muito atentos à reutilização de materiais e elementos e à preservação física das pré-existências.

A adoção de novas tecnologias, como o BIM, é uma tendência crescente na conservação do património. Como observa a evolução desta ligação entre a tecnologia e a conservação do património nos próximos anos?
Dado que o enquadramento legal em Portugal incorporou recentemente a implementação faseada do BIM, a transição para esta metodologia será incontornável em todos os setores da construção. As ferramentas BIM ainda estão muito vocacionadas para a construção nova, pelo que a sua aplicação a projetos de restauro implica um esforço acrescido e alguma criatividade na identificação das potencialidades e dos limites das ferramentas. Acreditamos que os projetistas terão de acompanhar a evolução tecnológica na área e contribuir para a mudança, nomeadamente colaborando com as empresas de software BIM e desenvolvendo competências de programação específicas para adaptação aos seus processos de trabalho.
A tecnologia evolui muito depressa e as empresas estão a tentar adaptar-se, embora muitas vezes resistindo e permanecendo nos “velhos” métodos de trabalho e meios tecnológicos – tanto pela dura curva de aprendizagem como pelo esforço financeiro necessário para a transição BIM. Entre outros fatores, será importante haver vontade política para apoiar as empresas neste desafio.

Olhando para o futuro, quais são as perspetivas e objetivos da Conservation Practice? Que novidades ou projetos futuros estão a ser planeados para que a empresa continue a inovar e a liderar no campo da conservação do património construído?
Queremos continuar a ser a melhor referência nesta área em Portugal, não perdendo de vista a internacionalização (colaborações externas). Neste sentido, queremos reforçar as nossas competências com uma forte aposta no BIM para a área do projeto de restauro, com produção própria de levantamentos com laser scanning, trabalho com bases de dados patrimoniais, gestão da eficiência energética em edifícios históricos e recurso a inteligência artificial para desenvolvimento de ferramentas adaptadas ao nosso trabalho.