Prestes a concluir um ciclo de 12 anos à frente da Junta de Freguesia dos Olivais, Rute Lima deixa uma marca indelével na história deste território lisboeta. Figura central no panorama autárquico local, destaca-se não apenas pela longevidade do seu mandato, mas, sobretudo, pela capacidade de reinvenção e de liderança transformadora que imprimiu à freguesia.
Na entrevista à Pontos de Vista, que chega às bancas a 13 de junho, a ainda Presidente faz um balanço positivo do seu percurso, destacando o impacto profundo da reforma estrutural implementada na Junta, a modernização dos serviços, e o alargamento das competências autárquicas. Sob a sua liderança, os Olivais tornaram-se sinónimo de dinamismo, inovação e proximidade, com uma Junta que se assume como verdadeiro motor de desenvolvimento local — “um município dentro do município”, como a própria afirma.
Está prestes a encerrar um ciclo de 12 anos como Presidente da Junta de Freguesia dos Olivais. Que balanço faz deste percurso?
Faço um balanço bastante positivo. A Freguesia de Olivais de hoje não é a mesma Freguesia de 2013. Entre estas datas aconteceu um processo complexo de reforma total e brutal da Junta de Freguesia, as metodologias, a forma como trabalhava e hoje se trabalha, ao nível das competências próprias das autarquias locais, especificamente das de Lisboa. O balanço é muito positivo, tendo em conta que conseguimos elevar a JFO ao topo de uma lista de milhares de Freguesias, como uma das freguesias com mais atividades, políticas publicas e ações transformadoras nas vidas das pessoas.
A Junta de Freguesia de Olivais é um município, crescemos exponencialmente, possuímos um leque de competências imenso, inúmeros equipamentos de nossa gestão. O que fizemos ao longo dos últimos anos marcou a vida da nossa comunidade, da vida dos Olivalenses, das nossas crianças, dos nossos seniores, dos nossos jovens, parceiros e do território em si. Áreas sociais e investimento que valorizou muito o território, são pilares da minha governação. A transformação foi enorme e eu tenho muito orgulho de ter sido a protagonista dessa transformação. Um balanço positivo, sem dúvida.
Quais considera terem sido os principais marcos e conquistas deste longo mandato? Há algum projeto que tenha um significado particularmente pessoal?
Todos os projetos que, ao longo dos anos, foram sendo pensados, implementados e materializados, têm todos um cunho muito pessoal pois nasceram de uma visão, de um sonho que era um sonho coletivo. Cunho pessoal sim, pois todos foram pensados por mim e materializados por mim com apoio de uma vasta equipa, a quem aproveito para agradecer. Um cunho pessoal de força e garra para lutar por todos eles e concretizá-los. Todos os grandes investimentos são marcos importantes, desde a construção de parques infantis, requalificações de praças, repavimentações, requalificações de jardins e edifícios de nossa gestão. Obras recentes com impacto, por exemplo, o jardim Zé Pedro e a requalificação do Palácio do Contador Mor, com a devolução da biblioteca e Bedeteca aos Olivais e aos Lisboetas. O conjunto imenso de investimentos que ascende a muitos milhões de euros, as políticas públicas delineadas especificamente para as pessoas, são o marco maior. Arrisco até referir que o grande marco foi sem dúvida a grande transformação da freguesia, para a qual todos foram chamados e todos disseram presente. Sem dúvida, três mandatos de reforma em que os líderes desta mesma reforma foram os Presidentes das 24 juntas de freguesia. E eu tenho muito orgulho em ter sido um desses 24 Presidentes.
Como tem evoluído a freguesia dos Olivais ao longo deste tempo? O que mais mudou?
A freguesia, toda ela evoluiu bastante, inclusive do ponto de vista social. Olivais é uma das freguesias mais envelhecida da cidade de lisboa, conseguimos perceber, com o passar dos anos, a chegada de muitos casais e famílias jovens para aqui residir, para qui constituir as suas famílias, para aqui terem os seus filhos e aqui poderem viver a sua vida plena de condições habitacionais, urbanísticas, dotada de equipamentos sociais.
Olivais é um misto de urbanidade com ruralidade, onde acordamos com os passarinhos a cantar. Desde o início do primeiro mandato que estabeleci um compromisso comigo própria – Não permitir ou deixar que alguém ou alguma instituição tomasse os Olivais para construções ou edificados avulsos e desconexos com os princípios da Carta de Atenas. Um compromisso feito comigo mesma e com todos, manter a Freguesia na mais extraordinária freguesia para se viver. Olivais é um território pensado, deve evoluir, deve ser preservado e defendido. Reforçamos todas as condições, um parque escolar requalificado, vários centros de dia, parceiros sociais de excelência, clubes, associações, instituições religiosas, hospital, bombeiros. Enfim, um território completo. A nossa riqueza é evoluirmos todos em conjunto, parceiros e comunidade.
Houve momentos particularmente desafiantes? Como os superou?
Houve, sim. Um episódio terrível foi a entrada da EMEL na Freguesia. Enquanto Presidente, tinha prometido (por escrito) que a EMEL não entraria na Freguesia, a menos que os cidadãos o pedissem. Tal veio a acontecer. Por via do encerramento dos parques de estacionamento do aeroporto, a freguesia começou a ser utilizada, nas zonas próximas do aeroporto, como parque de estacionamento. Era um parque de estacionamento aberto a toda a cidade, aos trabalhadores do aeroporto e até a turistas. À data, Olivais transformou-se num parque de estacionamento gigante, onde todos estacionavam em todo o lado, de forma selvagem, destruindo jardins e invadindo passeios, bloqueando passagens e portas de entrada de casas e prédios. Os moradores movimentaram-se e fizeram abaixo-assinados por forma a pedirem a regulação do estacionamento. Foi uma fase péssima, pois mesmo os moradores das zonas não taxadas, reclamaram imenso, acusando-me de ter dado o dito por não dito. Contudo, não isso que aconteceu. Os moradores dessas zonas, efetivamente, viviam momentos de tormento, a paz social estava a ameaçada e foi com base nesses pedidos que tive de tomar decisões. Foi um episódio menos bom.
A paz voltou e agora está em falta que a Câmara Municipal aceite uma exigência minha, com alguns anos. Desde 2018 que reivindico o zonamento de duas zonas, Norte e Sul divididas pela Avenida de Berlim. Este zonamento permitirá que os Olivalenses circulem e estacionem em toda a Freguesia sem pagar, acedam a todos os serviços e, em simultâneo, os automobilistas de fora não “invadam” a freguesia sem regulação.
A política é um desafio em permanência. O êxito e o sucesso dependem tão só das convicções e da integridade com que tomamos as decisões.
Ao terminar este ciclo, o que sente que ainda falta fazer? Há projetos que gostaria de ter concretizado?
Sim, sem dúvida. Há muita coisa para fazer sempre. Como em qualquer outra entidade. O trabalho, os projetos e as necessidades das pessoas não terminam. Há sempre coisas para melhorar, os territórios não são estáticos, não são museus, têm vida, são dinâmicos. O mundo e a sociedade evoluem e há sempre muitas coisas a fazer. Em termos de projetos tenho uma dor imensa de não ter conseguido de criar um polo universitário nos Olivais. O meu projeto passava pelo reaproveitamento das instalações do Colégio dos Olivais, numa sinergia de esforços e vontades entre JFO, CML e Governo. Houve avanços que acabaram por não ter sequência, infelizmente, pois esbarrámos com burocracias que nos impediram de alcançar esse objetivo. Seria um polo universitário onde a presença da Academia Sénior dos Olivais teria uma importante presença e onde a intergeracionalidade seria um fator diferenciador.
O Bairro da Encarnação e o Mercado da Célula B, são dois grandes projetos que também me deixam com um sabor amargo. Viram agora a luz do dia, vão avançar agora, vão ser uma realidade com base na minha resiliência, insistência e determinação. Contudo, já não os inaugurarei enquanto Presidente, cujas obras vão iniciar em breve. Projetos meus, sonhados e iniciados por mim no primeiro mandato. Certamente virei às inaugurações, visto que agora sim, vão arrancar em abono das melhorias das condições de vida dos moradores de um bairro tão grandioso e nobre da cidade e ainda das condições laborais dos nossos operadores do nosso mercado B e respetivos clientes.
E estas vão acontecer muito, muito em breve. Acrescentaria ainda dois megaprojetos extraordinários, o miradouro sobre o aeroporto, para o qual existe um projeto fantástico e a requalificação do centro histórico da freguesia, a Praça da Viscondessa.
É muito frustrante, planear, desenhar as soluções e ficarmos na pendência de outros organismos, neste caso da CML, para a realização dos projetos. Porém, o importante é que as grandes realizações aconteçam, visto tratarem-se de projetos dos meus primeiros mandatos e que eu gostaria muito, mesmo no futuro, de ver concretizados.
Considera que deixou uma base sólida para quem vier a seguir?
Considero que sim. Uma base bastante sólida. A Freguesia dos Olivais é uma entidade pública sólida. Uma casa organizada e estruturada à escala municipal. Encontra-se estabilizada, não temos funcionários precários, que é algo de que muito me orgulho. Uma entidade dotada de quadros técnicos, administrativos e operacionais de grande qualidade e competência, 6 divisões orgânicas que permite o desenvolvimento normal das suas competências em termos estruturais. Deixo uma Junta de Freguesia com uma base orçamental muito sólida. Ou seja, quem vier a seguir, terá recursos financeiros e orçamentais, infraestruturas e recursos humanos para desenvolver o projeto que for sufragado pelos eleitores dos Olivais.
Na sua opinião, que tipo de liderança ou perfil político poderá dar continuidade ao que de melhor foi feito?
Na minha opinião, considero absolutamente imprescindível que a nova liderança seja feminina.
Porque na verdade, o tanto que foi conquistado em todas as áreas, fizemo-lo porque a liderança dos últimos anos foi uma liderança feminina. Não se trata de preconceito com o género masculino, mas todos sabemos que as lideranças femininas são lideranças mais afoitas, mais persistentes, mais resistentes, mais aguerridas e até românticas. São lideranças que dão uma atenção muito especial às questões de natureza social, às questões que só as mães, só as filhas, só as avós é que dão atenção. Isto depois alia-se, naturalmente, às competências técnicas ou ao perfil político da candidata ou da liderança que se está a falar. Gostaria muito que outra mulher me sucedesse.
Outro requisito é o da continuidade. Os ciclos, apesar de cíclicos, não são estanques e há políticas que devem ter uma visão e um agir contínuo. A linha da continuidade é um requisito importante. Quanto ao perfil político, deve ser uma pessoa firme, integra e que tenha o foco no território e nas pessoas. Independentemente, de poder ser eleita ou eleito por um partido político (ou não) deve estar acima dos partidos políticos. Deve ser presente, chamar a si os problemas da população de forma isenta e resolvê-los com diplomacia, contundência e isenção.
Continua com ambições políticas para o futuro? Em que moldes?
Sempre disse e continuo a dizer que não tenho ambições ou aspirações políticas. Ser Presidente de Junta não estava nos meus planos, surgiu inesperadamente. Foi um desafio que abracei com amor, com paixão e dedicação, mas foi acima de tudo uma missão. Desde o primeiro dia, do meu primeiro mandato, sempre disse que não tinha ambições políticas e é simples explicar, apesar de algumas pessoas não acreditarem. A minha linha de pensamento é muito clara: um político deve ter a sua carreira profissional e deve ter vida fora da política. Um político que necessita da política para viver, chegará o momento em que não poderá ser um bom político. Estou muito bem comigo própria, tenho uma carreira profissional com 34 anos, estou ligada ao mundo académico e terminada a minha missão de Presidente, tenho outra muito importante. Resgatar a minha vida profissional, a minha vida académica e familiar e neste resgate não há espaço para ambições políticas. Darei o meu contributo cívico sempre que o entender e me for pedido pela sociedade. A minha vida foi sempre muito rica em participação cívica. Neste momento, o mundo da política é um mundo perigoso, em que os valores e os ideais nem sempre são as coisas mais importantes, um mundo submerso nas areias movediças do vale tudo e que não se compadece de espíritos livres.
Vivemos agora um cenário de tripartidarismo em Portugal. Como vê esta nova realidade política?
Este cenário era previsível. Uma situação preocupante, tem naturalmente alguma influência externa quanto à viragem ideológica que também se vai percebendo em outros países da Europa.
Podia ter sido evitado. Seria fácil perceber que o acantonamento do PS à esquerda iria degenerar o crescimento da extrema-direita. Fui apoiante da solução da geringonça em 2015, após ter ocorrido algo que mudou o paradigma do sistema político, ou seja, uma maioria parlamentar ter permitido a governação de um partido que não tinha ganho as eleições. Apoiei à data a solução, especialmente na fase pós troika, pois considero que só partido socialista a governar, é garantida manutenção do estado social, princípio tão basilar e nobre da nossa democracia. Contudo há casamentos que não podem durar para sempre. Há matrizes ideológicas que devem ser respeitadas e o eleitorado sabe o que quer e deseja. O esvaziamento do centro político, da moderação política, permitiu que aquele espaço fosse ocupado pelo Partido Chega. Isto está nos livros. Quando os Partidos de centro se acantonam aos extremos, o centro fica órfão e refém do populismo. Vivemos uma nova realidade que devia ter sido evitada. Obriga a diálogo, a debate e a uma grande responsabilidade de todos os atores políticos. Independentemente das ideologias que se professam, há lugares comuns que não podem ser abandonados e que têm de ser base de reflexão entre todos. O que está em causa é um país e não o projeto pessoal do líder do Chega, do PSD ou do PS e há direitos constitucionais que têm de ser defendidos e preservados. Há reformas que têm de ser feitas, contudo, deve ser feita uma reflexão profunda sobre o que fizeram ou não fizeram ao longo de 50 anos que levou a que os Portugueses se sentissem atraídos por discursos mais inflamados e populistas. Os Partidos fundadores da democracia não podem sair do espectro parlamentar e têm de saber dialogar. A bem de todos.
A poucos meses das eleições autárquicas e com a sucessão presidencial no horizonte, que reflexão política e estratégica tem feito?
De facto, o país tem sido fértil em termos de atos eleitorais fora do calendário. As eleições autárquicas são a mais nobre expressão da democracia. Elegem-se diretamente os líderes autárquicos locais.
Quanto às Presidenciais, um aparte em relação ao Almirante Gouveia e Melo e sua capacidade, rigor, disciplina e competência num momento tão difícil das nossas vidas. Não posso, contudo, ver com bons olhos um militar como Presidente da República. Portugal não precisa de um militar como Presidente da República. Opinião empírica que não se prende com a pessoa em si, que muito reconheço.
Portugal já teve (e tem) muito bons Presidentes, que nunca envergonharam o país e os portugueses, que sempre defenderam os interesses da nação, interna ou externamente, apoiados ou não pelas suas famílias politicas, que dignificaram muito a nossa soberania e a nossa identidade nacional. Considero que este caminho da isenção e da separação dos poderes deve ser preservado. Portugal precisa de uma pessoa Presidente integra, consciente, competente, conhecedor da política interna e externa, com provas dadas, uma pessoa que saiba dizer não e represente com honra a nossa bandeira e que eleva ao mais alto nível a nossa bandeira. Eu apoiarei António José Seguro pois preenche todas as características referidas, um homem que está na política, mas não depende da política e saberá estar acima das questões partidárias e terá um olhar nacionalista sobre a função e sobre o país.
Qual é, para si, o papel do poder local neste novo xadrez político nacional?
O Poder Local é uma conquista inalienável e é a mais fina expressão da democracia. O novo xadrez político terá de obedecer à vontade expressa nas urnas e saber analisar a sabedoria do povo e honrar os compromissos selados com as populações.
Como o Partido Socialista se deve posicionar neste novo ciclo?
O PS como bandeira do poder local democrático e enquanto partido com maior incidência nos municípios e freguesias do país, deve honrar todos os pressupostos que se esperam de um partido fundador da democracia. Um partido que se preocupa com as pessoas, das pessoas, que se preocupa com os territórios e que tem uma visão e ação muito consolidadas do poder local. Deve posicionar-se como sempre esteve posicionado: um partido responsável, um partido que cumpre, não se deve deixar enredar em guerrilhas internas ou externas, manter-se focado na sua obrigação de ser o farol do poder local democrático. Quanto ao ciclo governamental atual, em que o PS passou a terceira força nacional (infelizmente), deve robustecer-se, deve fazer uma reflexão honesta sobre os caminhos que o trouxeram até aqui e a esta lamentável situação em concreto. Perceber porque é que os eleitores lhe deram um cartão vermelho, tentar perceber onde e em que aspetos errou. Na verdade, uma perda de confiança do eleitorado desta amplitude, tem de ter uma explicação real e séria. O PS deu uma grande cambalhota, uma cambalhota muito triste e muito infeliz pois passar de uma maioria absoluta, para uma derrota e de seguida passar de segunda para terceira força política nacional atrás de um partido de extrema direita, de um partido recente, ruidoso que se move e se alimenta de situações não resolvidas, é muito triste e merece reflexão profunda. O PS tem de se recentrar, deve perceber que para além da sua gloriosa história política, o trabalho não cessa, a democracia não é um fim em si própria, mas sim um caminho constante que deve ser cuidado. Deve cuidar e zelar pelos seus militantes, pelos seus autarcas, não deve nem pode esquecer, ignorar e ostracizar os seus, muitos daqueles que sempre o defenderam e estiveram na linha da frente de combate. O PS não nasceu agora, tem uma história, uma história de homens de mulheres e, independentemente, de quem está, quem já esteve ou quem venha a estar, há princípios que devem ser cumpridos: o do respeito pelos outros, ter bem presente que os outros contam, os outros pensam, os outros querem debater e tudo isso é para ser respeitado porque o partido socialista é um partido plural. O Partido Socialista não pode ser arrogante, não pode ser pedante, não pode desprezar os seus só porque pensam de forma diferente. É comum adjetivarem o PS de um partido de elites. Não, não é um partido de elites. Transformou-se num partido de elites, infelizmente. E deve voltar ao seu estado natural, é urgente! O lugar comum em que todos, militantes e eleitores contam para crescerem em conjunto. O PS deve posicionar-se com responsabilidade, não pode perder de vista o respeito por todos. O PS é a força e a voz dos seus militantes de base e para além de se recentrar e refletir sobre a sua matriz, deve abrir-se aos seus militantes, tem que os ouvir, tem que lhes responder. O PS não pode não querer ouvir as pessoas, não podemos decidir com quem fala ou não fala. Tem de falar com todos. O PS está a pagar a fatura da escolha do caminho do elitismo. Mas na verdade, a base da reflexão, a pergunta de partida é: porque é que o eleitorado disse não a este PS de elite? Muito a perceber, a refletir. É preciso perceber onde esteve a quebra de confiança e porquê? Quem são estas pessoas, quem são estes intervenientes políticos de elite que sequestraram o PS? O que já fizeram nas suas vidas, se já trabalharam, se têm responsabilidades, se sabem o que custa pagar uma mensalidade de uma casa, de um carro, enfim, se são reais. Ou se são apenas pessoas que encontraram no Partido Socialista uma forma de vida, talvez sem nunca terem trabalhado e que apenas querem sobreviver num mundo que nem sempre é fácil, mas é o mundo que temos. Perceber para onde conduziram o Partido Socialista obriga a que saibamos como, quem e porquê.
Desde Janeiro que o PS tem assumido uma espécie de “Guerrilha” consigo tendo retirado confiança política à sua Junta, por que é acusada de não afastar membros do seu executivo que querem apresentar uma candidatura. O que tem a dizer sobre isto, com o tempo que já decorreu desde essa altura?
A guerrilha está instalada há muito tempo e não só desde janeiro de 2025. O PS Lisboa retirou a confiança política à JFO, foi público e os motivos são os que se conhecem. Como é evidente, não afastaria os meus membros do executivo por imposição do partido. Isto tudo nasce pela minha convicção de não querer aceitar ou apoiar uma determinada pessoa para me suceder. Basicamente, é disso que se trata.
Entendo que a linha de sucessão à Presidência dos Olivais deve ser corporizada por uma pessoa incólume quanto a vários aspetos. Tem de ter condições políticas e legais que não ofereçam duvidas ao eleitorado sobre a sua honra, a sua determinação e capacidade para governar, bem como preencha os requisitos mínimos que confiram confiança total ao eleitorado e aos nossos parceiros institucionais.
A guerrilha instalou-se em março de 2024, quando eu manifestei, em discordância com a estrutura local, reticências quanto à linha de sucessão.
Volto a frisar as questões da falta de diálogo, de falta de compreensão e da obrigação com que temos de agir, com seriedade em relação ao eleitorado.
Não podemos fingir que está tudo bem. Não, não está tudo bem.
O PS tem pessoas, homens e mulheres em perfeitas condições, com experiência autárquica, com jovialidade e determinação, com responsabilidades políticas aferidas e validadas que podem abraçar este desafio. Este desafio chama-se Olivais e eu não posso permitir que os meus vizinhos, os meus eleitores sejam enganados.
Considero que o PS tem tido sempre, desde há décadas, a confiança do seu eleitorado nos Olivais. É preciso que se apresente a votos como sempre o fez, com responsabilidade e com honestidade, com um projeto político diferenciador, mas que honre o trabalho feito, por forma a não a perder ainda mais a confiança do eleitorado.
Os Olivalenses devem ter um candidato socialista sem questiúnculas judiciais a ensombrar a sua candidatura e, eventualmente, o seu mandato autárquico.
Sente que, ao longo destes anos, foi necessário provar mais por ser mulher num cargo de liderança política?
Sim, constantemente. Diariamente, recorrentemente. Não naquela que é a minha atividade na junta de freguesia, no exercício in door da função de Presidente, mas sinto isso desde sempre. Especialmente nas relações políticas. Não tenho a experiência de ser tratada de igual forma. É muito fácil ser calada, não ser ouvida e até rasteirada. Se é por ser mulher? Não sei. Se é por ter convicções e pensamento próprio? Não sei. O papel da mulher na política é objeto de alguns laivos disfarçados de misoginia e descriminação. Sei que isto choca, é certo. Mas em pleno século XXI e após três mandatos sucessivos, confrontados todos que somos diariamente com honrosas e mais que justas lutas diárias pela igualdade de género, não se percebe como continuam as mulheres a ser atacadas no exercício das suas funções, muitas vezes por meros jogos palacianos. O PS é o partido das liberdades, da igualdade de direitos e muito tem sido conquistado em abono das mulheres. Contudo, tanto que há a fazer. A começar pela consciencialização empírica das próprias mulheres. O meu testemunho é de, para além das minhas conquistas e provas dadas, ataques constantes e falta de reconhecimento. Enquanto as mulheres na política não se defenderem umas às outras, serão para sempre reféns de estruturas dominadas pelos homens que, de forma subliminar, lhes permitem ascender aqui e ali, a alguns cargos. Funciona um pouco como os mordomos que ficam a tomar conta das mansões até que cheguem os donos (risos). Por isso sim, é necessário provar. E mais, é necessário provar, trabalhar mais que os homens e ter um perfil que não se deixe intimidar ou abater. Porque não é fácil, a minha experiência diz-me que, ou dizemos que sim ou não contamos para nada e, portanto, não é fácil ser mulher na politica. Eu não sou mulher de me render, não sou mulher que considere normal não sermos ouvidas, exijo que as mulheres não sejam ignoradas e por isso, sim. Provar mais e eliminar de vez os e as haters das mulheres na política. E são muitos.
Como encara o impacto do seu trabalho na inspiração de outras mulheres, sobretudo jovens, para a participação na vida política?
O impacto do meu trabalho é avaliado todos os dias, os resultados são mensuráveis. Agora, o impacto do meu trabalho e da minha história enquanto líder política, em específico ao nível da igualdade direitos e da igualdade de género, admito que possa a vir ter impacto no futuro. Um dia, quando a história ou as histórias forem contadas. Acredito que, mais tarde, conhecendo-se ou lendo-se alguns episódios pelos quais eu passei, vão servir de exemplo nas cabeças de muitas jovens e de algumas mulheres na política. Neste momento, os factos e as circunstâncias podem ser tidos ou analisados como coisas singelas e sem relevância na vida partidária ou na vida política, como gincanas ou amuos, mas não. mais tarde passarão a ser marcos de um percurso que concorreu para a luta da igualdade. É importante que as memórias definam a correlação de forças entre homens e mulheres e também entre mulheres e mulheres, naquela que é uma perspetiva de aprendizagem e evolução dos cenários políticos e de uma luta cujo fim ainda vem muito longe. Só com caracter, resiliência e a força das convicções é possível às mulheres sobreviverem na política.
Que mudanças gostaria de ver na representação e participação feminina na política portuguesa?
As conquistas até hoje são fruto de muito trabalho. Um trabalho coletivo que refletem bons sinais de que as mudanças que têm e devem haver em termos de representação e participação das mulheres na política portuguesa estão no bom caminho e, naturalmente, terá que ser uma realidade transformadora na vida politica nacional. Esta representação só será natural e normal quando deixar de ser imposta, circunstância para já e durante muitos anos, não será possível. Não estamos nesse momento. A presença feminina continua a ser imposta, e bem, mas deve ser respeitada para além de uma imposição para cumprimento de quotas, por vezes numa numa lógica de sina enfadonha à qual os homens não podem escapar. O mundo ideal será aquele em que mulheres e homens competem para o mesmo lugar, em igualdade de circunstâncias, independentemente de se falar do primeiro, segundo, terceiro ou quarto lugar das listas. Este mundo ideal está ao nosso alcance, está ao alcance de todos, basta que nos olhemos de forma igual e que a meritocracia e a competência sejam os fatores determinantes dos critérios a adotar. A atitude das mulheres na política deve afastar-se de posturas subservientes, e eu conheço algumas, que as adotam apenas para manutenção dos seus próprios lugares de quota. Atitudes destas ou similares em nada contribuem para a causa maior da representação igualitária das mulheres na política. E isto são factos sociológicos, é o fenómeno das minorias. Nesta questão em concreto, deve ser pensado, refletido e impõem-se alterações comportamentais e mudanças de atitude com vista a uma transformação plena. Até que tal aconteça, vão-se dando passos pequeninos e quem perde são as mulheres e a sociedade de uma forma geral que se vê privada da liderança feminina em lugares de governação. Continuar-se-á a fazer o caminho.
Quais são os valores femininos que trouxe para a liderança da Junta? E como acredita que isso beneficiou a comunidade?
Os valores femininos que trouxe para a liderança da Junta foram aqueles que definem as mulheres de uma forma geral. Um grau exponencial de sensibilidade face a temas e assuntos correntes, da vida quotidiana, de natureza social. As mulheres têm uma aptidão natural para criar relações empáticas com os problemas das pessoas e com as vidas das pessoas, tem uma facilidade imensa de se colocar no lugar do outro e os valores da solidariedade, da disponibilidade e altruísmo, da resistência, persistência e não resignação são valores que trago comigo e que são fundamentais para qualquer tipo de liderança. E a comunidade beneficiou com isso, visto que as pessoas, as comunidades de uma forma geral bebem o fruto das nossas decisões e se as mesmas forem pensadas e tomadas com base em valores diferenciadores, todos ganham. Temos de prosseguir os nossos ideais, eles têm de estar bem marcados na nossa pele, pois caso não o estejam, hoje estão presentes e amanhã não estão.
Como foi conciliar a vida de professora universitária, líder política e mulher de família durante todos estes anos?
Não foi fácil conciliar. Ainda para mais com tantos desafios e alguns dissabores ao longo dos mandatos. Como diz o ditado, atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher. No meu caso, é ao contrário. Ao meu lado tenho um grande homem, belíssimos filhos e uma família excelente, que na verdade foram sempre o meu porto de abrigo e o meu suporte. É preciso muita cooperação, cumplicidade e companheirismo. Temos uma vida familiar bastante dinâmica, bastante dinâmica, somos todos bastante unidos, mas também independentes, com respeito absoluto pelo espaço e responsabilidades profissionais uns dos outros. Quando abracei este desafio, os meus filhos eram pequenos, um era ainda uma criança e outro já adolescente, não foram anos fáceis, foram anos de muito trabalho, muita conciliação, muito companheirismo e o balanço é positivo. Tenho muito orgulho na minha família, somos homens e mulheres de luta e amantes de uma vida em liberdade, que valoriza o trabalho e a família. Hoje são homens e eu já sou avó. (risos)
A vida académica é inalienável. É uma forma de estar na vida. Adoro dar aulas, adoro porque sou uma comunicadora por excelência, gosto de transmitir e adquirir conhecimento e nada melhor que a dimensão académica ou da formação profissional para essa realização ser possível.
Conciliar tudo isto foi obra. Mas foi possível porque as mulheres são mesmo isto. As mulheres conseguem e fazem todo ao mesmo tempo e fazem bem. Daí também o meu desejo que minha sucessão possa recair nos ombros de uma mulher.
Houve momentos em que sentiu que tinha de abdicar de algo importante a nível pessoal?
Sim, em alguns momentos foi inevitável. Alguns fins de semana em família, algumas férias beliscadas pelos compromissos institucionais, algumas ausências em momentos com importância familiar. Enfim, abdiquei em prol do bem coletivo e do serviço público e não me arrependo. Fez parte e todos estávamos preparados para isso. Do ponto de vista pessoal enquanto ser individual, adiei o meu doutoramento sucessivamente. Depois de vários adiamentos, fixei os 50 anos como data limite para concluir o doutoramento em políticas publicas. Não consegui. Mas irei regressar em breve, quem sabe no próximo ano académico, para cumprir este compromisso comigo própria.
Que conselhos daria a quem ambiciona uma carreira política sem abdicar das outras dimensões da vida?
Os conselhos são não perder de vista a sua própria realidade. As pessoas não se podem deslumbrar, têm de encarar a política com responsabilidade e não podem ver o exercício de um cargo político como se de uma carreira profissional se tratasse. Já referi anteriormente, a missão política, que pode ser longa ou não, mas é uma missão. Todos os protagonistas políticos, ao encararem a política como uma missão, certamente não irão perder de vista as suas carreiras profissionais, se as tiverem. Portanto, o conselho é esse mesmo, não perder de vista as suas carreiras profissionais, as suas vidas pessoais pois é essa predisposição que fará deles bons políticos, bons decisores públicos. Não consigo aceitar de forma tranquila, confiante e de bom grado que pessoas que nunca trabalharam na vida possam estar a tomar decisões sobre a minha vida, sobre a vida dos meus filhos, dos meus netos, do meu património, sobre os meus direitos e obrigações e sobre os meus impostos. É quase contra natura. É evidente que há muitos bons quadros políticos que não se encaixam nesta descrição, mas também os há e muitos que se encaixam. Muitos são aqueles que saem dos bancos das universidades e vão diretamente exercer cargos públicos e tomar decisões públicas que influenciam a vida das pessoas, sem experiência de vida e sem experiência, sequer, laboral. Mais do que o país merece. Sei que alguns vão ler este texto e odiar esta opinião, mas é mesmo a minha opinião. A pirâmide está invertida e vejo isso com preocupação. Portanto, quem ambiciona uma missão política, deve ter força, ser uma pessoa obstinada e focar-se na sua essência enquanto ser humano e enquanto contribuinte no pais, no verdadeiro conceito que é: o seu trabalho, a sua carreira e não perder esse foco de vista. Na política, não há nada mais nobre que isto, o desprendimento sobre a política, o não estar preso a nada, a conceitos, preconceitos ou lobbys, ter vida fora da política.
Se tivesse de resumir estes 12 anos numa só palavra, qual seria? Porquê?
Missão cumprida e resiliência. Por tudo o que já referi. Nem sempre foi fácil, nem sempre foi bom, não estou a referir-me ao ato em si de governar mas às circunstâncias que foram ocorrendo aqui e ali, as tais guerrilhas, mas fora a vida pessoal, exercer este cargo durante 12 anos e ter colhido da minha comunidade, dos cidadãos dos Olivais a sua confiança em três eleições consecutivas e ter o prazer imenso de andar nas ruas da minha freguesia de cabeça erguida, colhendo ainda tanto carinho e afeto das pessoas, só me pode deixar orgulhosa e que tenha neste período da minha vida como o desafio mais espetacular que já abracei. Foi um sonho, as condições permitiram que se fizesse muito. É verdade que não se fez tudo, também é verdade que não se fez tudo sempre bem, mas em contraponto a realidade também reflete o tanto que se fez pela vida das pessoas, pelo território e, portanto, Missão Cumprida. É evidente que vou ter saudades, saudades das pessoas, dos funcionários, da dinâmica, com sentimento de dever cumprido e com orgulho pela obra feita.
E às novas gerações que olham para a política com esperança ou ceticismo, que palavras deixaria?
Uma palavra de esperança num futuro melhor e de incentivo na procura de conhecimento.
A juventude não pode desprezar as questões de natureza política. As novas gerações, os jovens vivem uma realidade, um mundo onde a informação e também a desinformação surge e entra pelas suas vidas a uma velocidade vertiginosa e assustadora. O mundo digital trouxe um sem número de variáveis atrativas que distraem e afastam os jovens, muitas vezes, dos temas mais importantes.
É de extrema importância que os nossos jovens percebam e entendam que a vida deles depende de um sistema político robusto e este sistema que se pretende forte e responsável funde-se na base dos partidos políticos. A democracia assenta num regime partidário e é imprescindível que os jovens saibam que fazem falta ao regime, numa lógica de continuidade consistente, numa lógica de preparação de quadros competentes, de qualidade com conhecimentos e capacidade de intervenção e participação na vida da sociedade. Quero com isto deixar um apelo de participação, de procura da vossa matriz ideológica e contribuam dando um pouco da vossa vida a contribuir para a melhoria gradual e consistente da sociedade. Os jovens não podem abstrair-se nem se abster de ter uma palavra ativa. O voto é muitíssimo importante, mas a participação cívica ativa não é menos. É fundamental que todos percebam a importância que representam para o seu futuro e futuro da sociedade, bem como a subsistência, robustecimento e continuidade do regime democrático.
Que mensagem gostaria de deixar aos habitantes dos Olivais neste momento de “quase” despedida das suas funções?
Uma mensagem de agradecimento imenso e gratidão imensa. Por terem confiado em mim, por continuarem a ser as pessoas extraordinárias que são. As pessoas nos Olivais são pessoas francas e de riso aberto, que dizem o que pensam, que não viram a cara a um desafio, a uma verdade, a um confronto caso seja necessário, são pessoas exigentes que sabem o que querem e desejam, que zelam por aquilo que é seu e os habitantes dos Olivais são tudo isto e muito mais.
Gente de boa índole, solidária e amiga, que são capazes de despir a camisola, pessoas de afeto, de beijos e abraços, enfim, a mensagem é nunca percam este ADN tão particular porque eu também vou ser sempre assim. Até porque a forma mais plena de estar na vida é sermos iguais a nós próprios e os Olivalenses são iguais a eles próprios, sem sombra de dúvidas. Também, em relação a algum momento menos bom ou menos feliz, é justo que me desculpe. Só não erra quem não faz, mas na verdade todos estiveram sempre no epicentro das minhas prioridades e preocupações maiores e o trabalho foi sempre desenvolvido com foco na procura das melhores soluções e condições de vida de todos e gostaria muito que os Olivalenses percebam que esta fase de mudança é uma fase muito importante, é fim de um ciclo de 12 anos, durante o qual esteve à frente dos destinos da Freguesia uma Olivalense de gema, nascida e criada, a quem quase todos tratam por tu e considero que o futuro dos Olivais não pode exigir menos que isso. Pelo contrário, tem de exigir mais. Mas acima de tudo, seja quem for que venha a liderar em breve os destinos da Freguesia deve ser de cá, deve ter raízes nos Olivais, deve sentir o pulsar da freguesia, conhecer o bom e o mau, alguém que seja o farol e esteja próximo de todos, que as pessoas conheçam. Não se deixem enganar. Sei que tomarão as melhores opções. Somos Olivalenses com todo o orgulho. Sejam felizes.
Sejam felizes e livres.
Voem alto e sem amarras.

