“a verdadeira liderança é feita no plural, e ela não impõe, mas inspira”

Data:

Há mulheres que ocupam cargos. E há mulheres que transformam os cargos que ocupam. Edite Ten Jua pertence à segunda categoria — uma daquelas figuras raras que, mais do que somar títulos, deixa marcas profundas nas instituições por onde passa e nas pessoas que a escutam. Ex-Ministra da Justiça, Ministra dos Negócios Estrangeiros e Vice-Presidente do Tribunal Constitucional de São Tomé e Príncipe, ela é hoje uma das vozes mais respeitadas da Lusofonia e da política africana contemporânea. Na edição de agosto da Revista Pontos de Vista, e no mês em que se celebra o Dia da Mulher Africana e os 50 anos da independência de São Tomé e Príncipe, homenageamos uma mulher que não teme o silêncio, que enfrentou o preconceito com ética e excelência, e que acredita que “a verdadeira liderança é feita no plural, e ela não impõe — ela inspira”.

Quem é Ten Jua para além dos cargos e títulos? Como a sua identidade pessoal moldou sua carreira?

Sou uma mulher profundamente enraizada nas minhas origens, na minha fé, na gratidão pelos países onde vivi, e nos valores que me foram ensinados na infância. Tive o privilégio de ter crescido numa época que me proporcionou ser criança, sou de uma geração que subia às árvores, ia a pé para a escola, bebia água do chafariz e arrancava papoilas para oferecer aos professores. Vivi numa época em que o livro era tão precioso, porque significava uma oportunidade para sonhar, conhecer e aprender.
Cheguei a Portugal em 1976, mas apesar das muitas dificuldades, a família estava firmada na convicção de que através do conhecimento, da persistência e da solidariedade poderíamos moldar uma realidade mais favorável. Tive uma figura materna que me incutiu pilares sólidos como o falar verdade e o diálogo. Cresci num ambiente familiar de respeito e obediência aos pais. Aprendi que na vida, temos de nos dedicar para alcançar o que desejamos.
E a minha identidade foi sendo construída de múltiplas camadas, desde logo o aprender a amar e conhecer a minha terra de naturalidade à distância. Mas também a amar, a respeitar e a valorizar o que Portugal oferecia, sobretudo a educação. E assim, a minha identidade se foi construindo numa época em que a solidariedade nas comunidades, nos bairros e nas escolas era uma realidade. Estes valores e a consciência de que um dia regressaríamos a África, acabou por moldar a minha forma de estar na política, no direito e no ativismo social. Para mim, liderar nunca foi um fim, mas sobretudo um meio de servir outros, com propósito, com paixão e com profunda responsabilidade.

A sua trajetória é marcada por conquistas importantes em diferentes áreas. Quais foram os momentos mais desafiadores da sua carreira?

Os momentos mais desafiadores que enfrentei durante este percurso foram sempre aqueles em que me confrontei com o silêncio, quer daqueles de quem esperava uma palavra, o silêncio da descrença, o silêncio das instituições que resistem à mudança, e até o próprio silêncio interior que sentimos quando somos confrontados com a dúvida.
Tomei decisões difíceis, vivi preconceitos uns velados e outros visíveis, e tive dias em que ser mulher, negra e determinada parecia um fardo mais do que uma força. Mas foi precisamente nesses momentos que descobri o poder de perseverar naquilo em que acreditamos, no poder da resiliência. Aprendi que podemos abrir caminhos no deserto, e construirmos ou até sermos a solução. Os maiores desafios tornaram-se nos meus maiores mestres, porque ensinaram-me a perseverar, ajustar e a inovar.

Como foi ser uma das primeiras mulheres a ocupar posições de grande destaque político e jurídico em São Tomé e Príncipe?

Foi ao mesmo tempo um privilégio e uma imensa responsabilidade. Cada passo dado era observado por mim com atenção redobrada, não apenas como decisão profissional, mas como símbolo. Porque exercer determinadas funções, significava concretizar a expetativa das minhas avós, da minha mãe, minhas tias, vizinhas, e de inúmeras mulheres que não tendo criaram as oportunidades educacionais que eu tive.
E por outro lado, representar as mulheres santomenses em cargos onde antes não havia espaço para nós foi, e continua a ser, um exercício de coragem diária. Não se tratava apenas de fazer um bom trabalho, mas de criar representatividade, através da qual abriria portas para que outras mulheres também pudessem entrar, fazer-se ouvir e liderar.
Muitas vezes senti o peso do pioneirismo, mas eu nunca caminhei sozinha, carreguei sempre comigo as vozes das mulheres que vieram antes de mim e das que virão depois. Ser uma das primeiras é ser também ponte, e isso exige fé em DEUS e no futuro.

De que forma o contexto histórico e político do seu país influenciou o seu percurso?

São Tomé e Príncipe é um país ainda jovem, forjado no sonho da autodeterminação. Cresci em Portugal, e as minhas memórias são as aspirações da minha mãe no calor da pós-independência, num tempo em que a esperança era abundante, mas os desafios eram imensos. Esse contexto formou em mim um espírito de curiosidade com o país, fui crescendo a visitar São Tomé e Angola e isso despoletou desde cedo um compromisso com o regressar às origens.
O que apreendi nesse laboratório que é a diáspora, a minha experiência de associativismo e o voluntariado fizeram-me ver que as políticas públicas, sobretudo as sociais são ferramentas de transformação social. E creio que o contexto histórico e a minha realidade de “retornada” serviram como se fosse uma bússola, direcionada para a busca da justiça e da dignidade, e assim cada passo da minha trajetória de vida foi se conetando com esses pontos dessa herança vivencial.

Como foi sua experiência como Ministra da Justiça, e depois dos Negócios Estrangeiros? Quais legados acredita ter deixado?

Assumir o Ministério da Justiça Administração Pública e Assuntos Parlamentares foi como tocar na âmago de uma nação. Tutelar a Justiça, a reorganização administrativa desse grande e complexo sistema que é a Administração Pública foi desafiante. E os Assuntos Parlamentares ofereceram-me o contato com a criação das leis na Assembleia Nacional e a interação com os deputados enquanto legítimos representantes do povo.
Compreendi com profundidade que a justiça não se limita aos códigos, mas atende às condições de acesso a justiça, ao respeito à dignidade humana, à independência dos tribunais, mas sobretudo trata-se da satisfação das legítimas expetativas dos cidadãos. Trabalhamos no sentido de modernizar, melhorar o sistema, e humanizar a justiça, tornando-a mais próxima das comunidades.
Creio que deixei por um lado, um legado de que, para alcançarmos resultados, temos de trabalhar de forma inclusiva, com os mais experientes, os mais jovens, as mulheres e as pessoas com limitações físicas, porquanto todos têm um ponto de vista e um contributo a oferecer. E por outro, o legado da humanização da justiça, sobretudo no processo de ressocialização dos reclusos, abrindo caminho para uma melhor integração que proporcionasse paz social. Contudo, ainda há muito para ser feito a fim de que a justiça sirva a todos, sobretudo aqueles que mais precisam dela.
Quando me tornei Ministra dos Negócios Estrangeiros Cooperação e Comunidades, a minha missão amplificou-se porque nesta posição tinha de representar a voz de São Tomé e Príncipe no mundo, enquanto a primeira diplomata.
Foi um exercício de diplomacia com identidade, porque a minha mensagem era a afirmação de que o segundo país mais pequeno do mundo, pela sua localização geostratégica inigualável podia e pode ser um laboratório gigante em valores e propostas, em áreas tão diversas como a democracia, o ambiente, biodiversidade, fileiras agrícolas de segmento gourmet e a juventude, que é a nossa maior riqueza se bem estruturada.
O legado que deixo no exercício dessas funções são as pontes construídas tanto dentro do nosso continente como noutras regiões baseadas na firme convicção de que São Tomé e Príncipe é viável e tem o seu papel no concerto das nações.

Qual foi o maior desafio como Juíza Vice-Presidente do Tribunal Constitucional?

O maior desafio foi manter a serenidade e a firmeza ética num país onde, muitas vezes, o ruído político tende a interferir e a contaminar a justiça. O Tribunal Constitucional é efetivamente o guardião supremo quer da legalidade e quer da democracia, e estar nessa posição exigia não apenas conhecimento jurídico, mas também imparcialidade.
Em coletivo, o Tribunal Constitucional tomou decisões impopulares, enfrentou pressões e resistiu a interferências. Mas nunca me desviei da missão de proteger a Constituição e os direitos fundamentais. A justiça, que deve ser cega, quanto a mim, só deveria eventualmente enxergar, se for para ver com os olhos da equidade. E é com essa visão que enfrentei cada processo, mesmo quando os ventos eram inversos.

Em tempos de crise política ou institucional, qual é o papel de uma liderança firme, mas sensível?

Para se liderar em tempos de crise é forçoso encontrar paz no meio da tempestade. É antes de mais escutar a nossa voz interior, o que nos move. Isto é fundamental, porque as crises trazem consigo inúmeros ruídos externos e pressões que tendem a precipitar decisões. Então é necessário escutar os outros, discernir os sinais do momento e revisitar os ensinamentos da ética. Uma liderança firme é aquela que na face da dificuldade permanece inabalável nos princípios, e torna-se sensível quando entende que por trás de toda e cada decisão há uma componente humana, existem pessoas envolvidas, histórias de vidas que são reais e esperanças que não podem ser ignoradas e por vezes adiadas.
Os momentos de crise têm o condão de desafiar-nos a equilibrar a força e a bondade, a razão e a empatia, e é nesse equilíbrio que reside a arte de reconstruir. Por isso, para mim, a verdadeira liderança é feita no plural, e ela não impõe, mas inspira.

A Iniciativa de Partidos Políticos Africanos tem ganho grande destaque. Qual o objetivo da sua atuação como Secretária Executiva e que resultados já foram alcançados?

A Iniciativa de Partidos Políticos Africanos (APPI) é o programa estandarte do think tank Centro de Governança Africana (AGC), com sede no Gana.
Entendemos que África encontra-se num ponto de mudança histórica e geracional, e de profunda transição sociopolítica, impelida por uma população jovem mais informada, conetada digitalmente, e que exige reformas institucionais e governança responsável. Os aumentos das expetativas públicas, das desigualdades sociais e das fragilidades dos Estados, mostram que os modelos tradicionais de organização partidária têm de evoluir.
A desconfiança entre os partidos políticos e a exigência dos cidadãos que requerem transparência, inclusão e participação significativa, particularmente jovens e as mulheres, que constituem a maioria da população do continente e que se sentem excluídos, revela a desarticulação do contrato social.
A fim de colmatar esta lacuna, foi lançada a Iniciativa Africana dos Partidos Políticos (APPI), a 7 de Março deste ano, em Acra, Gana, sob o alto patrocínio de Sua Excelência John Dramani Mahama, Presidente da República do Gana.
Trata-se de uma plataforma onde os partidos políticos podem passar por uma transformação profunda, através da renovação das suas bases ideológicas, reconfigurando as suas estruturas de participação e adotando uma nova ética de liderança orientada para o serviço e centrada no cidadão.
Tudo isto visando restaurar a credibilidade política, promover uma democracia inclusiva e posicionar os partidos políticos como agentes ativos da reforma democrática e da cooperação continental através do diálogo.
Como Secretária Executiva, o meu papel é articular e obter consensos nas diversas discussões sobre transparência, inclusão, alternância e desenvolvimento sustentável, tudo visando a realização da Cimeira dos Partidos Políticos a ter lugar em Acra de 12 a 14 de Agosto, e que reunirá chefes de Estado, líderes partidários, especialistas em governança, instituições regionais, alas juvenis e femininas, sociedade civil e pensadores influentes.
Pretende-se um diálogo de alto nível orientado para soluções sobre o futuro da liderança política e da democracia no continente, servindo como um fórum continental de liderança intelectual onde os atores políticos africanos definem as suas próprias prioridades, partilham experiências e traçam os novos contornos da transformação governativa.
O objetivo é criar uma cultura de cooperação, onde os partidos deixam de se ver apenas como rivais e passam a se reconhecer como co-construtores de uma África mais coesa e mais voltada para resultados. Acreditamos que democracia e estabilidade devem andar juntas, e é por esse caminho que estamos a caminhar.

Como surgiu o seu envolvimento no setor empresarial? Qual o papel da mulher no empreendedorismo africano hoje?

O meu envolvimento com o setor empresarial nasceu do exemplo de uma mãe e toda uma geração de mulheres empreendedoras, motivadas em criar melhor futuro para os seus filhos. O legado dessas mulheres ousadas ensinou-me ao longo dos tempos que o desenvolvimento sustentável de um bairro, uma comunidade, de um país que se faz sim com leis e políticas públicas, mas essencialmente com a criação de riqueza e oportunidades. Entrei no mundo empresarial de uma forma natural, carregando a mesma visão que levei à justiça e à política: promover inclusão, equidade, inovação e criar valor.
O papel da mulher africana no empreendedorismo é absolutamente transformador, porque nós somos resilientes por natureza, somos criativas por necessidade e determinadas pela convicção de independência.
Quando uma mulher empreende, esta mulher não só gera riqueza ela se posiciona para alimentar, educar, inspirar e impactar toda uma comunidade. E hoje, mais do que nunca, o continente africano precisa de criar mecanismos adicionais de apoio a todas as mulheres que ousam empreender, não só no sentido de apoiar as suas aspirações, mas porque através delas se resolvem inúmeros desafios sociais.

A educação é uma das suas bandeiras. Que projetos ou ações mais lhe orgulham nesse campo?

A educação foi o passaporte para o meu futuro. Se ocupei cargos de proeminência e hoje usufruo de espaços de decisão, é porque alguém durante o meu percurso acreditou no poder transformador do ensino. Um dos projetos que mais me orgulha é a criação do programa Academia de Liderança da Fundação El-Shaddai em parceria com a Fundação Edite Ten Jua, que presido, um programa de capacitação para crianças em situação de vulnerabilidade e que oferece os materiais escolares essenciais para a frequência de cada ano letivo, mas que é inovador porque oferece mentoria, isto é, ao menino que quer ser futebolista convidamos uma estrela do futebol para o mentorar. A menina que sonha ser médica será mentorada por uma profissional da saúde. Através das fundações e em parcerias, procuramos garantir bolsas de estudo, formar lideranças jovens e ampliar o acesso à educação.
Mais do que transmitir conhecimento, queremos despertar o direito a sonhar e a certeza de que é possível ser. O meu maior sonho é ver cada menina santomense olhar para o futuro e dizer: “Eu posso”.

De que forma a Fundação Edite Ten Jua e a Fundação El-Shaddai atuam para promover oportunidades a mulheres e crianças?

Eu cresci sendo animada a sonhar. O conceito de que “o sonho comanda a vida” remete-nos para a possibilidade que que sonho é uma força que catapulta a nossa ação e a nossa própria existência.  As nossas Fundações são espaços de reconstrução de sonhos.
A Fundação El-Shaddai é o nosso braço social, que oferece o “pão para a boca”, que atua essencialmente nas áreas da educação, da saúde, da fé, da autoestima. Para as crianças, promovemos programas de reforço escolar, acesso à alimentação e programamos fornecer apoio psicológico, sobretudo em comunidades onde a vulnerabilidade é maior.
Na Fundação Edite Ten Jua centramo-nos na liderança e no empoderamento económico. Oferecemos formação em liderança, empreendedorismo, agricultura sustentável, gestão de negócios e direitos civis, entre outras áreas, visando formar futuros líderes, que possam eles também se tornar em agentes de mudança.
Acreditamos que é nosso mandato oferecer e até criar oportunidades, e ao fazê-lo estamos simplesmente a oferecer dignidade que todos merecemos.
E a nossa satisfação reside na evidência de que quando um jovem descobre o seu propósito ou uma mulher encontra o seu “eu” e desabrocha, toda uma sociedade frutifica. A nossa missão maior é ser ponte e ser luz.

Acredita que investir na educação é o caminho mais seguro para o empoderamento feminino?

Sem dúvida. A educação é a chave que abre todas as outras portas. É um passaporte para o futuro. A educação liberta, fortalece, elimina barreiras e tem efeito transformador.
Quando um jovem, e particularmente uma jovem mulher é exposta à educação, ela se torna autora da sua própria história, deixando de ser uma simples espetadora passiva, e essa nova condição ultrapassa a esfera individual, acabando por ter impacto nas famílias, nas comunidades, e até nas políticas públicas.
É fundamental incutir nos jovens que obter conhecimento dá voz e cria o direito de escolha, e dar escolha a uma mulher é garantir o futuro a uma nação. Por isso, defendo que o investimento na educação é um ato progressista, sobretudo quando direcionado para as meninas e mulheres do nosso continente.

Como analisa o atual estado da igualdade de género em São Tomé e Príncipe e na África?
A igualdade de género em São Tomé e Príncipe, e em boa medida no continente africano continua a ser uma promessa ainda em fase de construção. É certo que há mais mulheres com acesso à educação formal, e ao ensino superior, a preencher lugares nas empresas e nos parlamentos, mas ainda persistem muitas desigualdades salariais. É notória a sub-representação em cargos de decisão e muitas ainda são as barreiras culturais que emudecem as vozes femininas. Diria que temos avanços, mas ainda estamos aquém do ponto desejado.
Contudo, é digno de nota o papel de uma nova geração de raparigas e mulheres, que é mais informada e consciente dos seus direitos e que se mostra determinada a ocupar o papel que é seu. Da mesma forma, também me parece que os homens estão mais sensibilizados e, procuram ainda que timidamente, advogar a nosso favor, o que faz todo o sentido porque só a sinergia de forças, aptidões e competências é a chave que alicerça e garante uma sociedade mais justa, representativa e desenvolvida.

Que barreiras ainda persistem e como combatê-las?

Por um lado, as barreiras estruturais habituais e que são visíveis, desde logo o acesso desigual à educação, à propriedade da terra, ao financiamento e até à proteção jurídica. E por outro as barreiras invisíveis, como o machismo institucional, a violência doméstica e sexual, o assédio sexual e os estereótipos que tentam definir o que uma mulher é e o que deve ser, numa tentativa preconceituosa de a limitar ao colocá-la dentro de uma caixa.
O combate a estas barreiras tem de ser simultâneo e em várias frentes: na esfera familiar estabelecendo o papel contributivo de todos, na mudança das estruturas culturais, na aprovação de leis mais robustas e que garantam a efetivação do direito, no sistema de educação inclusivo, no reforço de políticas públicas mais eficazes, e, acima de tudo, na vontade de todos de fazer essa mudança.
É preciso investir na mensagem de que os homens e as mulheres são parceiros na construção da sociedade e que o progresso da mulher não ameaça ninguém antes, beneficia a todos.

Como mulher negra, africana e líder, quais foram os preconceitos enfrentados ao longo do caminho?

Enfrentei muitos preconceitos. E me parece que o mais severo é aquele que nem é sequer verbalizado. É o ser julgada e subestimada antes mesmo de ter a oportunidade de demonstrar as minhas capacidades.
Fui alvo de preconceitos de motivações de naturezas diversa, seja de motivação racial, seja profissional, ouvi algumas vezes que era “demasiado ambiciosa para uma mulher”, quando o que queria era construir o caminho para alcançar sucesso profissional, outras vezes em posição de liderança me pediam para “agir com mais delicadeza”. Inúmeras vezes fui a única mulher numa reunião, e em contextos internacionais, já me olharam com desconfiança, como se a minha presença fosse um acaso.
Mas com o passar dos anos aprendi que a cada preconceito a solução era responder com competência, excelência, ética e resultados concretos, sem perder a dignidade. Ser mulher, negra e africana é a minha força e a minha história de resistência.

Considera-se feminista? Que visão tem sobre o feminismo africano?

Eu sou humanista, porque acredito na igualdade de direitos, deveres e oportunidades para homens e mulheres. Se os direitos de cada um fossem respeitados, se tivéssemos a justa representatividade seria suficiente ser humanista.
Eu advogo inquestionavelmente o direito da mulher, mas nessa luta sou particularmente inspirada pela realidade da mulher africana, que precisa de ser alterada.
As nossas raízes culturais e históricas e a ancestralidade das mulheres do meu continente, recordam-nos o papel fundamental que a mulher teve nas comunidades e reinos de África.
Hoje somos chamadas a reconstruir um novo caminho, e temos de o fazer de forma coletiva e resiliente, de forma a que mulher seja sinónimo de liberdade, beleza, força e orgulho.

Neste mês em que celebramos a Independência de São Tomé e Príncipe, qual o significado pessoal e político dessa data?

A independência do nosso país não é apenas um marco político, é acima de tudo um ato de afirmação da nossa identidade, da nossa dignidade e da nossa capacidade de sonhar com um futuro soberano, e embora essa independência não seja ainda completa porque falta a independência económica, sem dúvida que a independência é um legado de que todos nos devemos orgulhamos.
Para mim, representa um símbolo pessoal, eu cresci ouvindo que deveríamos amar a pátria como um compromisso de esperança e de responsabilidade, em que a independência não era um fim em si, mas antes um ponto de partida. Tal nos era requerido, como forma de honrar os que se sacrificaram para que hoje pudéssemos ter a almejada liberdade, e sob ela construir uma pátria de que teríamos orgulho.
Celebrar essa data é renovar o compromisso com a justiça social, com a educação do nosso povo e com o desenvolvimento sustentável. É lembrar que a pátria é de todos nós — e que a sua independência só é plena quando cada cidadão também se sente livre para viver com dignidade. Para isso, temos de virar páginas, reescrever uma nova narrativa democrática visando o progresso económico.

Como avalia os avanços do país desde a independência até hoje?

São Tomé e Príncipe percorreu um caminho importante. Passámos da condição de colónia ultramarina para a de Estado soberano, criámos novas instituições, elegemos dezanove governos constitucionais, firmámos relações diplomáticas internacionais e conquistámos o nosso espaços no diálogo regional africano e na esfera global. Melhoramos em algumas áreas da saúde, particularmente a saúde materna e a cobertura vacinal, elevamos as taxas de literacia e a participação cívica. Mas a pobreza continua a persistir, a justiça precisa de ser reformada e alguma instabilidade política é preocupante. Acresce que há assimetrias sociais a serem colmatadas, porque sem emprego, sem saúde de qualidade, sem educação de referência e prosperidade, a liberdade pode ser posta em causa.
É preciso escutar as legitimas aspirações da juventude, desta nova geração que clama por uma África que ofereça resposta aos desafios do desemprego, e que assuma o seu papel no contexto global, a fim de acompanhar a rápida e profunda mudança global.
A independência económica teima em chegar, mas acredito que há uma determinação sobretudo da nossa diáspora, uma nova consciência cívica, uma juventude inquieta, enérgica e detentora de um espírito empreendedor vibrante. O futuro de São Tomé e Príncipe está nas mãos de quem tiver coragem e ousadia para sonhar e determinação para agir. O chamado é coletivo e temos de caminhar com firmeza para um futuro melhor.

Que papel São Tomé e Príncipe pode desempenhar num contexto africano mais unido e colaborativo?

São Tomé e Príncipe tem uma vocação geoestratégica e um potencial imenso. São Tomé e Príncipe pode ser a ponte entre culturas e regiões. Apesar dos nossos desafios políticos, usufruímos de relativa estabilidade política, fruto da nossa irrepreensível transição política regular e pacífica e que deve ser exemplo em todo o continente africano.
Temos uma tradição de diálogo que faz do nosso país um espaço ideal para mediar, e o nosso jovem capital humano enquanto motor essencial para o desenvolvimento deve ser valorizado a fim de evitar os processos migratórios não controlados, permitindo que a juventude possa contribuir para o progresso nacional.
São Tomé e Príncipe tem todo o potencial para se assumir como um laboratório de boas práticas democráticas, estabilidade e coesão para África, podendo mostrar que a grandeza de um país não é mensurável apenas pelo seu espaço territorial, mas pela sua destreza em arquitetar consensos.

Qual a sua visão sobre o futuro político e social do continente africano?

Vislumbro um continente perante a possibilidade de realizar grandes mudanças estruturais, se o quiser fazer. A África é hoje um lugar criativo, onde o mundo deve olhar com expetativa, atenção e respeito, temos a juventude mais vibrante do planeta e possuímos recursos naturais e culturais incalculáveis. E temos acima de tudo, fé no amanhã. O futuro político do continente africano chama-o ao protagonismo, mas isso requer máxima responsabilidade dos nossos líderes e dos nossos cidadãos.
A juventude exige lideranças comprometidas com o interesse do povo, melhor educação, mais saúde, mais justiça social, ética e visão de médio e longo prazo. Para tal precisamos de reformular as nossas políticas, converter os nossos desafios em soluções africanas para problemas globais, materializadas através de uma cooperação equitativa e equilibrada. Acredito numa África que se ergue com dignidade para propor e não para pedir. E essa África tem de ser construída com gestos de coragem de cada homem, mulher e jovem que se levanta, e que se recusa a desistir.

Olhando para tudo o que construiu, qual considera ser o seu maior legado?

O maior legado está nas pessoas que, ao verem o meu percurso, passaram a acreditar que também podiam. Está na jovem que decidiu estudar direito porque viu uma mulher negra sentada num tribunal constitucional. Está na menina da roça que hoje sonha em ser embaixadora. Está na mulher empreendedora que ousou abrir seu primeiro negócio. O meu maior legado é o de abrir caminhos. É ter sido uma presença que questionou estruturas, desafiou o silêncio e mostrou que é possível liderar com ética, com firmeza e com coração. Se deixei alguma marca, espero que tenha sido a de fazer com que outros também se sentissem capazes de transformar a atmosfera à sua volta, e quiçá o mundo.

Que conselhos deixa para as jovens africanas que hoje sonham com uma carreira pública, jurídica ou empreendedora?

Sonhem alto, mas com os pés na realidade. Estudem e invistam em conhecimento e nunca parem de aprender. Leiam e questionem. Sejam curiosas e corajosas. Não deixem que o mundo lhes diga que “não é para vocês”, sejam sempre fiéis aos vossos valores, mas flexíveis nas vossas estratégias. Sejam solidárias e unam-se, porque a força e a luz da mulher africana está na sua comunidade. Não tenham medo de cair, mas tenham medo de não tentar. E lembrem-se sempre que vocês não estão sozinhas, pois cada passo que vocês derem vai ecoar em outras meninas e mulheres. Sejam a continuidade e também um novo recomeço.

O que ainda deseja conquistar nos próximos anos?

Desejo continuar a servir. Não necessariamente a partir de cargos, mas a partir de propósitos. Quero investir mais na formação formal, ética e moral de jovens líderes, bem como criar espaços de escuta, conhecimento e de construção coletiva, e sobretudo fortalecer redes de mulheres em toda a África. Quero ter tempo para trazer à luz os meus escritos, ensinar e dialogar. O meu desejo é contribuir para que a justiça e a dignidade sejam realidades para todos e não apenas privilégios de alguns e promessas distantes e utópicas. Ainda tenho muitos sonhos, e todos convergem para um único ponto: contribuir para o meu ecossistema, e quiçá deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrei.

Qual é a sua mensagem final neste mês tão simbólico, em que celebramos a mulher africana e a independência de seu país?

A mulher africana é uma força, ela se reinventa perante os desafios e ri chorando. Ela guarda o tesouro da nossa memória e aponta o caminho do futuro. Neste mês, celebro a todas as mulheres que resistiram e resistem em silêncio, todas as que lutam com a força do afeto, todas as que rasgaram caminhos onde não havia um trilho. Celebrar a mulher africana é homenagear a coragem que se levanta apesar das dificuldades, que gere a família, que se sacrifica pelos filhos, ela é a inteligência que com esperança se reinventa.
E celebrar os 50 anos da nossa independência é lembrar que ser livre é uma tremenda responsabilidade com as gerações vindouras e acima de tudo é uma missão para o futuro. Neste ano de jubileu temos de nos perdoar pelos erros do passado e acelerar as nossas ações no sentido de corrigir as injustiças cometidas. Mas acima de tudo, cada um de nós tem de se comprometar a construir um país e um continente onde todas as vozes sejam ouvidas, onde a justiça não seja um privilégio, e onde ser mulher seja celebrado, e seja motivo de orgulho. O futuro da nossa África é moldado pela contribuição e a coragem de todos os seus filhos, mas sobretudo, das suas filhas! Mas acima de tudo tenham Jesus Cristo em primeiro lugar.

Partilhar

Revista Digital

Revista Pontos de Vista Edição 147

Popular

Mais Artigos deste tipo

“Eu não vendo casas; ajudo a descobrir novos lares cheios de sonhos”

No âmbito do tema “A Nova Agenda das Líderes...

Hoje, defendo uma liderança consciente, exigente e profundamente humana

Num contexto empresarial marcado pela aceleração constante, pela incerteza...

“A Fiscalidade petrolífera tornou-se geoestratégia aplicada”

Num mundo marcado por conflitos armados, instabilidade financeira e...