Num setor onde os números são protagonistas, Liliana Rodrigues desafia o paradigma tradicional da contabilidade ao trazer para o centro da equação aquilo que, para muitos, parecia estar a desaparecer: o lado humano. Fundadora da marca People (Ac)Counts e consultora em gestão de negócios e Recursos Humanos, Liliana defende que, mesmo numa era dominada pela automação e pela Inteligência Artificial, o verdadeiro diferencial continuará a residir nas pessoas. Saiba mais nesta entrevista à Revista Pontos de Vista!
Do ponto de vista da gestão de pessoas, quais são os principais desafios na preparação de profissionais de contabilidade para um futuro cada vez mais digital e automatizado?
Diria que o maior desafio está em conseguir acompanhar a evolução tecnológica sem perder o lado humano. A verdade é que a tecnologia veio para ficar — e bem — mas ainda existe alguma resistência à mudança, sobretudo por parte de profissionais habituados a métodos mais tradicionais.
A tecnologia vem para facilitar, mas exige uma nova postura: mais adaptabilidade, pensamento crítico e capacidade de interpretar dados com visão estratégica.
Preparar equipas para esse futuro exige muito mais do que ensinar ferramentas: é preciso criar uma cultura de confiança, onde a aprendizagem contínua seja incentivada, os erros sejam vistos como parte do processo e o desenvolvimento humano caminhe a par do desenvolvimento técnico.
Na sua perspetiva, quais são as competências humanas que nunca poderão ser substituídas por máquinas, especialmente na área da contabilidade e consultoria financeira?
A escuta, a empatia e a capacidade de construir relações de confiança são insubstituíveis.
Na People (Ac)Counts, defendemos uma contabilidade humanizada porque acreditamos que interpretar um relatório ou ajudar um cliente numa decisão crítica exige sensibilidade, contexto e visão de negócio — algo que nenhuma máquina pode replicar.
Na People (Ac)Counts acreditamos que os números contam histórias — e só com sensibilidade, ética e uma boa dose de humanidade conseguimos interpretá-las da forma certa. A confiança, o cuidado e o olhar personalizado são profundamente humanos.
Como a formação contínua pode acompanhar a rápida evolução tecnológica e preparar os profissionais para a integração da Inteligência Artificial no seu dia a dia?
A formação precisa de ser prática, flexível e, acima de tudo, útil. Não basta fazer formações longas e formais — precisamos de soluções acessíveis, com aplicação direta ao trabalho. Microformações, conteúdos curtos e direcionados, ferramentas intuitivas…
Tudo isso ajuda a integrar a tecnologia sem medo. Mais do que saber como funciona uma ferramenta de IA, é importante entender como pensar com ela, como manter o senso crítico e como tirar valor da tecnologia sem perder a visão estratégica.
A marca People (Ac)Counts representa uma visão humanizada da gestão e da contabilidade. De que forma essa abordagem pode ser integrada num contexto cada vez mais tecnológico?
Acredito profundamente que a tecnologia deve estar ao serviço das pessoas — e nunca o contrário. A tecnologia não anula o lado humano — pelo contrário, deve amplificá-lo.
Na prática, o que fazemos na People (Ac)Counts é usar a automação e os sistemas como aliados para ganhar tempo e clareza. Isso permite-nos estar mais disponíveis para o que realmente importa: escutar os clientes, compreender o contexto dos seus negócios e ajudá-los a tomar decisões informadas, com confiança. O acompanhamento é próximo, adaptado a cada realidade e com uma linguagem simples. Não acreditamos em relatórios que só os técnicos entendem. Acreditamos na utilidade real da informação e no poder de uma relação de confiança.
Como as empresas e as entidades formadoras podem colaborar para desenvolver programas mais eficazes e alinhados com as exigências do futuro profissional na área da contabilidade?
Tem de haver diálogo. Muitas vezes, os programas de formação ficam aquém porque não partem da realidade concreta do terreno. Quem forma precisa de escutar quem está a viver os desafios da profissão no dia a dia. A formação eficaz acontece quando se junta a teoria à prática, e quando se entende que o futuro do setor depende tanto do domínio técnico como das competências humanas. Parcerias entre empresas e formadores que construam conteúdos em conjunto, com exemplos reais, linguagem acessível e foco em soft skills— comunicação, empatia, gestão de tempo e pensamento crítico – são, para mim, o caminho.
Que papel acredita que os líderes de equipas e gestores de RH devem assumir nesta transição digital dentro das organizações?
O papel do líder mudou — ou devia ter mudado. Devemos ser facilitadores da mudança e não apenas gestores de processos. Já não basta gerir tarefas e controlar prazos.
Um líder, hoje, precisa ter sensibilidade para perceber bloqueios, promover um ambiente de aprendizagem contínua e ser o primeiro a dar o exemplo. Hoje, é essencial saber ouvir, acompanhar e ajudar a crescer. Um líder que aprende, que experimenta e que assume que também está em processo de adaptação, inspira confiança.
A transição digital exige disponibilidade emocional, capacidade de perceber resistências e, acima de tudo, o exemplo. Esta mudança não é só tecnológica — é, acima de tudo, uma mudança de mentalidade.
Mais do que controlar, o desafio é inspirar, apoiar e desenvolver. E quem lidera tem de estar na linha da frente dessa transformação.
Gostaria de deixar alguma mensagem final para os leitores da Revista Pontos de Vista, especialmente para os jovens profissionais que estão a entrar agora no setor?
Sim: não tenham receio de trazer o vosso lado humano para a profissão. Há cada vez mais espaço para quem pensa de forma crítica, comunica com empatia e vê nos números mais do que obrigações fiscais.
A contabilidade não está a acabar — está a evoluir, e com ela vem a oportunidade de fazer diferente e melhor. E há espaço, mais do que nunca, para quem alia conhecimento técnico a inteligência emocional e visão de futuro. Aprendam, questionem, testem e, acima de tudo, escolham estar presentes com autenticidade. No meio da tecnologia, o que vai continuar a fazer a diferença é aquilo que nenhum sistema consegue copiar: quem tu és, a forma como te relacionas e como acrescentas valor aos outros. Porque, mesmo num setor cada vez mais tecnológico, a diferença continua a estar nas pessoas.


