“A inteligência artificial levanta questões éticas complexas que precisam ser abordadas para garantir um desenvolvimento e uso responsáveis”

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Num momento de profunda transformação tecnológica, onde a inteligência artificial e a digitalização estão a redesenhar o panorama das profissões, os contabilistas certificados enfrentam o duplo desafio de se adaptarem a novas ferramentas e, simultaneamente, de reafirmarem o seu papel estratégico nas organizações. Nesta entrevista à Revista Pontos de Vista, Paula Franco, Bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, reflete sobre as mudanças que estão a moldar o setor, destaca o trabalho desenvolvido pela OCC na preparação dos seus membros para este novo paradigma e sublinha a importância da ética, da formação contínua e da capacitação tecnológica para garantir que a profissão contabilística continue a ser um pilar essencial na sustentabilidade e sucesso das empresas.

 

Na sua perspetiva, quais são os principais desafios e oportunidades que a digitalização e a IA trazem para a profissão contabilística?

Estamos a atravessar uma fase que muitos comparam à Revolução Industrial, iniciada no final do século XVIII, que alterou radicalmente as estruturas sociais, económicas e políticas.  No caso dos contabilistas certificados, as operações e as tarefas rotineiras, que habitualmente consomem tanto tempo, ficarão a cargo das tecnologias de ponta, libertando, deste modo, os profissionais para uma consultoria qualificada, mais orientada para uma perspetiva de gestão estratégica, fundamental para que o negócio prospere e seja bem-sucedido.

 

De que forma a Ordem dos Contabilistas Certificados tem vindo a preparar os seus membros para este novo contexto tecnológico?

De há vários anos a esta parte que a nossa instituição está desperta para essa realidade sem retorno. Já fizemos um grande congresso sobre a era digital e, posteriormente, promovemos múltiplas conferências tendo por mote o efeito da Inteligência Artificial na transformação da profissão. O nosso plano formativo contempla diversas abordagens, que vão desde o Chat-GPT, o Power Business Intelligence (BI) ou os criptoativos, só para dar alguns exemplos. É preciso continuar a sensibilizar e a capacitar.

 

Considera que a formação atual em contabilidade, tanto ao nível académico como profissional, está alinhada com as exigências do mercado digital?

É um facto que as novas gerações, que estão agora a iniciar as suas formações superiores, estão mais adaptadas a este contexto de sofisticação tecnológica. Mas naturalmente que há um caminho a fazer e, nesse sentido, a profissão tem de estar cada vez mais alinhada com o trabalho formativo que é feito pela academia.

 

Qual o papel da ética profissional no uso de tecnologias emergentes, como a IA e a automação, em contextos financeiros?

A inteligência artificial levanta questões éticas complexas que precisam ser abordadas para garantir um desenvolvimento e uso responsáveis. Para tal, e como esta área envolve um grande volume de dados, é preciso tudo fazer para garantir a segurança e a privacidade da informação de natureza pessoal. É no fator ético que reside uma das grandes discussões e apreensões relativamente à Inteligência Artificial. Mas a ética é uma caraterística exclusiva dos seres humanos que só pode ser «passada» para as máquinas se elas forem programadas ou treinadas precisamente por pessoas como nós, de carne e osso.

 

Como vê a integração de soluções como RPA, Business Intelligence e ERP nos processos contabilísticos das PME portuguesas?

Estas soluções adaptadas aos negócios têm um grande potencial no sentido de aumentar a eficiência operacional das empresas. Automatizando processos e melhorando a performance, deixando ao contabilista certificado o inalienável poder de proceder à análise dos dados, nomeadamente a informação mais relevante para entender a «fotografia» da organização. Aqui a grande questão que a todos deve preocupar é que nem todas as PME (nomeadamente as pequenas e micro) têm estrutura financeira para disporem de soluções tecnologicamente avançadas, pelo que isso poderá levar a que muitas fiquem pelo caminho.

 

Que competências considera essenciais para o profissional de contabilidade do futuro?

Esta é uma profissão em permanente reciclagem, seja pela necessidade decorrente da via legislativa, seja por via do Orçamento do Estado e, em especial, pelo amplo leque de formações que a Ordem, como entidade reguladora, disponibiliza ao longo do ano a todos os profissionais inscritos na nossa instituição. Penso que o futuro (que, no fundo, é já o presente) deve assentar no aperfeiçoamento das ferramentas tecnológicas que vão surgindo. O know-how destes profissionais será sempre de primeira linha e por muita sofisticação tecnológica que exista jamais haverá na sociedade um profissional com o grau de qualificação e aptidão em matérias fiscais e contabilísticas dos contabilistas certificados.

 

Pode partilhar connosco exemplos ou iniciativas concretas da OCC que promovam a inovação e a capacitação tecnológica dos seus membros?

Para além da vertente formativa que já abordei nesta conversa, a Ordem tem tido a preocupação de divulgar, junto dos seus membros, toda a informação que ajude a promover a adoção da Inteligência Artificial na profissão de contabilista certificado. É o caso do guia rápido da responsabilidade da European Federation of Accountants and Auditors for SME’s (EFAA), a maior organização contabilística da Europa, de que a OCC faz parte, que disponibilizámos no nosso site no final do mês de maio e que aconselhamos vivamente seja consultado por todos os nossos membros. Trata-se de um manual essencial para os profissionais de contabilidade adotarem a Inteligência Artificial com segurança e eficácia, uma vez que apresenta um enfoque especial na proteção de dados e nas melhores práticas éticas. É preciso que se tenha o seguinte em mente: o futuro da contabilidade está em saber colocar as máquinas ao serviço da análise e do conhecimento.

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Revista Pontos de Vista Edição 146

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