Docente do Ensino Superior e gestor com vasta experiência em finanças empresariais, Nelson Neves é um especialista reconhecido em processos de reestruturação e recuperação de empresas. À Revista Pontos de Vista, partilhou a sua visão sobre as novas tabelas de IRS em vigor este ano, analisando os potenciais impactos positivos destas medidas, tanto para os trabalhadores, como para as empresas. Uma reflexão clara e objetiva sobre o equilíbrio entre justiça fiscal, poder de compra e sustentabilidade empresarial.
Qual é a sua opinião sobre as novas tabelas de retenção de IRS para 2025? Acredita que estas medidas terão um impacto significativo nos rendimentos líquidos dos trabalhadores e pensionistas?
As novas tabelas de retenção de IRS para 2025 representam uma tentativa de maior precisão fiscal ao longo do ano, ajustando a retenção mensal ao imposto efetivamente devido. Contudo, a medida, apesar de tecnicamente sólida, pecou na forma como foi comunicada. Muitos contribuintes associam “retenção menor” a “mais rendimento disponível”, esquecendo-se de que o IRS é um imposto anual e não mensal. O impacto nos rendimentos líquidos existe, sim, mas não é uniforme. Para alguns será positivo, para outros neutro e para outros, ainda poderá até representar um agravamento.
A falta de clareza na explicação ao público acabou por gerar desconfiança e confusão generalizada.
A atualização dos escalões de IRS em 4,6% e o aumento do salário mínimo nacional para 870 euros são medidas positivas para os trabalhadores. Na sua perspetiva, que desafios estas mudanças poderão trazer para o tecido empresarial?
Estas medidas são claramente favoráveis ao rendimento dos trabalhadores, sobretudo os de menores rendimentos. No entanto, para as empresas, representam um aumento direto da massa salarial, a que se juntam os encargos sociais e uma possível pressão sobre as remunerações em geral. As PME, em particular, podem ver-se forçadas a cortar em investimento, reduzir pessoal ou até adiar projetos de expansão. O risco é real: ao tentar melhorar o poder de compra de forma direta, o Estado pode estar, involuntariamente, a estrangular a capacidade produtiva de quem gera emprego.
Considera que estas alterações podem influenciar a capacidade económica dos trabalhadores de forma positiva? Que setores poderão ser mais beneficiados ou prejudicados?
Sim, no imediato, o rendimento disponível pode aumentar ligeiramente para uma faixa relevante de trabalhadores, o que pode estimular o consumo interno. Setores ligados ao consumo corrente — como retalho, restauração, supermercados e serviços pessoais — poderão ser os principais beneficiados. Contudo, setores com forte dependência de mão-de-obra intensiva e pouco qualificada — como agricultura, construção civil e hotelaria — serão os mais prejudicados, pois sentem diretamente o aumento dos custos salariais sem, necessariamente, beneficiarem da subida do consumo interno.
Muitos trabalhadores que fizeram simulações constataram uma possível diminuição das receitas face a 2024, ou até a necessidade de pagar ao Estado. Como interpreta este cenário? Acredita que há falhas na comunicação ou compreensão das novas tabelas?
Este cenário resulta de uma mudança na lógica de retenção: agora, a ideia é aproximar o imposto retido do imposto devido. Isso significa menos reembolsos — o que, para muitos, parece uma perda. Na prática, não é, mas é compreensível que assim seja sentido. O problema aqui foi, sem dúvida, uma falha grave na comunicação institucional. A forma como as tabelas foram apresentadas ao público criou expetativas irrealistas. Não se pode mudar o método de retenção de IRS sem uma campanha clara, acessível e pedagógica. Faltou sensibilidade e planeamento político.
Com as eleições à vista, se houver uma mudança de orientação política no Governo, quais são as suas expetativas em relação à continuidade destas medidas fiscais? Poderá haver um retrocesso ou ajustes significativos?
As eleições poderão alterar o rumo destas políticas, especialmente se o próximo Governo tiver uma visão mais liberal ou conservadora da política fiscal. Um retrocesso completo é improvável, porque implicaria reestruturar todo o modelo de retenção de novo. No entanto, ajustes pontuais — nos escalões, nas taxas marginais ou até na forma como se comunica o imposto — são bastante prováveis. Qualquer Governo, independentemente da sua cor política, estará atento ao impacto real e à perceção pública destas medidas.
Na sua perspetiva, como os líderes e empresários poderão mitigar possíveis impactos negativos destas mudanças nas suas organizações?
A chave está em antecipar. Os líderes empresariais devem fazer simulações, rever estruturas de custos, ajustar projeções salariais e, acima de tudo, manter uma comunicação interna clara com as suas equipas. É importante que os trabalhadores entendam que o contexto mudou e que as empresas estão a adaptar-se. Por outro lado, apostar na eficiência operacional e na digitalização poderá ajudar a compensar os encargos acrescidos. Não é momento para cortes cegos, mas para gestão estratégica e realista.
Acredita que estas alterações podem desencadear um aumento na capacidade de consumo e, consequentemente, impulsionar alguns setores da economia? Que tipo de empresas poderiam beneficiar deste efeito?
Em teoria, sim — mas com reservas. O ligeiro aumento do rendimento disponível pode, em muitos casos, ser absorvido por encargos fixos (renda, crédito à habitação, energia), o que limita o seu efeito multiplicador. Ainda assim, empresas ligadas ao comércio local, bens de consumo imediato, tecnologia e serviços de proximidade podem beneficiar. Por outro lado, os setores industriais ou exportadores, que não são diretamente alimentados pelo consumo interno, não verão grandes vantagens e sentirão mais o peso do aumento dos custos.
Que estratégias financeiras recomendaria para empresas e trabalhadores melhor se prepararem para estas mudanças?
Para as empresas, recomendo uma análise aprofundada do impacto fiscal e salarial, a reavaliação dos modelos de remuneração e a aposta em políticas de retenção de talento que não dependam exclusivamente do salário. Para os trabalhadores, o essencial é fazer um orçamento atualizado, simular o impacto da nova retenção, e reservar mensalmente uma pequena margem para o acerto de IRS. A poupança prudente e o controlo emocional sobre o rendimento mensal vão fazer toda a diferença na perceção do impacto destas medidas.
Considera que a implementação destas medidas foi bem estruturada? Que sugestões faria para melhorar o impacto positivo e mitigar efeitos negativos?
Não considero que tenha sido bem estruturada. A reforma foi demasiado silenciosa para o impacto que tem no rendimento das pessoas. Houve falta de preparação, tanto técnica como comunicacional. Para melhorar, seria essencial lançar simuladores mais intuitivos, comunicar com mais proximidade e clareza, e articular melhor com as empresas e os profissionais da contabilidade.
Acima de tudo, deve haver uma abordagem mais transparente — porque os portugueses compreendem as mudanças, desde que sintam que lhes estão a dizer a verdade.

