Aprevenção da saúde psicológica na infância é um pilar essencial para a construção de uma sociedade mais saudável, resiliente e equilibrada. As experiências emocionais vividas nos primeiros anos de vida exercem uma influência profunda e duradoura, moldando a personalidade, o autoconceito e a autoestima das crianças, fatores determinantes para a forma como irão gerir as suas emoções e enfrentar desafios ao longo de toda a vida (WHO, 2022).
Investir na prevenção desde muito cedo permitir-nos-á promover o bem-estar emocional e reduzir significativamente o risco de desenvolvimento de perturbações emocionais e comportamentais, como ansiedade, depressão, hiperatividade e problemas de comportamento. Além disso, a prevenção capacita as crianças com competências socioemocionais fundamentais ( como a autorregulação emocional, empatia, capacidade de resolver conflitos e de estabelecer relações interpessoais seguras) potenciando-as a uma maior confiança em si próprias, melhor adaptação a novas situações e um desenvolvimento mais coeso e saudável.
Por outro lado, experiências emocionais adversas, como exposição a conflitos familiares, violência, negligência emocional ou situações de stress crónico, podem comprometer seriamente o desenvolvimento emocional, social e cognitivo. Estas condições estão fortemente associadas a maiores dificuldades de socialização, maior risco de abandono escolar, diminuição do rendimento académico e maior vulnerabilidade a perturbações de ansiedade, depressão e comportamentos de risco durante a adolescência e idade adulta (WHO, 2022).
Uma realidade preocupante em Portugal
Dados recentes revelam que 1 em cada 3 crianças em Portugal acorda triste quase todos os dias, um indicador alarmante da prevalência de sintomas emocionais negativos persistentes (Fundação Calouste Gulbenkian, 2023; UNICEF, 2022). Mais de metade das crianças e adolescentes referem sentir-se preocupadas com muitas coisas ao mesmo tempo e admitem ter dificuldade em relaxar várias vezes por semana, revelando um estado de alerta emocional constante que compromete o sono, a concentração, o rendimento escolar e a regulação emocional (Fundação Calouste Gulbenkian, 2023).
A Organização Mundial da Saúde (2022) alerta ainda que, quando persistentes, estes sinais de ansiedade aumentam a probabilidade de desenvolver problemas emocionais graves na adolescência e idade adulta, incluindo perturbações de ansiedade, depressão, dificuldades de socialização e maior propensão para comportamentos de risco. Estudos longitudinais confirmam que experiências adversas na infância afetam não apenas a saúde mental, mas também a saúde física, a estabilidade profissional e a qualidade das relações interpessoais na idade adulta.
O desafio do acesso a apoio psicológico em contexto escolar
Em Portugal, estima-se que numa turma de 30 crianças, cerca de seis necessitem do apoio direto de um(a) Psicólogo(a)xpara lidar com dificuldades emocionais, comportamentais e, principalmente, de aprendizagem (Ordem dos Psicólogos Portugueses, 2023). Contudo, o rácio atual de Psicólogos por aluno no sistema educativo está muito aquém do recomendado pela Federação Europeia de Associações de Psicólogos (EFPA), que defende a presença de 1 Psicólogo para cada 500 alunos. Em muitas escolas, este rácio ultrapassa os 1.000 alunos por profissional, limitando a possibilidade de avaliação sistemática, acompanhamento individualizado e implementação de programas de prevenção (OPP, 2023).
A ausência de acompanhamento psicológico regular aumenta o risco de que sinais precoces de sofrimento emocional passem despercebidos, agravando quadros clínicos e conduzindo a consequências mais graves como abandono escolar, isolamento social e perturbações emocionais na adolescência e idade adulta.
Benefícios de um investimento precoce em saúde psicológica
O acesso precoce a cuidados de saúde psicológica permite intervir no desenvolvimento de competências emocionais, cognitivas e sociais essenciais. Acompanhadas por profissionais, as crianças aprendem a reconhecer e expressar emoções de forma adequada, a desenvolver estratégias de autorregulação e a fortalecer a autoestima, fatores diretamente associados a um melhor desempenho académico, maior resiliência e relações interpessoais mais seguras (WHO, 2022).
Para além do impacto direto no bem-estar nas nossa crianças e adolescentes, o investimento em saúde psicológica infantil gera benefícios a médio e longo prazo para toda a sociedade. Estudos internacionais demonstram que programas de prevenção reduzem custos futuros associados ao tratamento de perturbações mentais e aumentam o potencial de integração social e profissional dos cidadãos.
Se todos nós, diariamente, garantirmos ambientes emocionais seguros em famílias, escolas e comunidades é, assim, um imperativo social e de saúde pública que promove gerações mais equilibradas, saudáveis e confiantes.
Em súmula, quero alertar que ignorar os sinais de sofrimento emocional nas crianças é comprometer o futuro de toda a sociedade; investir em saúde psicológica infantil é investir em gerações mais equilibradas, saudáveis e resilientes.
REFERÊNCIAS
Fundação Calouste Gulbenkian. (2023). Estudo sobre a saúde mental infantil em Portugal. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2023). Relatório sobre a intervenção psicológica em contexto escolar. Lisboa: OPP.
UNICEF. (2022). The State of the World’s Children 2022: Children’s mental health. Nova Iorque: UNICEF.
World Health Organization. (2022). World mental health report: Transforming mental health for all. Geneva: WHO.


