A Fisioterapia em Portugal: Identidade, Valor e Futuro

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Num momento decisivo para a consolidação da profissão em Portugal, a Ordem dos Fisioterapeutas dá passos firmes no reforço da sua missão reguladora, científica e social. António Lopes, Bastonário da Ordem, partilha em entrevista à Revista Pontos de Vista a visão estratégica para a Fisioterapia nacional, à luz do recente XII Congresso Nacional de Fisioterapeutas — o primeiro promovido pela Ordem — e do trabalho contínuo de afirmação institucional junto do sistema de saúde. Esta conversa oferece um retrato claro e mobilizador do presente e do futuro da profissão. A liderança de António Lopes revela-se determinada em garantir que a Fisioterapia tenha o lugar que merece — junto das pessoas, ao serviço da sua funcionalidade, saúde e qualidade de vida.

O XII Congresso Nacional de Fisioterapeutas foi o primeiro organizado pela Ordem. Que significado teve este momento para a profissão e para a própria Ordem?

Este Congresso teve um significado simbólico e estratégico. Por um lado, assinala a continuidade de um percurso iniciado em 1986, quando foi realizada a primeira edição pela Associação Portuguesa de Fisioterapeutas. Por outro, afirma a Ordem como entidade reguladora da profissão, na defesa do cidadão, com a responsabilidade de promover o desenvolvimento científico, ético e social da Fisioterapia. O tema escolhido — “Identidade e Valor” — reflete precisamente esta dupla dimensão: a construção coletiva da identidade profissional, no contexto das restantes profissões da área da saúde, e a afirmação do valor da nossa intervenção para os cidadãos e para os sistemas de saúde.

 

A criação da Ordem dos Fisioterapeutas foi um passo essencial para o reconhecimento e regulação da profissão. Que balanço faz destes primeiros tempos de atividade enquanto Bastonário?

A criação da Ordem representou um reconhecimento da maturidade científica e profissional da Fisioterapia em Portugal. Nestes primeiros anos, temos vindo a consolidar o papel da Ordem enquanto entidade reguladora, com um foco muito claro na proteção dos cidadãos e na valorização da profissão. Foi criado um sistema de inscrição e atribuição do título profissional, um diretório de Fisioterapeutas, com atualização permanente, bem como outros pilares regulatórios: o Código Deontológico e o Regulamento Disciplinar, que permitiram colocar o Conselho Jurisdicional em plenitude de funções, o Regulamento do Ato do Fisioterapeuta e o Regulamento Geral das Especialidades Profissionais, recentemente homologado. Paralelamente, foi reforçada a intervenção institucional junto de organismos públicos e parceiros do setor da saúde. O caminho está traçado e continua a ser exigente.

 

Em termos práticos, quais têm sido os principais desafios enfrentados pela Ordem na sua implementação e afirmação institucional?

Os desafios são os de qualquer entidade que nasce com responsabilidade reguladora: a consolidação organizacional, a construção de instrumentos de regulação eficazes e o diálogo com o sistema de saúde. Acresce a isto a necessidade de afirmar publicamente a nossa identidade profissional, alicerçada no sistema do movimento e no modelo de resolução de problemas que caracteriza o processo de fisioterapia. A criação de indicadores próprios, o reconhecimento do valor económico e social da intervenção e a presença no espaço público são também metas contínuas.

 

Um dos pontos críticos é a escassez de fisioterapeutas no Serviço Nacional de Saúde. Como avalia a atual presença dos profissionais no SNS?

Atualmente, cerca de 1.500 fisioterapeutas trabalham no SNS, o que representa pouco mais de 10% do total de profissionais em Portugal. Destes, apenas 150 estão alocados aos cuidados de saúde primários. Este número é manifestamente insuficiente, tendo em conta o impacto clínico, social e económico da intervenção da Fisioterapia, nomeadamente na promoção da saúde, prevenção, reabilitação e gestão da doença crónica. Esta limitação tem custos diretos na eficácia dos cuidados prestados e na equidade no acesso.

 

Existem cerca de 12 mil fisioterapeutas em Portugal, mas o rácio por cem mil habitantes (cerca de 120) está abaixo da média europeia. O que é necessário fazer para inverter esta realidade?

É fundamental uma mudança de paradigma. Portugal precisa de passar de um modelo centrado na doença para um modelo centrado na prevenção e na funcionalidade. A integração efetiva de fisioterapeutas no SNS, sobretudo nos cuidados de proximidade, é essencial para um sistema de saúde sustentável. Isso implica reforçar e alocar os recursos humanos em Fisioterapia, no contexto das Unidades Locais de Saúde (ULS), em particular nos cuidados de saúde primários, e com estruturas organizativas próprias, semelhantes às de outras profissões, como a psicologia ou a nutrição.

 

Com 700 a 800 novos licenciados todos os anos, o país forma fisioterapeutas em número suficiente. O problema está na sua colocação no sistema público?

Sim. O problema não está na formação, mas na colocação. O país forma fisioterapeutas com elevada qualificação, mas muitos acabam por exercer exclusivamente no setor privado ou vão para fora do país, devido à ausência de oportunidades no setor público.

 

De que forma a Ordem está a trabalhar com o Governo e o Ministério da Saúde para a criação de mais serviços e unidades de fisioterapia no SNS?

A Ordem tem mantido um diálogo institucional regular com o Ministério da Saúde e com a Direção Executiva do SNS. Defendemos a criação de unidades de fisioterapia com gestão própria, integradas nas ULS, com profissionais alocados em função das necessidades identificadas. Esta proposta foi já apresentada formalmente e está alinhada com modelos já implementados para outras profissões. Além disso, estamos envolvidos em projetos-piloto, como o SPLIT (avaliação e tratamento da lombalgia), integrado no Plano Nacional de Saúde 2030, que visa testar percursos clínicos inovadores nos cuidados de saúde primários.

 

Que impacto teria, a médio prazo, uma maior presença de fisioterapeutas no SNS ao nível da prevenção, reabilitação e gestão de doenças crónicas?

Seria um impacto profundamente positivo. A Ordem tem vindo a trabalhar com a Escola Nacional de Saúde Pública sobre o valor de intervenções em áreas prioritárias de fisioterapia no âmbito do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Está demonstrado que a intervenção precoce e estruturada da Fisioterapia melhora os resultados clínicos, reduz custos e aumenta a satisfação dos utentes. Permite ainda reduzir internamentos, facilitar altas hospitalares e intervir na promoção da saúde e envelhecimento ativo. A médio prazo, isso traduz-se em mais funcionalidade, mais autonomia e mais qualidade de vida para os cidadãos.

 

Para além do setor público, que papel têm os fisioterapeutas na comunidade, no setor privado e em contextos multidisciplinares?

A atuação do fisioterapeuta integra-se nos vários contextos dos percursos em saúde em que pode fazer a diferença. Sempre que exista uma limitação ao movimento funcional e sem dor, seja por doença, lesão, envelhecimento ou condição crónica, o fisioterapeuta tem um papel a desempenhar.

A intervenção do fisioterapeuta acompanha todo o ciclo de vida, e em múltiplos locais: desde clínicas privadas a instituições sociais, unidades de saúde mental, lares, centros desportivos, escolas, entre outros. Trabalham frequentemente em equipas multidisciplinares, sendo uma peça-chave na promoção da funcionalidade e no combate à inatividade física. A sua intervenção vai muito além da reabilitação, onde tradicionalmente são reconhecidos, abrangendo também a prevenção, a educação para a saúde e o acompanhamento em situações crónicas ou complexas, sempre com o objetivo de restaurar e preservar o movimento funcional, que é, em última análise, essencial para a saúde.

 

Que mensagem deixaria aos fisioterapeutas portugueses neste momento de afirmação profissional?

A nossa profissão vive um tempo de afirmação, responsabilidade e oportunidade. A criação da Ordem foi uma conquista de décadas. Agora, cabe-nos consolidar uma identidade profissional distinta, baseada na ciência, na ética e no impacto concreto da nossa intervenção na vida das pessoas. Este é o momento de contribuir ativamente — na prática clínica, na formação, na investigação — para um futuro onde a Fisioterapia seja cada vez mais reconhecida pelo seu valor essencial.

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