Num mundo cada vez mais iluminado, onde as estrelas desapareceram do olhar urbano e o silêncio da noite se tornou raro, há quem tenha ousado inverter a lógica do progresso para devolver à humanidade uma herança esquecida: o céu noturno. Apolónia Rodrigues, fundadora e mentora do Dark Sky® Alqueva — a primeira reserva mundial certificada de “céu escuro” — transformou um recurso invisível num poderoso motor de desenvolvimento sustentável, colocando o Alentejo no mapa global do astroturismo. Nesta entrevista exclusiva à Revista Pontos de Vista, mergulhamos na génese de um projeto ímpar, nos seus desafios, conquistas e nas ambições de quem acredita que proteger a noite é cuidar do futuro.
Como nasceu a ideia do Dark Sky® Alqueva e o que a inspirou a apostar no astroturismo como motor de desenvolvimento local?
A ideia nasceu da profunda consciência de que o céu noturno é um património natural e cultural de valor incalculável, mas demasiadas vezes ignorado pelos diversos stakeholders regionais e nacionais. No Alentejo, onde o tempo parece abrandar e os céus permanecem límpidos, surgiu uma oportunidade rara, valorizar esse recurso invisível à maioria dos olhos de quem vive em cidades e já não vê um verdadeiro céu cheio de estrelas há anos. O astroturismo revelou-se, desde o início, como uma via inovadora e sustentável para promover o território, gerar novas dinâmicas económicas e reaproximar as pessoas do cosmos. Era mais do que turismo, era criar uma experiência com alma, com substância, com sentimento.
Quais foram os maiores desafios enfrentados na criação da primeira reserva de “céu escuro” do mundo a ser certificada?
Fazer algo pela primeira vez implica quase sempre abrir caminhos onde antes havia apenas interesse e vontade. Um dos maiores desafios foi sensibilizar as autoridades, técnicos e comunidades para o valor tangível de um céu escuro, um céu como ainda existia em torno do Alqueva. Tivemos de construir um novo modelo de desenvolvimento, mapear áreas sensíveis e, acima de tudo, envolver os atores locais nesta grande missão. O mais difícil foi, talvez, transformar um conceito abstrato numa realidade vivida mas foi precisamente aí que residiu a beleza do projeto.
Como o projeto tem impactado as comunidades da região do Alentejo — tanto social quanto economicamente?
O impacto tem sido real e consistente. Economicamente, criámos novas oportunidades em zonas com desafios estruturais, atraindo visitantes ao longo de todo o ano e promovendo a diversificação da oferta turística assente no recurso céu noturno protegido, elemento que na verdade é sempre presente e envolve todo o destino. Socialmente, despertou nas comunidades um novo orgulho no território e um renovado sentido de pertença. Ver o seu céu reconhecido e valorizado internacionalmente é uma fonte de motivação, e um lembrete de que o progresso pode surgir daquilo que é autêntico e ancestral.
Pode-nos falar sobre a importância de proteger o céu noturno e a biodiversidade para além da experiência turística?
O céu noturno não é apenas um palco para contemplação, é parte integrante de ecossistemas delicados e dinâmicos. A poluição luminosa afeta ritmos circadianos, desorienta espécies, fragmenta habitats e tem impactos diretos na saúde humana. Proteger a noite é proteger a vida, é garantir que tanto os seres humanos como os animais possam manter os seus ritmos naturais. A experiência turística é apenas uma porta de entrada para essa consciência mais ampla.
O conceito de “astroturismo regenerativo” está a ganhar força. Como o Dark Sky® Alqueva incorpora esta visão?
Desde o primeiro dia, o projeto foi pensado com uma visão regenerativa: não apenas preservar, mas melhorar, educar e inspirar todos aqueles que tocamos, sejam da região ou aqueles que nos visitam.
Trabalhamos lado a lado com as comunidades, promovemos práticas sustentáveis, oferecemos formação, e usamos o céu como catalisador para uma relação mais consciente com o território. Regenerar, para nós, é devolver mais do que recebemos, é criar futuro, é acreditar que transformamos positivamente.
Qual tem sido a resposta dos visitantes nacionais e internacionais ao projeto? Há alguma história que a tenha marcado particularmente?
A resposta tem sido extraordinária. Muitos visitantes descrevem a experiência como profundamente transformadora e de grande impacto pessoal. Recordo-me especialmente de uma criança que, ao ver a Via Láctea pela primeira vez, sussurrou: “parece magia verdadeira”.
E talvez seja. Porque olhar o céu, longe das luzes artificiais, devolve-nos um sentido de pertença ao universo que a vida moderna tende a apagar.
Quais são os próximos passos ou ambições para o Dark Sky® nos próximos anos? Há novos destinos sob sua liderança?
O objetivo é dedicar todos os esforços aos que já existem e que se desenvolvem sob a marca registada Dark Sky®, sem colocar de parte a expansão da rede, mantendo sempre o compromisso com a autenticidade, a ciência e a sustentabilidade. Neste momento, estamos a apoiar outra região em Portugal, o Dark Sky® Vale do Tua, a desenvolver novos produtos turísticos ligados à astronomia e à educação ambiental, e a investir fortemente na formação de novas gerações de guias e embaixadores do céu.
A ambição é clara, fazer da proteção do céu um movimento de impacto global.
Como vê o futuro do turismo sustentável em Portugal e o papel de iniciativas como a sua nesse cenário?
Portugal tem todos os ingredientes para se afirmar como uma referência em turismo sustentável, paisagens autênticas, comunidades acolhedoras e um património natural ainda relativamente preservado.
Mas o futuro exigirá mais do que boas intenções — exige visão, estratégia e coragem para mudar. Iniciativas como o Dark Sky® mostram que é possível conciliar desenvolvimento com conservação, e que os territórios mais resilientes serão aqueles que apostarem no que os torna verdadeiramente únicos. Mas terá de haver um momento, e quanto mais cedo melhor, em que os decisores políticos têm de assumir escolhas, apostar nas vocações dos territórios sem medos e definir estratégias de longo prazo que valorizem o que de melhor temos, sob risco de nos tornarmos irrelevantes no panorama internacional.
Que conselho daria a outras regiões ou empreendedores que desejam criar um impacto semelhante através do turismo responsável?
Comecem por sentir o território. Cada lugar tem a sua identidade, os seus ritmos e os seus saberes. Depois, procurem inovação com propósito, não apenas para atrair turistas, mas para criar valor duradouro que acrescente valor ao que já existe. A chave está no equilíbrio entre tradição e futuro, entre conservação e prosperidade. E sobretudo, nunca percam a paixão, porque é ela que transforma ideias em legados, é ela que nos permite avançar contra todos os obstáculos, ser resiliente e focado.
Por fim, o que significa para si, pessoalmente, poder proporcionar uma reconexão com o cosmos às pessoas?
É uma dádiva e, acima de tudo, uma grande responsabilidade. Vivemos tempos de desconexão da natureza, dos outros, de nós próprios, da sociedade e do nosso papel nela.
Poder ajudar alguém a olhar para o céu e sentir-se parte de algo maior é uma forma de cura silenciosa, de renovação e de pertença.
O cosmos tem essa capacidade rara de nos lembrar da nossa fragilidade, mas também da nossa beleza.
Para mim, proporcionar esse reencontro é cumprir uma missão que cresceu comigo e me acompanha há mais de 18 anos.


