No universo da moda, há marcas que se limitam a vestir e outras que contam histórias. A IS lifestyle, criada por Irina Feio Mendes, é uma dessas marcas que se destaca por transformar identidade em estilo, tradição em tendência, e cultura em força empreendedora. Nascida na Guiné-Bissau e formada em Direito em Portugal, Irina é muito mais do que uma mulher multifacetada — é o reflexo vivo de uma fusão cultural entre a elegância portuguesa e a riqueza africana. No âmbito do Dia da Mulher Africana, a Revista Pontos de Vista dá destaque ao percurso inspirador desta mulher de fé, resiliência e visão, que encontrou na moda uma forma de expressar as suas raízes e afirmar a liderança no feminino.
Quem é Irina Feio Mendes e como nasce a IS lifestyle?
Nasci na Guine Bissau, mas vim para Portugal aos 6 anos de idade, aqui cresci e estudei. Sou licenciada em Direito com um Mestrado em Ciências jurídico-criminais pela Faculdade de Direito de Coimbra. Sou advogada inscrita na Ordem dos Advogados da Guine Bissau e fui professora assistente da Faculdade de Direito de Bissau.
De momento trabalho como Especialista em Salvaguarda Social num projeto de economia digital do governo da Guine Bissau financiado pelo Banco Mundial. Sou uma mulher de fé, cresci na igreja evangélica e acredito que todos nós vimos a este mundo para cumprir um propósito, e que a inspiração artística vem de Deus. Sou uma sonhadora e batalhadora, a palavra desistir não faz parte do meu vocabulário, sou uma pessoa de família, sou a segunda filha de 6 irmãos, fruto de pais imigrantes que conseguiram superar as dificuldades impostas pela dureza da vida. Aos 24 anos regressei a Bissau e desde então tenho vivido entre um e outro país. Tenho dois filhos, o Isaac de 18 anos e a Beatriz de 13, por eles sou capaz de fazer todos os sacrifícios necessários.
A marca distingue-se pela fusão entre o pano de pente guineense e o design contemporâneo português. Como surgiu esta inspiração intercultural?
Sim, precisamente, a marca IS lifestyle é uma fusão perfeita entre o pano de pente guineense e o design contemporâneo português. Esta combinação deve-se às minhas próprias caraterísticas interculturais. Na realidade sempre gostei de acessórios práticos e, ao mesmo tempo, elegantes e sofisticados. Porém, ao usá-los, sempre senti que lhes faltava um toque de individualidade, algo que me pudesse identificar a 100% com o que usava, pois acredito que a moda é a expressão da nossa personalidade. A necessidade faz o engenho e na época da covid-19, tínhamos acabado de chegar a Portugal e, como na altura não tinha emprego, surgiu a ideia da IS lifestyle. Comecei por comprar chapéus e cestas de palha portuguesas que a minha mãe costurava alguns apontamentos de tecido de pano de pente nos mesmos. Na altura também vendíamos bolsas de senhora em croché combinadas com o tecido, confecionava bijuteria, tudo com base no mesmo conceito: uma celebração da cultura africana com um olhar contemporâneo.
Que valores estão presentes em cada peça da IS lifestyle? E a quem se destinam as vossas criações?
Cada peça da IS Lifestyle incorpora os valores que nos definem: integridade, inovação, respeito, sustentabilidade, personalização, paixão, qualidade e foco no cliente. Satisfazer as necessidades e expetativas do cliente é o nosso principal objetivo. As nossas peças são criadas para mulheres que gostam de acessórios com história, elegância, sofisticação e exclusividade.
as malas IS lifestyle são todas ou em palha ou em pele genuína, com a combinação do tecido tradicional guineense de pano de pente.
Como tem sido o acolhimento da marca, tanto em Portugal como na Guiné-Bissau e na diáspora africana?
Tem sido muito gratificante constatar que a marca IS lifestyle é transversal a diversos contextos culturais, quer em Portugal, quer na Guine Bissau, tem havido uma identificação muito grande com as nossas peças. É bonito ver como um acessório pode criar pontes entre culturas. Já temos alguns contatos em Cabo Verde e gostaríamos imenso de também entrar noutros mercados da diáspora africana.
Empreender na área da moda exige visão, resiliência e autenticidade. Que principais desafios e conquistas marcaram o seu percurso enquanto empreendedora?
Empreender é, acima de tudo, um exercício de persistência e autoconfiança. Um dos maiores desafios tem sido manter a inovação constante, criando peças criativas que se destaquem no mercado. A divulgação da marca também exige um esforço contínuo – é necessário saber comunicar, acreditar e manter o foco mesmo nos momentos menos fáceis.
Mas também existem conquistas muito recompensadoras, como o reconhecimento espontâneo dos nossos clientes e a fidelização que temos vindo a conquistar. Muitas vezes, o maior desafio não está fora, mas dentro de nós — no mindset, na forma como gerimos as dúvidas e mantemos a motivação.
Enquanto mulher empreendedora e criadora, como encara o papel da liderança no feminino no contexto atual? Considera que ainda existem barreiras específicas a superar?
Penso que relativamente ao papel da liderança no feminino, no contexto atual, apesar de ainda enfrentar desafios como estereótipos de género e barreiras culturais, esse trabalho está muito mais facilitado e tende a normalizar-se, cada vez mais graças às conquistas protagonizadas pelas mulheres do século XX. A liderança feminina desempenha um papel preponderante na transformação organizacional e social e traz benefícios para as empresas. A mulher tem a capacidade de impulsionar a inovação, a comunicação e o trabalho colaborativo. As mulheres líderes focam-se no bem-estar da equipa e são empáticas, contribuindo para uma sociedade mais justa, inspirando outras mulheres a perseguirem os seus objetivos e a aspirarem cargos de poder.
Que conselhos deixaria a outras mulheres africanas ou afrodescendentes que desejem lançar os seus próprios projetos?
O primeiro passo é fazer uma análise cuidada do mercado, identificar oportunidades e ter uma visão clara do que se quer construir. A seguir, elaborar um plano de negócios realista e avaliar as necessidades financeiras — sem capital, é difícil escalar um projeto, e é importante estar preparada para contratempos.
Outro aspeto essencial é construir uma rede de apoio: familiares, mentoras, outras empreendedoras. No início, os desafios surgem com frequência, e é nesses momentos que é mais fácil desanimar. Por isso, rodeiem-se de quem vos inspira e compreende.
Sobretudo, não deixem que o medo ou os comentários negativos vos desviem do vosso caminho. Acreditem no vosso potencial, valorizem a vossa identidade e façam dela o vosso diferencial. Quando colocamos o nosso ADN em tudo o que fazemos, isso transparece — e atrai.
Que mensagem gostaria de deixar no âmbito do Dia da Mulher Africana — tanto enquanto mulher como criadora de uma marca que valoriza a herança cultural do continente?
A África tem muito para oferecer, o desafio está muitas vezes em aplicar o que já existe em conceitos modernos e inovadores.
As riquezas socioculturais, linguísticas e económicas podem ser aperfeiçoadas, respeitando a raiz, a tradição, mas incrementando originalidade, criando soluções inteligentes e eficazes. Em suma, fundir o clássico e o tradicional às exigências do avanço tecnológico, da sofisticação, da elegância e do luxo.
É possível honrar as nossas raízes e, ao mesmo tempo, criar produtos sofisticados, elegantes e com padrão internacional quando se tem bom gosto e autenticidade. Gostaria de incentivar todas as mulheres a acreditarem em si e no seu potencial.
Pode partilhar connosco os próximos passos ou objetivos futuros da IS lifestyle?
Neste momento, estamos focados em consolidar a presença da marca no mercado português e europeu. Paralelamente, queremos expandir a distribuição dos nossos produtos para outros países africanos, fortalecendo a nossa identidade. O nosso objetivo é continuar a crescer de forma sustentável, mantendo a autenticidade e a qualidade que nos definem, tornado a IS lifestyle uma referência no segmento da moda intercultural.


